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Novo ciclo do ouro

O Globo, Economia, p. 29-31
20 de Nov de 2011

Novo ciclo do ouro
Com tecnologia e metal caro, produção do país vai dobrar, atraindo investimentos de US$2,4 bi

Vivian Oswald
vivian.oswald@bsb.oglobo.com.br

Quatro séculos depois do ciclo do ouro que encheu os olhos da Coroa Portuguesa e levou brasileiros e estrangeiros atrás do enriquecimento rápido, o Brasil está diante da maior corrida de todos os tempos pelo metal. Novos equipamentos sofisticados já permitem às gigantes estrangeiras que dominam o mercado nacional chegar ao que poderia ser chamado de "o pré-sal da mineração". No Centro-Oeste e no Norte, minas até então intocadas tornaram-se economicamente viáveis, assim como outras consideradas esgotadas em Minas Gerais e no Nordeste.
Tudo isso graças ao aumento, em todo o planeta, da demanda pelo ouro - cuja cotação deu um salto de 540% na última década - estimulada pelo crescimento econômico mundial, sobretudo da China, e pela necessidade dos países de acumular o metal, que é considerado um dos ativos financeiros mais confiáveis do mundo.
Metal é encontrado a 2.500m no Brasil
O entusiasmo é tanto que o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) já estima investimentos de US$2,4 bilhões para o setor até 2015. Trata-se de praticamente o triplo da projeção anterior, de pouco mais de US$900 milhões. As empresas não disfarçam o otimismo e prometem novos projetos, enquanto as autoridades estimam que a produção do ouro também deve crescer de maneira expressiva, podendo dobrar nos próximos cinco anos. Só no Rio Grande Norte, sairá de 60 gramas para seis toneladas se todos os projetos em análise se concretizarem.
Existem hoje no país 2.819 garimpos legais em atividade. Mas o Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) já concedeu 1.270 novas autorizações de pesquisa em áreas a serem exploradas, e analisa outros 1.173 pedidos encaminhados por empresas e cooperativas.
Se a crise financeira global de 2008 impôs um ritmo bem menos acelerado às economias desenvolvidas, o que, em tese, diminuiria a demanda pelo ouro, ela acabou por ajudar a desvalorizar o dólar e pressionar os preços do metal, considerado historicamente porto seguro pelos investidores. Os bancos centrais mundiais nunca compraram tanto ouro para manter em suas reservas internacionais desde a década de 80. A escalada dos preços viabilizou novos investimentos milionários em pesquisas e tecnologia.
No passado, o ouro brotava da terra, ou dos rios, e retirá-lo não exigia muito esforço. Hoje ele é encontrado em profundidades de até quatro mil metros na África do Sul, mas já está em 2.500 metros no Brasil. Máquinas sofisticadas são capazes de extrair menos de um grama de ouro de uma pedra de uma tonelada, ou seja, algo equivalente a um automóvel de passeio.
Isso explica o motivo de o Brasil, que já foi o maior produtor do mundo, mas perdeu posições no passado recente, ter voltado ao páreo e estar em 13o lugar na lista dos grandes globais. Em 2010, produziu 62 toneladas nos garimpos legais, o maior volume da década, e se prepara para dobrar a marca. O maior produtor do mundo é a China, com 341 toneladas/ano, seguida por Austrália (259 toneladas), Estados Unidos (240 toneladas) e África do Sul (192 toneladas).
A produção brasileira é muito pequena, apenas 12% de seu potencial. Considerando-se as reservas provadas em 2010, o Brasil tem a capacidade de extração anual de 503 toneladas do metal puro. A quantidade foi calculada com base em 1,3 bilhão de toneladas de rochas com o minério, com teor médio de 2,57 gramas por tonelada rochosa.
Tecnologia pode levar país ao topo
A expectativa do governo e de especialistas é que justamente a tecnologia deverá mudar este quadro e alçar o Brasil ao topo da lista novamente. Em vez dos tradicionais garimpos artesanais que enchiam de mercúrio os rios brasileiros, o país já tem 93,7% da sua produção feita de maneira industrial, segundo o DNPM. O minério de ferro continua sendo a principal vedete da balança comercial brasileira e corresponde a mais de 80% do que o país vende lá fora, mas o segundo metal é o ouro, com quase 5% do total.
Em Crixás, no Norte de Goiás, a Mineração Serra Grande, uma joint-venture da AngloGold Ashanti, da África do Sul, com a Kinross Gold Corporation, do Canadá, já trabalha a 700 metros, com túneis que, somados, chegam a 60 quilômetros de extensão. A ambição da empresa, que detém as minas mais profundas do Brasil, ambas em Minas Gerais (Mina Cuiabá, em Sabará, com 1.000 metros, e Mina Grande, em Nova Lima, com 2.500), pode ser medida pelos seus planos de investimentos.
O diretor de Operações da empresa, Ricardo de Assis, afirma que US$1,1 bilhão será aplicado em novos projetos, ampliações e manutenção das minas que operam no país. A Anglo é a segunda maior produtora do Brasil e a terceira do mundo.
Não muito distante de Crixás, em Paracatu, está a maior mina de ouro a céu aberto do país, explorada pela canadense Kinross. Para chegar ao metal, a empresa precisou investir na tecnologia que a permite retirar a quantidade de 0,4 grama do mineral de uma tonelada de pedra. Nos últimos cinco anos, segundo o vice-presidente da companhia no Brasil, Antonio Carlos Marinho, a produção saltou de cinco para 15 toneladas.
Na Mina de São Francisco, no Rio Grande do Norte, a australiana Crusader está concluindo as pesquisas iniciadas há um ano e pretende produzir de três a cinco toneladas por ano neste lugar onde poucos viram potencial no passado. A expectativa é que o teor do ouro seja de 1,5 grama para cada tonelada, segundo o responsável pelas pesquisas, Rob Smakman, que vive no Brasil há alguns anos com a família e tem liderado os trabalhos da empresa no país.
- É uma região pouco explorada - disse Smakman.

Segurança é uma preocupação para grandes mineradoras e garimpeiros
Medidas incluem vigilância armada 24 horas e proibição do uso de celular

Vivian Oswald

CRIXÁS (GO). Em torno da Mineração Serra Grande, no interior de Goiás, as cercas de arame farpado enroladas sobre os alambrados e o forte esquema de segurança para entrada e saída de visitantes - e até mesmo de funcionários - é a prova de que não se trata apenas de uma sensação o clima de neurose instalado na planta da terceira maior mineradora de ouro do Brasil. Há um posto da Polícia Militar no portão de entrada e pontos de observação em torres espalhadas pela empresa. O cenário faz lembrar uma penitenciária de segurança máxima.
Ninguém entra com celular ou câmeras fotográficas sem autorização prévia. E, mesmo depois do exaustivo processo de identificação na portaria, só se anda seguindo as marcações pelo chão, sob o risco de levar reprimendas e até mesmo ser expulso do local. Poucos sabem quando sairá o próximo carregamento de ouro da empresa, só quando o helicóptero pousa para buscar a mercadoria - e, em alguns minutos, decola novamente com paradeiro desconhecido. A repórter não teve sequer acesso ao processo de transformação de pedregulhos de mais de uma tonelada em ouro.
A paranoia da Mineração Serra Grande - que é uma joint venture entre as gigantes sul-africana AngloGold Ashanti e canadense Kinross, que também operam em outras regiões brasileiras - tem por objetivo evitar que se repitam os dois roubos registrados desde 2005. O último teria sido acionado por um telefonema de celular de dentro da empresa no momento em que o helicóptero estava sendo carregado.
Funcionários mais qualificados são vigiados
A política de segurança é tão estrita que a empresa mantém também sob a guarda de vigilantes durante 24 horas por dia a área onde vivem os funcionários mais qualificados e a sua Casa de Hóspedes.
A ideia é evitar a exposição de quem detém informações sigilosas estratégicas, como geólogos e engenheiros, a quartos de hotéis, por exemplo. As regras de segurança e planos de carga e descarga de mercadoria são mantidas em sigilo. Quanto menos as pessoas de fora souberem, menos munição gatunos terão contra a companhia.
- Só posso dizer que sai de helicóptero. Até porque a cidade inteira vê a aeronave indo e vindo. Como sai do país, não podemos revelar. Este é um dado estratégico da empresa - disse de um de seus funcionários, que não pode se identificar.
Nem todos os funcionários das empresas sabem muito mais informações do que as suas áreas de competência. Alguns têm acesso a áreas a que outros não dispõem. E nunca ninguém está sozinho com o ouro.
A 20 km dali, na boca da mina de Lavra, que é explorada por um punhado de garimpeiros, não há qualquer aparato de segurança ou vigias de plantão. Mas fica claro que os trabalhadores tampouco se afastam dali. Por volta das 18h30m, um deles chega ao serviço abraçado a um colchão. Vai dormir nas instalações para proteger a área da mina de onde tiram a subsistência. Não são raros os casos de mortes por brigas ou assaltos no garimpo.
Não é de hoje o interesse de assaltantes pelo ouro produzido pelas grandes empresas. Se os roubos podem parecer mais fáceis em minas de menor porte, exploradas por garimpeiros, as companhias maiores continuam sendo alvos de criminosos, dadas a quantidade que produzem e sua organização.
Pequenas remessas para evitar acúmulo do metal
Por isso, em algumas, parte da estratégia é mandar várias pequenas remessas para fora das plantas e assim evitar o acúmulo de muita quantidade no local, em geral mais isolado e desprotegido do que nos centro urbanos.
No último dia 9, uma tentativa de roubo fracassada foi feita na mina de ouro Aurizona, no Maranhão. Homens armados tomaram como reféns os funcionários de um povoado próximo e tentaram forçar a entrada nas instalações de armazenamento do metal da companhia Luna Gold, localizada na mina. Ao final, todos os reféns foram libertados ilesos. Os indivíduos não tiveram sucesso na tentativa de assalto e nenhum ouro foi roubado.
Em nota, a empresa afirmou que a produção havia continuado em Aurizona, sem interrupção, mas com alguns danos às instalações de armazenamento de ouro. A Luna Gold disse ainda que as políticas e procedimentos implementados após um roubo em dezembro de 2010 impediram a perda de ouro na última.

Quase um pré-sal
Sistema de ventilação especial permite trabalhar a tal profundidade

CRIXÁS (GO). A sul-africana AngloGold Ashanti se prepara para extrair ouro de uma profundidade de nada menos que 2.500 metros no município de Nova Lima, em Minas Gerais. Ou seja, uma espécie de "pré-sal" da mineração. Esta é a mina mais profunda de que se tem notícia no país e estava fechada há anos por falta de tecnologia capaz de torná-la rentável novamente. Na média, as minas em operação no país têm até mil metros.
Um sistema de ventilação sofisticado garante a refrigeração dos túneis de outra mina da empresa, a Cuiabá, em Sabará (MG), atualmente a mais profunda em operação no país, com 1.100 metros de profundidade. Sem o equipamento, que exigiu a instalação de uma planta especial ao lado do campo de exploração, dificilmente os funcionários da mineradora teriam condições de se manter trabalhando ali por tanto tempo.
O ritmo das máquinas dentro dos túneis é incessante. Equipamentos gigantescos se movem pelas pistas largas como se estivessem ao nível do mar. Ao longo de todo o trajeto, o ar é refrigerado e equipamentos de segurança e comunicação se espalham pelos buracos, que são entrecortados por rotas de saída. Toda esta estrutura também exige tecnologia especial.
Em Riacho dos Machados e Porteirinha, no Norte de Minas Gerais, a canadense Carpathian aguarda a licença ambiental que a autorizará buscar ouro em mina que já havia sido explorada e encerrada pela Vale, de 1990 a 1997. A empresa estrangeira adquiriu os direitos de exploração na região em 2008 e deve gastar US$160 milhões para implantar fábrica.
A ideia é usar uma nova tecnologia de beneficiamento do mineral que permita ir além das camadas superficiais atingidas no passado pela Vale. O fim da operação em Riacho dos Machados coincidiu com a privatização da empresa e com preços pouco atraentes do ouro.
A partir de 2013, terão início novos projetos em Serra Pelada, que ficou conhecida nos anos 80 pelos formigueiros humanos que atraía para o garimpo, que no auge da produção reuniu cerca de 130 mil trabalhadores. O projeto é da Serra Pelada Companhia de Desenvolvimento Mineral (SPCDM), parceria entre a Coomigasp e a canadense Colossus. O investimento é de R$320 milhões até o início da produção, em 2013.
Em outra iniciativa na região, três sindicatos e associações de trabalhadores se uniram à chinesa Shanghai Pengxin. O grupo está em fase de pesquisas, mas espera produzir em breve, segundo o presidente da Cooperativa de Mineração, Desenvolvimento Social e Agromineral dos Garimpeiros de Serra Pelada (Cooperserra), Raimundo Benigno. (Vivian Oswald)

Passada a febre do ouro, Lavra vive hoje no abandono
Exploração artesanal persiste, apesar do esvaziamento do vilarejo

Vivian Oswald
vivian.oswald@bsb.oglobo.com.br

CRIXÁS (GO). A existência de ouro determinou, desde sempre, o destino do vilarejo de Lavra, a 15 quilômetros de Crixás, no interior de Goiás. Dos 30 mil habitantes, que fizeram deste pequeno distrito que se organizou em torno das minas um dos mais movimentados da região, não restam mais de cem pessoas. Lavra foi sinônimo de riqueza, diversão e prosperidade entre as décadas de 80 e 90. Da bonança de 20 anos atrás, sobraram as carcaças de antigas casas e suas paredes prestes a desabar, testemunhas da decadência desencadeada pelo esgotamento da forma antiga de exploração desse metal nobre.
Uma das primeiras moradoras do que hoje é considerado apenas um bairro pobre de Crixás, dona Maria Pereira assistiu às profundas transformações por que passou o lugar que escolheu para viver há 23 anos. Sua casa era o antigo cinema do vilarejo. De seu terraço, aponta para o que foi um animado bingo onde os garimpeiros endinheirados perdiam boa parte do que ganhavam, quando não gastavam com mulheres e bebidas.
- Eram tantos carros nesta estrada que o trânsito era impossível. A poeirada, nem se fala. Não se via o outro lado da $- lembra dona Maria, aos recém-completados 63 anos.
O comércio hoje se resume a um mercadinho e ao bar onde os homens se reúnem para a cerveja e o bilhar depois do trabalho. As ruas parecem desertas, e as poucas pessoas que se vê circulando são os garimpeiros. O movimento é incessante nos poucos túneis remanescentes na mina no fim da avenida principal. Ali, dezenas de homens lutam pela sobrevivência. Eles ainda procuram o ouro que tantas promessas deixou no ar no passado e desenvolveu o vilarejo de Lavra. A exploração artesanal deixa evidentes os riscos da profissão.
- Uma vez um diretor de uma grande empresa nos disse que estamos 500 anos atrasados - afirmou José Elias, presidente da Associação de Moradores de Lavra.
Produtos químicos são despejados na terra
Elias também é secretário da cooperativa formada pelas 42 famílias que ainda tentam se sustentar do pouco ouro que conseguem retirar do fundo desses túneis lúgubres, em condições de trabalho às quais dificilmente alguém se submeteria.
Nas redondezas, a mata vai desaparecendo e a terra ainda úmida é tomada por uma cor esbranquiçada. Quem vê, não titubeia:
- São os químicos que eles usam na produção do ouro.

Royalties: estados e municípios ficam com 88%
Governo quer elevar alíquotas da mineração. Produtores de petróleo podem reagir

BRASÍLIA. A exemplo do ouro, a exploração mineral no Brasil tem crescido exponencialmente e aguçado a cobiça de estados e municípios pela arrecadação dos royalties sobre a atividade, chamados de Contribuição Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (Cfem). Hoje estados e municípios produtores ficam com 88% dos royalties. O governo planeja elevar as atuais alíquotas cobradas, que variam de 0,2% a 3% sobre o lucro líquido das empresas, no âmbito do novo marco regulatório da mineração. Mas projetos no Congresso já se antecipam, com o objetivo de arrancar o máximo de receitas, que devem crescer de 10% a 15% ao ano no próximo triênio.
As discussões sobre a nova legislação, que deve ser enviada ainda este ano à apreciação dos parlamentares, serão aquecidas ainda pela polêmica queda de braço entre estados e municípios em torno dos royalties do petróleo - na qual o Rio, que representa mais de 80% da extração em alto-mar no país, está sofrendo um ataque a sua arrecadação. Os estados produtores de petróleo já prometeram avançar sobre os royalties da mineração e devem ter o apoio de outras unidades da Federação.
- Tecnicamente, são até situações diferentes. Mas não politicamente - afirmou ao GLOBO um técnico do Executivo.
Com a explosão do setor, a Cfem deve arrecadar este ano o recorde histórico de R$1,3 bilhão - 299% acima dos R$326 milhões de 2004. O valor deve ser ainda maior nos próximos três anos, e não só porque o governo vai mexer nas alíquotas. Está em discussão, por exemplo, o aumento da Cfem do ouro de 1% para 3%, com alíquotas diferenciadas para o mineral que vem do garimpo e o das grandes empresas. Mas porque o novo marco conterá facilidades para agilizar investimentos.
Hoje, a União fica com apenas 12% dos royalties da mineração. Desse total, 9,8% ficam com o Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM); 2%, com o Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT); e 0,2%, com o Ibama. Os municípios produtores são os que mais recebem: 65%. Já os estados produtores ficam com 23%. Do total pago pelas empresas a título de royalties, 48% ficam somente com Minas Gerais. Pará recebe 28%; Goiás, 5%; São Paulo, 4%; Bahia, 2,7%; Mato Grosso do Sul, 1,8%; e Sergipe, 1,7%. Os restantes 8% vão para os outros estados produtores.
De olho no futuro promissor da mineração, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) já encaminhou ao Senado projeto de lei que prevê alíquota de até 5% para a Cfem, que seria recolhida em cima do faturamento bruto das empresas. Ele também cria "participação especial" de 2,5% sobre as jazidas mais lucrativas, nos moldes da taxa extra cobrada na exploração do petróleo.
Aécio defende as mudanças como forma de "corrigir injustiça histórica, sobretudo em relação aos municípios e estados mineradores, assegurando maior compensação pela exploração dos recursos minerais". Ele alega, por exemplo, que os royalties do petróleo são hoje de 10% - no novo regime de partilha, deverá ser de 15%. A proposta prevê que 8% dos royalties minerais sejam divididos pelos municípios do estado arrecadador, independentemente de produzirem ou não minério. (Vivian Oswald)

Do ouro enviado a Portugal a Serra Pelada
Primeiros registros de existência do metal no país datam de 1552. Escravos eram os trabalhadores das minas

CRIXÁS (GO). As primeiras notícias sobre a existência de ouro no Brasil, que sempre atraiu a atenção dos estrangeiros, datam de 1552. Mas são do fim do século XVII as descobertas mais importantes que alçaram o país à posição de maior produtor do mundo. Entre 1700 e 1820, produziu-se um mínimo de 535 toneladas de ouro, das quais 107 toneladas foram repassadas à coroa portuguesa (imposto do quinto) ou seja, uma média de cerca de 892 quilos por ano.
A exploração de minas dependia de pesados investimentos em mão de obra (escravos africanos), equipamentos e compra de terrenos, o que só os latifundiários e grandes comerciantes eram capazes de fazer. Além do quinto, cobrado pelas Casas de Fundição (órgão do governo português), que derretia o ouro transformando-o em barras (com o selo da coroa) e retirava os 20% para serem enviados para Portugal, havia a cobrança de cada região aurífera de cerca de mil quilos anuais de ouro. O não pagamento implicava na execução da derrama. Soldados entravam nas residências e confiscavam bens dos moradores até chegar ao valor devido.
Foi a exploração do ouro que desenvolveu a Região Sudeste, quando o Nordeste entrou em crise e fez a coroa portuguesa mudar a capital da colônia de Salvador para o Rio de Janeiro, próxima do novo polo de desenvolvimento econômico (Vila Rica, hoje Ouro Preto, Mariana, Tiradentes e São João Del Rey são algumas delas, em Minas Gerais).
Na segunda metade do século XIX, por problemas técnicos ligados à lavra subterrânea e pelo esgotamento das gordas jazidas mais aparentes e de outros depósitos superficiais, a produção entrou em declínio. No entanto, no resto do mundo, crescia a olhos vistos.
A estimativa do total de ouro produzido desde as primeiras descobertas no Brasil chega a 2.500 toneladas. A maior produção anual que já foi registrada, de 102 toneladas, aconteceu no ano de 1989.
A atividade garimpeira foi uma força de ocupação também da Região Amazônica. A descoberta de Serra Pelada, em 1980, dá início a um chamado "segundo ciclo do ouro na região". O primeiro foi na década de 50, na área de Itaituba, no Pará. Em 1983, os cinco hectares de Serra Pelada bateram a produção recorde de 13,9 toneladas, usada pelo país para pagar à vista suas importações de petróleo.
De 1980 a 1988, Serra Pelada produziu cerca de 40 toneladas de ouro e abrigou nada menos que 80 mil homens. A produção da década de 80 - 650 toneladas - equivale a toda a produção do ciclo de ouro das Minas Gerais (1721-1800) e pôs o Brasil como sexto produtor mundial no início da década de 90. (Vivian Oswald)

O Globo, 20/11/2011, Economia, p. 29-31

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