VOLTAR

Nove orquídeas e um destino

OESP, Vida, p. A20
Autor: Marcos Sá Correa
11 de Mai de 2006

Nove orquídeas e um destino

Marcos Sá Correa

A Loelia lobata é uma orquídea típica da mata atlântica, mas vive no meio de uma cidade com 6 milhões de habitantes. Como o Rio abraçou os morros onde se entrincheira, ela resiste ao avanço da selva urbana pendurando-se no granito da Pedra da Gávea, do Morro Dois Irmãos e do Pão de Açúcar. Não existe senão nesses três lugares, agarrada em frinchas da rocha nua que só urubus e montanhistas costumam ver de perto. Até a década de 1930, ainda se via lá de baixo sua floração tingir o Pão de Açúcar. E até hoje a Pedra da Gávea guarda lembranças de seu passado de planta epífita, gravado nas árvores por vestígios das raízes e dos facões que as arrancaram. Como outros sobreviventes dos morros cariocas, tornando-se rupícola ela se virou. O que sobrou na cidade, diz o botânico Cláudio Nicoletti de Fraga, foi até agora "protegido pela própria sorte" de vingar fora do alcance de mateiros e colecionadores.

A Loelia lobata é o carro-chefe de seu Projeto Cores, um programa para a conservação de orquídeas ameaçadas de extinção em cinco Estados. O patrocínio da Petrobrás lhe deu três anos para avaliar os riscos que pesam sobre nove espécies, espalhadas por fragmentos florestais da Bahia a São Paulo. Delas, três só existem no Espírito Santo, duas no Estado do Rio e uma em Minas. Mesmo as plantas que atravessam divisas estaduais, apesar do diploma de "ampla distribuição", são raras e esparsas. Resistem em enclaves de mata nativa que definham. Escondem-se em grotas inacessíveis e copas altas.

O programa, em si, é uma aventura. Do tipo que faria sucesso em qualquer canal de TV. E, se nomes como Cattleya schilleriana ou Laelia xanthini não lhe dizem nada, bastam suas fotos para explicar por que o projeto se chama Cores. Comandados por Fraga, dez pesquisadores estão em campo para descobrir o paradeiro dessas orquídeas e o que ainda se pode fazer para salvá-las. Mas o primeiro passo é cuidar do caso da Loelia lobata carioca. Nisso, estar tão perto do jardim Botânico do Rio, onde Fraga trabalha, é uma vantagem. Seu hábitat é tão restrito que torna mais fácil inventariá-la. Sem contar que o programa nasceu dos planos para reintroduzi-la em seu ambiente, em plena cidade, idéia que Fraga vinha matutando quando se mudou para lá há quase cinco anos.

Ele vinha de Vila Velha, no Espírito Santo, o que é meio caminho andado para a vocação ambiental. Quando nasceu, há 36 anos, o Estado já não era nem sombra do que foi em 1912, quando o Mappa Florestal de Gonzaga de Campos registrou 76,54% de florestas originais em seu território. Devastaram-no em menos de meio século.

"Minha memória é a dos outros", diz ele. Seu pai, veterinário, viajava muito, como técnico agrícola do banco estadual de desenvolvimento. Fraga cresceu com um sentimento de perda que o levou para a Biologia e a Biologia levou-o para a conservação da natureza. Coordenou o inventário da flora em perigo de extinção no Espírito Santo. Juntou um cadastro de 4.159 espécies. Pôs 753 na lista de plantas ameaçadas. Excluiu 23, por irremediavelmente extintas.

No Cores, ele produziu até o programa com animação de imagens que exibiu na Petrobrás, durante a assinatura do convênio. Usou fotos suas. Encaixou versos de Cecília Meireles. Criou cenas em que a mata em preto-e-branco se colore na tela. Mas o serviço que tem pela frente é sério e pesado. Exige entrevistar mateiros, orquidófilos e populações rurais, para aprender a lidar com as pressões antrópicas sobre as orquídeas. Ou identificar o fungo que faz as sementes da Loelia lobata germinarem na natureza. "É tudo muito profissional", resume. "Trabalho com planta e planta é coisa que está acabando."

Marcos Sá Correa , Jornalista e editor do site O Eco (www.oeco.com.br)

OESP, 11/05/2006, Vida, p. A20

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.