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As novas ameaças ao clima

OESP, Espaço Aberto, p. A2
Autor: NOVAES, Washington
05 de dez de 2003

As novas ameaças ao clima

Washington Novaes

Talvez não exista exemplo mais forte da contradição entre a consciência da insustentabilidade dos atuais padrões de produção e consumo no mundo e a incapacidade de transformá-los que a questão das mudanças climáticas. Mais uma vez, a contradição está no foco da atenção mundial com a realização da 9.ª Conferência das Partes da Convenção sobre Mudanças Climáticas, em Milão. Com representantes de 180 países, ela seguirá até o final da próxima semana, quando intervirão os chefes de Estado.
"O fato de 2003 ser um dos anos mais quentes da história do mundo é uma advertência que todos deveríamos levar em conta", lembrou o secretário da convenção, Joke Waller-Hunter. Para ele, não há dúvida de que as mudanças já estão em curso e precisamos adaptar-nos em todos os lugares: "Os governos precisam estar preparados para reagir a impactos que hoje são inevitáveis e que foram causados por emissões que a humanidade vem fazendo há muito tempo" (haverá discussões específicas sobre como enfrentar nos vários países esses impactos).
Muitos participantes da conferência estão animados com o desenvolvimento de tecnologias que talvez possam levar à redução de emissões, mesmo com a atual matriz energética baseada principalmente no petróleo e no carvão mineral.
Mas, para a maioria, o Protocolo de Kyoto, que prevê uma redução de 5,2% nas emissões dos países industrializados (sobre os níveis de 1990), está inviabilizado: não será assinado pela Rússia. E sem ela não se chegará ao mínimo de 55% das emissões, para pô-lo em vigor. Já são 120 os países que homologaram o documento, mas suas emissões totalizam 44,2% do total. Seriam necessários os 17,4% da Federação Russa para entrar em vigor.
Ainda esta semana, em Moscou, Andrei Illarionov, principal conselheiro econômico do presidente russo, Vladimir Putin, deixou claro que "na forma atual o protocolo limita a possibilidade de crescimento econômico da Rússia". Por isso, diz ele, não deve ser assinado. Ainda mais - comentou - que o principal emissor (Estados Unidos, 36,1%) não homologará o documento.
No dia seguinte, o vice-ministro russo da Economia disse que a decisão de seu país ainda não está tomada, depende de negociações "econômicas" com a Europa e o Japão.
Além da recusa norte-americana, que dá argumentos aos outros países recalcitrantes, o problema está também, além da Rússia, na recuperação econômica da Europa Central e Oriental, igualmente baseada em matriz energética dependente do petróleo e do carvão. O cálculo que se faz é que essa Europa até 2010 aumentará suas emissões de gases em 11%, o que a deixará acima das emissões de 1990 - e, portanto, com obrigação de reduzir, ao lado dos Estados Unidos (que aumentaram as suas em 14%), da Nova Zelândia (mais 5%), do Japão (mais 11%), da Austrália (18%) e do Canadá (20%). A União Européia já reduziu as suas em 3,5% entre 1990 e 2000 e teria de reduzir mais um pouco.
O caso russo é o mais complicado. Até pouco tempo atrás se acreditava que a Rússia teria muito interesse no protocolo, porque ele permite a países que reduziram suas emissões além do compromisso da convenção vender "créditos de carbono". E a Rússia, com a forte queda de seu produto industrial no início da década de 1990, estaria nessa situação (as emissões baixaram 39%).
Calculava-se até que poderia ganhar uns US$ 8 bilhões anuais com isso. Mas nos últimos anos, a partir de 1999, a produção industrial russa vem crescendo extraordinariamente. Em 2001 aumentou 10%. Em 2002, mais 6%; este ano deverá ficar em 7%. As previsões são de que poderá dobrar o produto industrial até 2010 e triplicá-lo até 2020.
Esse crescimento tem por base uma matriz energética fortemente poluidora: só entre 1999 e 2001 as emissões aumentaram, no mínimo, 12,9% e chegaram, neste último ano, a 70% do que eram em 2001. Nesse ritmo, em 2008, quando entraria em vigor (pelo protocolo) para os países industrializados a obrigação de reduzir as emissões, a Rússia já estaria 6% acima dos níveis de 1990. Teria de cortar emissões, não poderia vendê-las. E o cálculo de especialistas é que teria de baixar o consumo de energia por unidade de produto entre 36% e 50%; dedicar-se intensamente a programas de conservação de energia (o que não vem fazendo); substituir o anacrônico e desperdiçador sistema de calefação residencial, implantado na era soviética; eliminar o subsídio ao consumo de calefação e de combustíveis nos transportes. Custaria uns US$ 150 bilhões, no mínimo, diz a revista New Scientist (25/10), que traça um quase-necrológio do Protocolo de Kyoto.
Enquanto isso, não faltam notícias sobre o agravamento da situação no planeta. O site da Nasa divulga estudos segundo os quais a camada de gelo no mar do Ártico se está reduzindo 9% a cada década. E sem o gelo há maior absorção de calor, mais aquecimento. A temporada de derretimento está mais longa a cada ano. Essas condições podem levar a aumento de temperatura de até 2 graus nos Estados Unidos, menos neve, perdas para a agricultura.
Outros estudos mostram as montanhas perdendo gelo no mundo todo, lagos perdendo água, a perda progressiva de neve na Europa (que poderá não tê-la mais nas regiões planas, em 50 anos).
Mas não se consegue avançar em decisões concretas, capazes de reverter o rumo. É possível até que a Europa, por sua conta e risco, ponha em vigor já em 2004 o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo, previsto no Protocolo de Kyoto. Poderá financiar em países como o Brasil projetos que reduzam emissões de gases (e contabilizar como sua a redução). Mas, no geral, o quadro é de impasse, com os Estados Unidos e outros apostando em que haverá milagrosas e ainda nebulosas tecnologias que resolvam o problema. Cada vez mais inquietante.
P.S. - No Fórum de Debates de 27/11, o leitor sr. Christian M. Nielsen diz que o autor destas linhas "cometeu engano perigoso ao indicar que, com uma oferta de 84 mil MW e um consumo médio de 40 mil MW, o sistema elétrico estaria com uma enorme folga". Não há engano. Quem afirmou isso, sem ser contestado até hoje, ao repórter Alaor Barbosa, deste jornal (Estado, 8/7), foi o Operador Nacional de Energia Elétrica. Segundo ele, há momentos de pico de 54 mil MW e, mesmo nesses, sobra de 30 mil MW. Tudo transcrito direitinho no artigo contestado.

Washington Novaes é jornalista

OESP, 05/12/2003, Espaço Aberto, p. A2

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