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A nova medida do sucesso econômico

OESP, Vida, p. A15
Autor: CORRÊA, Marcos Sá
16 de nov de 2006

A nova medida do sucesso econômico

Marcos Sá Correa

O mundo parecia bem mais simples, no tempo em que os brasileiros podiam ir ao cinema e ver, nos jornais da tela, os tratores do governo Juscelino Kubitschek derrubando árvores no sertão impenetrável. Não precisava explicar. Aquela era a imagem do progresso que instantaneamente a platéia reconhecia, rasgando o caminho da marcha para o Oeste.

As coisas se dividiam entre países atrasados, abafados em florestas, e países desenvolvidos, que não tinham florestas, mas todo o resto. Para ir de pobre a rico, o primeiro passo era abrir um atalho na selva.

Era. A miragem do desenvolvimentismo predatório sofreu nesta semana rude golpe. Caiu-lhe em cima um relatório chancelado pela Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos. É curto e grosso, com três parágrafos só de equações. Cabe em cinco páginas, descontadas a capa e a bibliografia. Como o artigo em que a ministra Marina Silva declarou que o Brasil sabe cuidar sozinho da Amazônia, tem vários autores. Seis, para ser preciso, incluindo um chinês, um finlandês e um escocês. Pelo visto, o nativismo florestal anda fora de moda.

Na hora em que o governo brasileiro comemora uma queda no ritmo anual de desmatamento da Amazônia, após recordes de devastação, o sexteto de cientistas acaba com a conversa de que o planeta está se desflorestando de alto a baixo. Impressão de quem vê o mundo filtrado pela fumaça das queimadas.

Eles apresentam um novo critério de avaliação, mais rigoroso. Em vez de medir do alto o que resta de chão tapado por árvores, calculam a densidade da cobertura vegetal, estimando o que acontece sob as copas. Se ali embaixo se produz madeira ou folhagem. Se cresce o potencial econômico de sua massa. E se está na idade certa de seqüestrar carbono. Estuda-se a sua 'identidade'.

O relatório vem cheio de boas notícias, para quem está do lado certo das tabelas que monitoram a saúde florestal de 50 países. Boa parte do planeta se reflorestou nos últimos 15 anos. E não o que se poderia chamar de parte boa, como Dinamarca, EUA, França ou Japão. Países complicados como Índia, República Dominicana, Rússia ou Vietnã também deram um jeito de virar o jogo. Até a China, voraz consumidora de madeira alheia, refloresta mais que corta. A Alemanha, que dobrou suas florestas ainda na Idade Média, nem sequer precisou plantá-las. Elas cresceram por dentro.

Dos países que entraram na amostra, 22 melhoram desde o início dos anos 90. Trata-se, em geral, de sociedades que ultrapassaram o patamar dos US$ 4.600 de renda per capita. Elas tendem a cruzar de volta a fronteira da devastação. O mato, pelo visto, é novo símbolo de progresso material.

Há transições que começaram no século 19. É o caso dos Estados de Massachusetts, Pensilvânia, Ohio e Illinois, pioneiros da industrialização e da urbanização nos EUA. Em 100 anos, suas florestas avançaram 50%. A Coréia do Sul quadruplicou seu estoque de árvores desde 1970, em pleno salto de tigre asiático.

Cada povo chegou lá com seu próprio estilo. Nos vales prósperos da Europa, a agricultura ganhou tanta eficiência que precisa de menos terras para colher mais, concentrando-se em vales férteis. El Salvador, que não tem recursos a esbanjar, usou até cercas vivas e bosques urbanos para cobrir suas vergonhas. O que não muda de um lugar para outro é a presença de um governo capaz de aplicar leis e tocar programas coletivos.

O documento traz outras notícias alvissareiras. A exploração de madeira em florestas nativas parece estar com os dias contados.

Os países desenvolvidos de clima temperado garantem 70% da madeira que o mundo usa para tudo, inclusive como lenha. Brasil, China e Índia dividem meros 15% do mercado internacional. Prevê-se para 2050 uma queda de 42% no comércio de madeira nativa de origem tropical. Logo agora que o governo brasileiro pretendia conter o desmatamento na Amazônia com a abertura das florestas nacionais às madeireiras amigas. É o preço de entrar para o clube internacional da derrubada, onde brilham Indonésia, Sudão, Mongólia e República Centro-Africana.

Marcos Sá Correa, Jornalista e editor do site O Eco (www.oeco.com.br)

OESP, 16/11/2006, Vida, p. A15

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