O Globo, Amanhã, p. 26-27
07 de Ago de 2012
Nova fronteira energética
Hidrelétricas na Amazônia são alvo de protestos
Cleide Carvalho
cleide.carvalho@sp.oglobo.com.br
Enquanto o Japão tenta encontrar a solução para seu dilema energético, o Brasil já tem a resposta na ponta da língua. A região Norte do país foi eleita a nova fronteira energética. A Amazônia Legal, que inclui ainda parte do Centro-Oeste, poderá receber pelo menos metade das 48 usinas hidrelétricas previstas até 2019.
Custos, financiamento, cronograma, necessidade de mão de obra e potencial energético dos projetos constam do Plano Decenal de Energia, definido pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC-2). Só que os protestos que no passado focaram em Tucuruí hoje se voltam contra Belo Monte, a maior usina em construção no país.
Enxurradas de ações na Justiça e greves também ameaçam as hidrelétricas de Teles Pires, Colíder, Sinop e São Manoel.
Todas na Amazônia Legal.
O dilema brasileiro, assim como no Japão, está longe de ser encerrado.
Apenas na Bacia do Rio Teles Pires são previstas seis hidrelétricas. Na Bacia do Tapajós, outras cinco. Os novos empreendimentos são apontados como ameaça às terras indígenas e à floresta. Na prática, porém, parece impossível deixar a área intocada. A contrapartida está no crescimento econômico do país. Para crescer, o Brasil precisa produzir mais energia.
Apesar da energia renovável responder por 44,1% da matriz energética brasileira, bem acima da média mundial, nos últimos dois anos o crescimento da energia não renovável tem sido maior. Entre 2010 e 2011, enquanto o consumo de energia elétrica aumentou 3,6%, a oferta cresceu apenas 1,3%. Para continuar a atender às necessidades da sociedade, o Brasil precisa gerar mais energia. As estimativas são de 6 mil megawatts (MW) por ano.
A maior hidrelétrica do país, a Itaipu Binacional, tem 14 mil MW de potência.
- Nossa questão é que a fronteira hidrelétrica está indo em direção à Amazônia. Temos muitos rios e muita água lá, isso é positivo.
Mas há os problemas ambientais e o custo na transmissão da energia, que cada vez fica mais distante dos grandes centros consumidores - diz Luiz Fernando Vianna, presidente da Associação Brasileira dos Produtores Independentes de Energia Elétrica (Apine).
Aumentar o consumo de energia significa também gerar empregos e reduzir a pobreza. As residências consomem somente 9,5% da energia produzida no país. Indústria e transportes, necessários à produção de bens, remessas de cargas e locomoção de pessoas, somados, representam 66% do total.
O impacto da construção de hidrelétricas na Amazônia tem tido grande repercussão.
Em parte, pela ameaça que podem representar à preservação da floresta e às terras indígenas, protegidas por lei. Por ser uma planície, a região amazônica acaba obrigando as hidrelétricas à formação de grandes reservatórios d'água.
- É impossível produzir energia sem modificar nada. Mas é preciso minimizá-la, a menor intervenção possível. O lago de Belo Monte é muito pequeno. Há o problema da volta grande do Rio Xingu, mas que pode ser compensado na operação da usina, para garantir água e vida naquela região. Do ponto de vista social, é possível melhorar o saneamento básico e as condições de vida da população local - afirmou Luiz Pinguelli Rosa, diretor da Coppe.
A usina de Balbina, em Manaus, é citada como um exemplo do que não se deve fazer, pelo total da área inundada em relação à capacidade de geração de energia. Para especialistas no setor, Balbina tem, entre as hidrelétricas, o mesmo papel que Chernobyl teve para a continuidade do desenvolvimento da energia nuclear no mundo, guardada as devidas proporções.
O crescimento das energias alternativas, no país, como a eólica, não tranquiliza o setor elétrico. O principal argumento é a imprevisibilidade dessa forma de energia: não dá para acumular vento em reservatório.
Na opinião de Vianna, o Brasil precisa de um amplo debate sobre o futuro da matriz energética e a construção de novas hidrelétricas.
O Globo, 07/08/2012, Amanhã, p. 26-27
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