CIMI Sul-Chapecó-SC
25 de Ago de 2003
O Conselho Indigenista Missionário-Regional Sul quer, através desta, manifestar sua tristeza e indignação diante da postura de parlamentares, de modo especial do Partido dos Trabalhadores, que tinham, até recentemente, uma trajetória de compromisso com a causa indígena e que depois da eleição presidencial e a conseqüente vitória de Lula passaram a se manifestar contrários aos direitos indígenas, principalmente quanto à demarcação e garantia das terras.
Os povos indígenas do Brasil, na luta pelo direito à vida, à terra, à assistência digna e diferenciada, pelo direito ao reconhecimento e respeito à diversidade étnica, contaram com o apoio, compromisso e solidariedade de militantes e intelectuais dos movimentos sociais, populares, universidades, entidades, das igrejas e dos partidos políticos progressistas que sonhavam com a construção de um país justo, democrático e pluriétnico.
Nos oito meses do novo governo se constata que houve, da parte de muitos que antes propagavam o socialismo como alternativa para o Brasil, um desvio ideológico, porque sendo governo, alimentam-se do neoliberalismo e o aplicam na condução do Estado, nas orientações políticas e na forma de legislar. Parlamentares, do Partido dos Trabalhadores, aliados aos partidos que garantem a base de sustentação ao presidente Lula, assumem os discursos e as práticas políticas da tradicional extrema direita que sempre definiu os rumos do Brasil conduzindo-o para o caos social.
O Conselho Indigenista Missionário-Regional Sul denuncia as manobras políticas que estão sendo arquitetadas por parlamentares de Santa Catarina com o intuito de impedir o avanço das demarcações das terras indígenas no estado. Eles, através de autoridades e das oligarquias regionais, aliados preferenciais do governo federal na atual conjuntura, pressionam o Ministério da Justiça, a Fundação Nacional do Índio e instigam, promovem e fomentam, nas regiões, manifestações contrárias às demarcações das terras que alimentam o ódio e o preconceito da sociedade envolvente contra os povos Xokleng, Kaingang e Guarani. O Cimi-Sul denuncia as estratégias de parlamentares de estarem organizando e promovendo audiências públicas com o objetivo de "discutir a situação das áreas indígenas" para inviabilizar as demarcações das terras. Estas audiências servem como espaços alimentadores da sanha antiindígena, porque as promovem e as realizam sempre em locais onde os conflitos são latentes, a exemplo da audiência pública marcada para o município de Cunha Porã-SC (no dia 04 de setembro) região onde existe o ódio institucionalizado contra o povo Guarani que luta pela demarcação da Terra Araça'i.
A postura antiindígena de parlamentares e autoridades, que até recentemente estavam na oposição e se manifestavam favoráveis aos direitos dos índios tem, no entender do Cimi-Sul, duas possíveis explicações: primeiro, os políticos querem transformar a questão indígena em palanque eleitoral para as eleições municipais de 2004, com isso arrebanhar os votos de uma grande parcela da população que não aceita os povos indígenas como sujeitos e cidadãos detentores de direitos (preconceito histórico existente na maioria dos municípios de SC); segundo, muitos políticos considerados de esquerda não compreendem a realidade étnica de nosso país e, ao que tudo indica, não têm firmeza ideológica acerca do socialismo e da sociedade que se pretende construir. Conseqüentemente, são cooptados ou susceptíveis aos interesses oligárquicos e por isso aderem, com facilidade, à vontade das oligarquias que mandam no Brasil.
O Conselho Indigenista Missionário-Regional Sul, que também acreditou "que a esperança havia vencido o medo" lamenta e condena os pronunciamentos e atitudes adotadas por muitos parlamentares (que se diziam de esquerda) contra as demarcações das terras indígenas, de modo especial contra as terras La Klaño, Toldo Imbu e Araça'í. Infelizmente os rumos políticos do Brasil são os mesmos de décadas passadas, com um agravante: hoje existe a frustração por termos acreditado em quem não demonstra condições ou vontade de ajudar o Brasil a ser um país para os pobres e excluídos.
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