OESP, Espaco Aberto, p.A2
Autor: HUMMES, Dom Cláudio
03 de Mar de 2004
Nossa responsabilidade pela água
DOM CLÁUDIO HUMMES
Num país como o nosso, que tem o privilégio de possuir uma das maiores reservas de água doce do mundo, por que a Igreja Católica se preocupa com a água, a ponto de dedicar-lhe neste ano a Campanha da Fraternidade? A resposta é que ela o faz por uma questão de responsabilidade nacional e mundial e, por esta razão, ela o faz pela preservação e uso adequado das águas, bem como pela justa e fraterna distribuição deste precioso elemento da natureza, que Deus nos deu.
Aqui, na grande megalópole de São Paulo, é constrangedora e extremamente preocupante a situação das águas de nossos Rios Tietê, Tamanduateí, Pinheiros e riachos menores, transformados em depósito e vazão de esgoto, resíduos industriais, lixo e toda sorte de imundície. Por outro lado, deparamo-nos com a escassez de água em nossas represas, que são essenciais para o abastecimento da cidade. Ao mesmo tempo, na época das chuvas ocorrem as constantes inundações na cidade com enormes prejuízos, principalmente para o povo pobre de nossas periferias. As contradições deste conjunto de ingredientes do problema da água da nossa São Paulo são óbvias contradições geradas pela irresponsabilidade humana. Tanto mais louváveis são as obras atuais que o poder público paulista está realizando para a canalização e a recuperação desses rios. Mas muitíssimo ainda a fazer, com urgência.
Hoje, no mundo, "segundo a ONU, cerca de 1,2 bilhão de pessoas não têm água de qualidade para beber e 2,4 bilhões não têm serviços sanitários adequados.
A cada ano morrem 2 milhões de crianças devido a doenças causadas por água contaminada. Nos países mais pobres, uma em cada cinco crianças morre antes dos 5 anos de idade por doenças relacionadas à água. A metade dos leitos hospitalares do mundo está ocupada por pacientes afetados por enfermidades relacionadas à água (Texto-Base da Campanha da Fraternidade 2004, da CNBB, p. 16-17).
Por ser essencial à vida humana, a água de boa qualidade é um direito de todos. Sendo um direito, gera o dever de nos empenharmos para que esse direito seja atendido para todos. Mas, como em tantos outros países do mundo, no Brasil esse direito está comprometido. A CNBB no citado Texto-Base da campanha registra: "Segundo dados da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), 20% da população brasileira (isto é, cerca de 34 milhões de pessoas) não tem acesso à água potável, 40% da água das torneiras não tem confiabilidade, 50% das casas não têm coleta de esgotos e 80% do esgoto coletado é lançado diretamente nos rios, sem qualquer tipo de tratamento" (p. 17).
A ONU estima que, se não forem tomadas medidas urgentes que revertam a situação, no ano 2050 faltará água potável a 40% da humanidade. Mas há especialistas que antecipam esse prazo para 2025 (cf. Texto-Base, p. 28). A magnitude do problema dependerá de país para país, segundo as providências que irão tomando ou não e o volume de águas que a natureza lhes destinou.
O Brasil é considerado um país rico em água doce. Dispõe de 12% do total mundial. Mas essa nossa riqueza situa-se quase toda na Amazônia, que possui 70% da água doce do País. O Nordeste possui apenas 3%. Mesmo assim, segundo a opinião dos especialistas, na Região Nordestina das grandes secas periódicas, tecnicamente falando, segundo os padrões da ONU, haveria água suficiente, se ela fosse rigorosamente gerenciada, a começar pelo armazenamento doméstico das águas pluviais. Contudo, por falta deste gerenciamento ideal (difícil, senão inalcançável na realidade), há de fato enorme falta de água no Nordeste. Se as águas locais são tradicional e realisticamente insuficientes, será necessário, além de gerenciá-las melhor, transpor águas de outras regiões. A transposição de água para o Nordeste seco é um dos importantes projetos do governo Lula.
Contudo, mesmo regiões que não apresentam grandes secas e usufruem de chuvas geralmente suficientes, senão generosas, durante todo ano, têm situações de preocupante escassez de água, como, por exemplo, nossa metrópole paulista.
Diante disso, exija-se do poder público melhor gestão das águas, aprimoramento das leis que regem o patrimônio hídrico nacional e firmeza na exigência de seu cumprimento. Ao mesmo tempo, urge conscientizar a sociedade. Envolvê-la na questão. Mudar sua mentalidade no que se refere ao uso e à preservação das águas. Entra aí a importância da educação. Entre as crianças e adolescentes de hoje observa-se já uma mentalidade mais favorável à preservação da natureza, fruto de uma educação constante. Isso é promissor para o futuro. Mas a questão da água tem tal urgência que toda a população, não apenas a parcela que freqüenta escolas, precisa ser levada a desenvolver uma nova atitude diante do problema da água.
Na prática, será necessário preservar melhor as águas, não desperdiçar, economizar, usar racionalmente, tratar águas já usadas, não poluir nem danificar os rios e os lençóis subterrâneos, proteger as nascentes, os mananciais e as matas ciliares, não jogar esgoto, lixo, nem resíduos industriais ou hospitalares nos rios, evitar que esses sejam contaminados por agrotóxicos, recuperar os rios e outros mananciais já contaminados, destruídos, assoreados, prestes a morrer ou já mortos. Onde há escassez de água, providenciar melhor armazenagem e distribuição mais eqüitativa. A construção de cisternas domésticas para recolher e guardar águas da chuva, que escorre dos telhados, está se mostrando uma excelente solução no Nordeste seco. Poderia também sê-la para cidades com escassez de água, o que diminuiria ao mesmo tempo o afluxo de água da chuva para as ruas, reduzindo as enchentes urbanas.
Dom Cláudio Hummes é cardeal-arcebispo de São Paulo
OESP, 03/03/2004, p. A2
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