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Nossa breve janela de oportunidade

O Globo, Amanhã, p. 29
Autor: BESSERMAN, Sérgio
07 de Mai de 2013

Nossa breve janela de oportunidade
Superação da crise econômica passa pela solução de problemas ecológicos. Custo ambiental é obstáculo à recuperação de investimento

Sérgio Besserman / Colunista convidado
Professor de Economia da PUC-RJ

Ainda na primeira metade do século XIX dois jovens, Karl Marx e Friedrich Engels, escreveram um livro do qual não gostaram e abandonaram na gaveta sem enviar para publicação. Os rascunhos foram descobertos e publicados em dois volumes sob o nome de "A ideologia alemã". Logo no início há uma frase da qual Marx e Engels não gostaram e a qual riscaram. Os editores desconsideraram o desejo dos autores e o livro foi publicado com essa que é uma das sentenças mais geniais jamais escritas: "Só existe uma ciência, a ciência da História."
Quando a escreveram, Marx e Engels pensavam no que hoje chamamos de "humanidades" e se referiam ao fato de que a realidade e o processo histórico são um só e que disciplinas como economia, sociologia, história, antropologia e ciência política são janelas parciais e deformadas para a realidade, inevitáveis em decorrência das limitações e fragilidades do pensamento humano.
O grande Charles Darwin ainda não havia publicado "A origem das espécies" e os dois jovens não teriam como saber que a frase também é genial para as ciências da vida. Como disse o biólogo Theodosius Dobzhansky (1900-1975): "nada em biologia faz sentido exceto à luz da evolução". Também para compreender a vida só existe uma ciência, a ciência da história.
Surpreendente e maravilhosamente incrível é a ideia de que as leis físicas imutáveis de nosso universo foram forjadas pela sua história e que não vivemos apenas em um ponto entre trilhões em um universo, mas em um universo entre tantos, cada um com suas próprias leis físicas decorrentes de suas únicas e singulares histórias. Até mesmo na realidade física só existe uma ciência, a ciência da História.
É claro que a sentença embute uma torção. Não se trata exatamente de só existir uma ciência. Existem várias porque o conhecimento humano é cheio de falibilidades e fragilidades, necessitando de muitas janelas, muitas peças de quebra-cabeça para com grande esforço montar um quadro mais completo ou, ao menos, mais abrangente.
Os mais impactados pelas agressões ambientais são sempre os mais pobres, que estão em posição mais vulnerável e têm menos recursos para se defender. Quem mais sofrerá com as mudanças climáticas são as populações pobres, contadas às centenas de milhões em todo o planeta. Os países ricos e mesmo os de renda média, como o Brasil, receberão bem mais de duzentas milhões de pessoas como refugiadas ambientais. Que distinção pode haver entre políticas sociais e ambientais?
Mais complexa é a relação entre as crises ambiental e econômica. À primeira vista assumir que os bens e serviços ambientais são limitados e têm um custo é algo mais difícil de ser feito em meio à recessão iniciada em 2008. Entretanto, as grandes crises anteriores, em 1873 e 1929, levaram mais de duas décadas para serem superadas. Não existe motivos para imaginar que agora seja diferente.
Por uma coincidência, são as mesmas duas décadas que constituem a janela de oportunidade para evitar os piores cenários da crise ecológica. Não há sentido em imaginar uma recuperação dos investimentos globais em meio à total incerteza sobre a internalização dos custos ambientais (especialmente a emissão de gases de efeito estufa e a destruição de ecossistemas ricos em biodiversidade) nos preços da economia de mercado global. O cálculo da taxa de retorno e do ritmo de depreciação dos ativos para projetos mais longos se torna impossível e o investimento se retrai.
Não há saída para a crise econômica sem superar a incerteza sobre a disposição da Humanidade em enfrentar a crise ecológica, assim como não será possível vencer a pobreza global sem evitar os piores cenários da crise ecológica.
Não existe distinção entre o econômico, o social e o ambiental. Não faz sentido sequer a linguagem diplomática que menciona esses "três pilares". É uma única história, e com desafios inéditos para a Humanidade, como pensar e decidir globalmente e sobre um tempo muito mais longo do que estamos habituados a considerar.

O Globo, 07/05/2013, Amanhã, p. 29

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