OESP, Vida, p. A21
Autor: CORRÊA, Marcos Sá
19 de Out de 2006
A normalidade ataca outra vez
Marcos Sá Correa
Se os brasileiros não andassem tão ocupados com prioridades nacionais que as pesquisas de opinião já nem se preocupam em dizer quais são, a morte do biólogo Eduardo Marcelino Ventura Veado seria um escândalo. Ele morreu dias atrás, atropelado no acostamento da estrada MG-474, onde caminhava com a mulher, a professora Simone Furtini Abras. Tinha 46 anos. Ela, 41. Apanhado pelas costas, o casal ficou por ali mesmo. O motorista que os matou, dizem as testemunhas, desceu da picape branca que trafegava fora da pista, examinou o estrago e fugiu.
Parecia crime encomendado. O biólogo era secretário-adjunto de Meio Ambiente e coordenador de Defesa Civil da prefeitura de Ipanema (MG). Denunciara há três anos desmatamentos ilegais no município. Ouvira as ameaças de praxe. Duas semanas depois, após batida na casa das vítimas atrás de pistas sobre os autores da encomenda a polícia se convenceu de foi um acidente normal.
Como foi normal, tende a resvalar para o arquivo morto das tragédias cotidianas. Só no último feriadão, morreram 35 pessoas nas rodovias federais de Minas. Mais que as 21 do Sete de Setembro. Foram mortes normais.
É normal, aqui, o atropelador sumir para sempre. Normal, também, o estado das estradas onde o governo só tapa buraco em ano de eleição. Assim como a feiúra acabrunhante das cidades que desfilam por suas margens, onde favelização apaga até nas fachadas das ruas comerciais as últimas lembranças urbanísticas de que por ali passou um dia a mão de uma autoridade pública. Ou como a paisagem genuinamente brasileira dos morros escalavrados, que mais uma vez os cafezais vão atacando por grimpas aparentemente inacessíveis, à custa das capoeiras que, cuidadas pelo abandono, tentavam cumprir sozinhas a lei que manda os proprietários deixarem o mato lá em cima.
Quem viaja pelos caminhos onde o biólogo morreu, chega lá pronto para achar tudo normal. Anormal era o trabalho que ele fez na Estação Biológica de Caratinga, uma anormalíssima reserva particular de 900 hectares criada pelo cafeicultor Feliciano Abdalla, que tinha o gosto excêntrico de ver macacos em suas terras. Ele deixou mais ou menos intacto um pedaço da imensa mata original que deu nome ao município.
Caratinga é uma trepadeira salpicada de vermelho, cujos tubérculos os botocudos da região comiam e cujas folhas os caboclos usavam em chás. Hoje, o melhor lugar para encontrar caratinga em Caratinga fica, e não por acaso, na fazenda Montes Claros, de Abdalla. A planta cresce como símbolo da flora nativa no alpendre da casa de roça que ele cedeu aos primatologistas, quando os pesquisadores descobriram nos anos 70 que o velho fazendeiro guardava, entre pastos e cafezais, famílias inteiras de muriquis-do-norte. O muriqui é o maior macaco sul-americano. E um dos mais ameaçados de extinção.
Seu santuário em Caratinga é conhecido como Matão. Não passa de um matinho, o que torna ainda maior sua importância, como percebeu a americana Karen Strier, ao varar pela primeira vez até o topo aquele labirinto de cipós e árvores centenárias. "A oportunidade de ver a floresta desse ponto de observação mais do que compensou a escalada quase vertical", ela escreveu em Faces in the Forest, um belo livro que, uma década e meia depois da primeira edição em inglês, ainda não pode ser lido em português. Enquanto "a floresta era uma ilha, rica de vida desconhecida, por estudar, inimaginavelmente bela", a seu redor tudo o que Strier podia enxergar,além do ponto onde o mato acabava "abruptamente", era a morraria "desolada, erodida".
Em outras palavras, o resto era a normalidade pura e simples, sem tirar nem pôr. A fazenda de Feliciano Abdalla não passava de uma exceção. Assim como a carreira de Eduardo Veado, que cheiou por quase 20 anos a Estação Biológica criada em torno dos últimos muriquis em Minas. E a sociedade brasileira tem cada vez menos espaço para o que não é normal.
Marcos Sá Correa, Jornalista e editor do site O Eco (www.oeco.com.br)
OESP, 19/10/2006, Vida, p. A21
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