O Globo, Razão Social, p. 12-14
16 de Mar de 2010
No Pará, a renda que vem da terra
Natura usa fruto que dá no quintal de quilombolas para fazer sabonete
Amelia Gonzalez *
amelia@oglobo.com.br
Jacarequara, PA
Enfim, Maria Verônica teve um tempo para descansar.
Desde a noite anterior ela não tinha parado um instante. Matou e depenou oito galinhas do quintal, pôs goma de tapioca para secar, preparou o cupuaçu para o doce. E só quando viu que estava todo mundo satisfeito, arranjou tempo para comer e para um dedinho de prosa com a repórter.
Enquanto fala, repete várias vezes, delicadamente, o gesto de juntar pequenas porções de doce de cupuaçu na colher, antes de levá-la à boca. A paraense está feliz, orgulhosa. Primeiro, por ter conseguido preparar a tempo (com muitas ajudantes, claro) o aplaudidíssimo cardápio oferecido à comitiva de jornalistas na visita à comunidade quilombola de Jacarequara, a mais de 200 quilômetros de Belém do Pará. Segundo, por ser mãe de Marcio Ramos, co-responsável pelo evento que pôs holofotes sobre um lugar tão escondido de tudo e todos. O simpático e falante rapaz, de 27 anos, foi, segundo ela, "criado por mim mas abraçado pelo mundo". Hoje é presidente da Coomar (Cooperativa Mista dos Agricultores entre os rios Caeté e Gurupi) e o principal contato com a Natura, empresa que descobriu que o murumuru, fruto abundante no quintal de Jacarequara, serve para fazer sabonete. E é aí que começa a história.
Dentro da proposta de fazer negócio de forma sustentável, que a Natura imprime em sua imagem, desde 2007 ela está preparando o lançamento da linha Ekos, de sabonetes e óleos. A idéia, levada a cabo com a ajuda de um corpo expressivo de pesquisadores, é descobrir produtos no bioma Amazônico que possam não só dar mais valor à marca como ajudar comunidades a se desenvolverem. O quesito principal é que as comunidades estejam reunidas sob forma de cooperativa, o que facilita o contato.
E assim Marcio Ramos, certo dia, foi procurado pelo pessoal da Natura, que lhe fez uma proposta de parceria: a empresa instrumentalizaria a comunidade para colher o fruto e secar a pequena amêndoa que há dentro dele, e pagaria R$ 2,53 pelo quilo desta amêndoa. Marcio reuniu as 50 famílias que fazem parte de Jacarequara e levou a boa notícia. O melhor da história é que todo mundo ficou de boca aberta. É que a árvore que dá o murumuru é espinhenta, machuca de verdade, e se mete no caminho dos produtores que entram na mata para colher o açaí. Ou seja, tudo o que as pessoas nunca imaginaram é que ela prestasse para alguma coisa, conta o produtor Prisco Alexandre dos Reis, 54 anos:
- A gente chamava de árvore do diabo porque atrapalhava quando íamos colher o açaí, nossa maior fonte de renda. O que ninguém sabia era que o fruto dela tinha tanto poder para a Natura. Foi uma coisa boa quando o Marcio chegou aqui com a novidade. Agora, ninguém mais quer derrubar a árvore do murumuru disse ele.
Assim como Prisco, na tarde daquela terça-feira, início de fevereiro, grande parte das 50 famílias de remanescentes dos escravos de Jacarequara estava ali para receber os jornalistas, a equipe da Natura, e comemorar a venda, no ano passado, de 500 quilos de amêndoas de murumuru para a empresa. Formaram-se grupos para entrar na trilha e conhecer a árvore que dá tal fruto. Peles brancas e sensíveis ao sol quente do Pará foram devidamente encharcadas de creme protetor solar e de repelentes contra mosquitos; galochas garantiram que os pés continuasse limpos e chapéus evitaram o desconforto do sol direto na cabeça. À medida que se avançava na trilha em plena Floresta Amazônica, "seu" Prisco ia contando o impacto da ação da Natura sobre sua comunidade:
- Ano passado nós ganhamos mais de R$ 1 mil.
Pode parecer pouco dinheiro, mas para nós é uma ajuda e tanto - disse ele.
Desta forma, a empresa, além de proporcionar aos pequenos produtores mais uma fonte de renda, ajuda a construir o pensamento de que é melhor ter a floresta em pé. Uma consciência que o economista britânico do Banco Mundial Nicholas Stern comenta em seu famoso Relatório Stern:
"Atribuir um valor às florestas é fundamental, mas esse valor não aparece nos mercados financeiros. Não temos desculpa nesse assunto, porque sabemos exatamente o que fazer".
Ninguém melhor do que um produtor como Marcio Ramos, que vive na pele a realidade da mata, para entender, na prática, o que o economista fala em teoria. Tanto que, depois de cursar a escola, ele faz questão de repassar para a família e todos à sua volta o preço, ainda apenas estimado de maneira abstrata, da mudança de alguns hábitos.
Maria Veronica nunca mais queimou lixo porque sabe que isso pode fazer aumentar as emissões de gases estufa:
Agora a gente não queima mais lixo, tem que plantar na beira do rio, tudo isso que aprendemos com o Marcio. Ele fica falando nos ouvidos da gente o tempo todo. Por causa do aquecimento global - disse ela, reproduzindo o discurso que aprendeu com o filho.
No centro do bioma amazônico, ali no interior do Pará, o aquecimento global, que nos escritórios aclimatados do Bella Center, onde aconteceu a COP-15, era apenas uma expressão, ganha cor, vida, temperatura. Prisco percebe isso muito bem quando sente o calor mais forte a cada ano que passa. Para ele, não há dúvida alguma que a constante derrubada de árvores tem elevado as temperaturas. Mantendo as árvores do murumuru em pé, sua comunidade está ajudando. Mas foi preciso contar com a sorte. Afinal, não é a toda hora que uma empresa tem a possibilidade - muitas vezes, a vontade política - de fazer negócio com o olhar no lucro, sim, mas também no social e no ambiental.
No entanto, por incrível que pareça, não foi uma tarefa fácil. A regulamentação sobre o acesso ao patrimônio genético no Brasil tem sido um entrave para essas iniciativas , como lembrou Rodolfo Gutilla, diretor de assuntos corporativos da Natura:
- O que temos hoje é uma MP de 2001, quando ainda não se conhecia em profundidade as etapas que seriam necessárias para ir do acesso à pesquisa.
Esse processo não leva em conta o tempo de pesquisa necessário para descobrir se aquele insumo vai ser funcional. O que nós reivindicamos, o setor de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos, é ajudar a criar uma regulamentação para favorecer a pesquisa aplicada, ou seja, aquela que é feita por empresas O marco regulatório atual engessa, cria dificuldades, não favorece nem a pesquisa pura, nem a aplicada - disse ele.
Em resumo, o que acontece é o seguinte: antes de a empresa saber se um determinado produto realmente vai servir para o que ela quer fazer, precisa passar por uma extensa série de questionários e necessidade de documentações, que às vezes pode durar muito tempo. Chama-se CGEN (Conselho de Gestão do Patrimônio Genético), o órgão que regulamenta essa atividade. No entanto, segundo Gutilla, de 100% dos ativos protocolados no CGEN, 70% são da Natura. O que quer dizer que há muitas iniciativas que não passam pelo órgão.
- Isso não nos diz respeito. O que queremos deixar claro é que o marco regulatório de 2001 é insuficiente - disse Gutilla.
Na trajetória da Natura junto ao CGEN, há uma aresta que ainda não foi aparada. O Ministério Público do Acre arrolou a empresa, dizendo que o acesso ao murumuru seria um dolo aos interesses dos índios ashaninka, que ficam na divisa do Peru, no extremo norte do Acre:
- Nós nos manifestamos, ainda não há liberado em julgado. O que dissemos foi que fizemos o acesso no médio Juruá, no Amazonas - disse Gutilla, que defende que haja uma regulamentação, seja internacional ou nacional.
Enquanto as coisas não se resolvem na Justiça, quem lucra é a comunidade de Jacarequara.
E outras, porque, ao todo, a Natura está beneficiando 19 comunidades e 1714 famílias com o lançamento da linha Ekos, que tem 80% dos seus ativos certificados. Segundo Renata Puchala, gerente de marketing e inovação da marca, a ideia é fazer uma rede, "onde todos são protagonistas e o desenvolvimento de um é o desenvolvimento de todos":
- Queremos transformar a história das comunidades que vivem em torno de um produto, como o açaí, por exemplo - disse ela.
Por conta desses cuidados, a Natura faturou, junto a seus consumidores, a imagem de uma empresa que faz uma linha "que valoriza o Brasil". Para isso, ela investiu durante dez anos R$ 8,5 milhões com fornecimento e repartição de benefícios da linha Ekos. No Amapá, por exemplo, a comunidade de Iratapuru sempre viveu da extração de castanha num terreno de 800 mil hectares. A empresa, depois que descobriu que poderia utilizar este produto em seus cosméticos, em parceria com os moradores ajudou a instalar uma fábrica de extração de óleo de castanha, ensinou a fazer merenda escolar com uso do resíduo da extração do óleo, certificou os ativos.
- Os projetos são todos discutidos com as comunidades - disse Renata.
O que preocupa é a dependência das comunidades.
Se as pessoas passarem a contar com o dinheiro que passam a ganhar por conta da venda dos produtos, o que farão quando a empresa parar de querer comprar delas? - Trabalhamos com o conceito de cesta de ativos. Há uma área dentro da empresa que está sempre procurando novas plantas e vegetais.
Quando o projeto está chegando ao final, sempre fazemos uma busca para ver se existem outros ingredientes ali para serem trabalhados.
Além disso, estamos sempre em contato com elas para conversar a respeito de novas possibilidades de investimento dentro da própria comunidade com o dinheiro que estão recebendo, para prepará-las. Muitas vezes em parceria com o governo - disse Renata.
Como parte dessa preocupação, a Natura inaugurou em 2007 a Unidade Industrial de Benevides, cujo gerente-geral, Jose Renato Cagnon, disse que o trabalho maior foi vencer a desconfiança dos moradores:
- A região sofre todo tipo de pressão sobre a floresta Amazônica - disse.
* A repórter viajou a convite da Natura
Intenção não vive rde murumuru
A mesa já estava posta para receber os jornalistas quando chegamos à comunidade de Jacarequara, distante cerca de 14 quilômetrtos da cidade mais próxima, a Santa Luzia do Pará. Com a colaboração da Natura, as mulheres se esforçaram para mostrar aos jornalistas o melhor da região: pratos de cerâmica, canecas idem. O peixe vinha na folha de bananeira, tinha farofa de sobra e, depois do almoço, além do doce de cupuaçu feito por Maria Veronica, fomos todos assistir de perto como se espreme o açaí para fazer virar aquela mistura gostosa que conhecemos no Sudeste. Marcio Ramos, sentindose meio responsável pelo evento, pulava de um grupo a outro, dando atenção a todos.
Bem articulado, o jovem explica a importância, para a comunidade, do fato de estarmos todos ali naquele instante. Dá visibilidade, estimula o produtor, abre possibilidade para outras empresas fazerem o mesmo:
- A intenção não é viver do murumuru, até porque isso quebraria a lógica da agricultura familiar, que é a produção diversificada. Mas o Estado também deveria apostar mais na agricultura familiar, até para acabar com a violência nas cidades. Manter o agricultor no campo com condições básicas seria bom para todo mundo - disse ele.
Enquanto os adultos almoçavam, as crianças ficavam por ali, rondando, pedindo para tomar banho de rio (a poucos metros das casas passa o rio Guama). Na comunidade há uma escola municipal que só pode ensinar até a quarta série. Mas, naquele dia, plena quarta-feira, todos estavam de folga.
- É um grande acontecimento para eles - disse Shala Silva, técnica florestal da Natura, uma das responsáveis pelo relacionamento com a comunidade.
Para participar do festejo, juntou-se ao grupo o violeiro e compositor Antonio dos Santos Castro. Aos 63 anos, morador da comunidade de Pimenteira, ali perto, Antonio chegou já apresentando sua nova modinha.
Uma ode ao murumuru, que substituiu a malva em sua economia caseira:
"Eu não vou mais tirar malva/ que me dá só prejuízo/ quando a gente fica velho/fica cheio de reumatismo/Agora eu já falei/vou andar atrás de tu/vou ganhar a mata/ajuntar murumuru".
O Globo, 16/03/2010, Razão Social, p. 12-14
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