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No Pará, 30 mil hectares de floresta nativa correm risco de desmatamento

O Globo, O País, p. 4
28 de jan de 2005

No Pará, 30 mil hectares de floresta nativa correm risco de desmatamento

Ismael Machado

Pelo menos 30 mil hectares de floresta nativa correm o risco de desmatamento na região conhecida como Terra do Meio, no Pará. As mais ameaçadas são às florestas da margem esquerda do Rio Iriri, em São Félix do Xingu e Altamira, considerados dois dos maiores municípios em extensão do mundo. A floresta é uma das últimas reservas de mogno no Pará.
A ameaça foi detectada pelo Serviço de Inteligência do Ibama, que constatou que o desmatamento, geralmente iniciado em junho, já está em franco desenvolvimento. A área, na região do Xingu, tem 8,5 milhões de hectares e é cobiçada pela biodiversidade.
As terras são em grande parte da União, sob responsabilidade do Incra. Há ainda áreas de preservação permanente, da alçada do Ministério do Meio Ambiente; terras indígenas, sob a tutela da Funai, e terras do estado, controladas pelo Instituto de Terras do Pará (Iterpa).
Pistoleiros estariam na margem direita do Iriri
Há denúncias da presença de pistoleiros na margem direita do Iriri na direção de Altamira pela TransIriri. A estrada, de 400 quilômetros, foi aberta pelo comércio clandestino de mogno na década de 80 para garantir a demarcação de terras por meio de grilagem. Essas áreas eram posteriormente desmatadas.
Segundo o Ibama, para garantir o desmatamento, os grileiros mantêm trabalhadores nessas áreas, transportados em lanchas ou barcos velozes. Além disso, estão estocando centenas de tambores com combustíveis nas localidades de Canopus, Central, Caboclo e Taboca, distantes, em média, 300 quilômetros de São Félix do Xingu e 1.200 quilômetros de Belém.
Antigas pistas de pouso também estão sendo usadas para estocar combustível, agrotóxicos e alimentos. Pelos rios chegam balsas com gasolina e diesel, tratores, motosserras, facões e trabalhadores recrutados em outros estados, como Tocantins e Maranhão, e no sul e sudeste do Pará. A entrada desse material e dos trabalhadores está sendo feita por via fluvial partindo de São Félix do Xingu.
- Há uma preparação para que o desmatamento ocorra agora, na época de chuva, para que, de julho em diante, seja feita a queimada. É necessário que o Ibama tome providências agora, porque no auge da queimada será tarde - diz o pesquisador do Instituto do Meio Ambiente da Amazônia, Paulo Barreto.
Para combater o desmatamento, as queimadas e a extração ilegal de madeira, que atinge 70% da produção florestal no Pará, o Ibama terá um reforço de 90 veículos e equipamentos de monitoramento em cinco bases em Altamira, Itaituba, Marabá, Novo Progresso e Tucumã/São Felix do Xingu.
- Até a primeira quinzena de março as bases de combate aos crimes ambientais devem estar totalmente instaladas - garante Flávio Montiel, diretor de Proteção Ambiental do Ibama.

Setor madeireiro do PA pressiona governo
A ordem é pressionar o governo federal. Desde quarta-feira, empresários, comerciantes, caminhoneiros e sindicatos do setor florestal iniciaram um movimento que reivindica a imediata liberação dos projetos de manejo florestal que estão suspensos pelo Ibama no Pará. Três rodovias foram interditadas. Um delas, a PA-150, principal via de acesso a municípios do sul do Pará, como Marabá, continua interditada, sem previsão de liberação. São mais de 20 km de engarrafamento. A rodovia Belém-Brasília também está interditada. Cerca de 20 mil pessoas participam dos protestos.
- A rodovia só será liberada se o governo federal vier negociar conosco aqui - disse Luís Carlos Tremonte, presidente do Sindicato das Madeireiras do Sudoeste do Pará.
A manifestação já conta com o apoio de cerca de 30 prefeitos da região. Uma audiência pública em Santarém vai definir o próximo passo do setor madeireiro em relação ao governo federal. Está previsto o fechamento de novas rodovias e o início do bloqueio do Rio Amazonas. A Transamazônica (BR-230) e a BR 163, perto do município de Itaituba, serão as próximas a serem bloqueadas.
Segundo Tremonte, há mais de um ano o Ibama não libera planos de manejo. O diretor de Florestas do Ibama, Antônio Carlos Hummel, explicou que o novo governo assumiu com o compromisso de verificar ilegalidades nos planos de manejo. Ele afirmou que foram suspensos 64 planos no Pará com declarações de posse consideradas precárias e planos aprovados de forma irregular. ( Ismael Machado )

O Globo, 28/01/2005, O País, p. 4

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