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No meio da floresta, brasileiros sem documentos

O Globo, O País, p. 5
01 de mar de 2005

No meio da floresta, brasileiros sem documentos

Ismael Machado

A salvação de uma das últimas regiões florestais da Amazônia que ainda não foi totalmente devastada pela ação de grileiros, madeireiros e pecuaristas está nas mãos de cerca de 300 pessoas que vivem na área da reserva extrativista Riozinho do Anfrísio, em Altamira, na chamada Terra do Meio, no Pará. São pessoas anônimas e que oficialmente não existem - 99% delas não sabem ler e escrever, não têm certidão de nascimento e nunca votaram. Alguns sequer sabem o que é dinheiro, mas eles serão responsáveis por uma área de cerca de 736. 340 mil hectares.
Descendentes dos "soldados da borracha", levados por Getúlio Vargas na época da Segunda Guerra Mundial para trabalhar em seringais, hoje enfrentam a guerra pela sobrevivência.
O decreto que criou a reserva foi assinado pelo presidente Luís Inácio Lula da Silva em 8 de novembro de 2004. Foi a principal vitória da comunidade, que até então não sabia quem era o presidente da República.
No verão, quando os rios baixam, são necessários sete dias de canoa a motor para chegar à região. Na época da chuva, a viagem leva quatro dias. Líderes da comunidade, como Luiz Augusto Amaro, Raimundo Delmiro e Herculano Porto, estão ameaçados de morte por grileiros e acreditam que a reserva é a única chance de salvar a floresta.
A malária já é uma epidemia que atinge principalmente velhos e crianças, embora a verminose também maltrate muitos moradores. Existem 103 crianças e 44 adolescentes. Todos analfabetos e sem certidão.
É o caso de Lindivaldo Dias, de 17 anos, que ajuda a família na fabricação da farinha de mandioca, um dos meios de subsistência na comunidade. Nem ele nem qualquer de seus seis irmãos foi à escola. O mesmo acontece com os 11 filhos de Feliciano e Joseli Araújo. Como os dois não foram registrados, não podem dar a certidão de nascimento aos filhos.
Prefeitura de Altamira já iniciou cadastramento
A prefeitura de Altamira iniciou um cadastramento dos moradores. No dia 19, enfermeiros, agentes de saúde, professores, dentistas, um defensor público, um promotor e um juiz irão à comunidade. Serão expedidos registros de nascimento e carteiras de identidade e feitos atendimentos médicos.
Enquanto o Estado não chega, grileiros e madeireiros avançam pela porta dos fundos da reserva, por meio principalmente do município de Trairão. Chegam comprando terras por ninharias, rasgam estradas, constróem pistas de pouso. Vêm de estados como Mato Grosso e Goiás. Quatro garimpos de ouro foram fechados na reserva.

O Globo, 01/03/2005, O País, p. 5

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