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No Mato Grosso, as capitais da crise

OESP, Economia, p. B14
19 de Jul de 2009

No Mato Grosso, as capitais da crise
Como a recuperação judicial de três frigoríficos abala as cidades do estado dono do maior rebanho do País

Paula Pacheco

A crise de três frigoríficos debilitou o Mato Grosso, dono do maior rebanho do Brasil, com 26 milhões de animais. Nos últimos meses, pediram recuperação judicial o Independência, Quatro Marcos e Arantes. Juntos, eles têm 14 plantas no Estado e devem cerca de R$ 4,4 bilhões. Ao todo, as unidades respondem por 38% da capacidade de abate de Mato Grosso.

A quebradeira foi como um soco no estômago de quem está ligado ao gado de corte. As vendas encolheram e as cidades que dependiam desses frigoríficos enfrentam uma fissura social. Com a bancarrota, 4,8 mil empregos desapareceram no Estado. Os criadores de gado de Mato Grosso perderam R$ 140 milhões - valor que os três frigoríficos devem pelo gado.

O tradicional choramingo do produtor rural nesse caso parece ter procedência. De uma hora para outra, quem contava com o dinheiro do boi, seja por meio do salário ou da venda de animais, perdeu o rumo. Com medo do calote, poucos se atrevem a vender parte da produção para o abate e os pastos estão abarrotados.

O principal empregador de São José dos Quatro Marcos, a 313 km de Cuiabá, é o frigorífico Quatro Marcos. A planta está parada desde maio e parte dos passivos trabalhistas não foi quitada.

Alessandro Casado, presidente do Sindicato Rural de São José dos Quatro Marcos e representante da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), reuniu há dois meses os produtores na porta da planta da Quatro Marcos na cidade na tentativa de interromper o abate e receber os atrasados. O dinheiro não apareceu. Mas depois daquele protesto ninguém mais vendeu animais e a planta fechou as portas.

No começo do mês, a Friboi, um dos gigantes do setor frigorífico, anunciou o arrendamento de cinco plantas do Quatro Marcos. Para os produtores, seria a esperança de receber os atrasados e voltar a vender. Mas até agora, ao que parece, não é o que vai acontecer.

Segundo a Friboi, como as unidades foram arrendadas, a dívida ainda pertence ao Quatro Marcos, que até agora não conseguiu aprovar em assembleia com os credores um plano de recuperação. Portanto a empresa afirma não se sentir obrigada a quitar as dívidas do antigo dono dos frigoríficos para repactuar o passivo de R$ 400 milhões. É a mesma avaliação do advogado do Quatro Marcos, Jorge Nemr, do escritório Leite, Tosto, Barros: "A dívida está no hall de credores, abrangidos pela recuperação, por isso ela tem de entrar no processo".

Para Luciano Vacari, superintendente da Acrimat, o caminho para reaver o dinheiro é boicotar a Friboi, deixar de vender animais para todas as suas plantas no Estado para que ela se responsabilize pela dívida da Quatro Marcos. "A Friboi nem sequer quis dialogar. É uma péssima maneira de começar uma relação comercial."

Várias teses explicam a péssima fase dos frigoríficos que colocaram o Estado no topo dos pedidos de recuperação judicial. Uma delas é a inabilidade administrativa no setor. Outros acreditam que a crise econômica internacional debilitou as exportações de carne e abalou as finanças das empresas. Uma outra é de que os donos de frigoríficos se lambuzaram com o dinheiro farto do mercado financeiro e, com a retração no consumo internacional e o sumiço do dinheiro, meteram os pés pelas mãos. "O problema é crônico. É por falta de seriedade no ramo", opina Getúlio Vilela de Figueiredo, presidente do Grupo Cinco Estrelas.

Em Pontes e Lacerda (455 km de Cuiabá e a 170 km da fronteira com a Bolívia), 10% da população economicamente ativa está desempregada porque trabalhava no Arantes ou no Independência. Os comerciantes sentiram o baque. "As vendas caíram uns 10% e podem piorar se os frigoríficos não forem reativados", diz Mauro Ramos, da associação comercial.

Dono do supermercado Paraná, Alexandre Demarchi conta que entre os clientes ligados aos frigoríficos as vendas caíram uns 70%. Na média, a retração chegou a 35%. A inadimplência passou de 2% para 10%. Para recuperar o faturamento, o empresário investiu no aluguel de ônibus que buscam a população rural para fazer compras.

Na loja de produtos agrícolas Campo Mix, com três unidades, o empresário Túlio Roncalli enfrenta dificuldades. A inadimplência foi de 3% para 12%. "A população está preocupada com o desemprego e os pecuaristas andam com o freio de mão puxado", explica.

O receio é generalizado, diz Luciomar Machado, representante da Acrimat na cidade e um dos líderes do setor. Mas, apesar do desapontamento com o calote geral, ainda falta união. "Há criadores muito ingênuos. Incluindo a atividade leiteira, a pecuária emprega três vezes mais que a indústria automobilística, e não conseguimos sensibilizar o governo", afirma.

Rodrigo Musa da Cunha, criador, levou um calote de R$ 18 mil do Independência, para quem havia vendido alguns animais na esperança de cobrir despesas deixadas pelo atraso de 15 dias do Arantes. Com o descasamento nas contas, teve de vender mais animais a um terceiro frigorífico.

O pecuarista Bento Ferraz Pacheco é outra vítima da inadimplência do Arantes e do Independência. Desanimado, ele resolveu apostar na criação de gado na Bolívia: "Mesmo com o risco político o negócio vale a pena, porque o investimento é bem menor e paga-se melhor pelos animais."

A violência aumenta nas cidades onde falta emprego
Em S. J. dos Quatro Marcos, homicídios dispararam 175% no primeiro semestre e o clima é de tensão social

A notícia se espalhou rapidamente e na porta do frigorífico Quatro Marcos a cena parecia estouro de boiada. Cerca de 500 pessoas se reuniram na quarta-feira passada em frente à empresa ao saber que a Friboi, que arrendou a planta, voltaria a contratar. Só os primeiros conseguiram preencher a ficha. Os outros tiveram de voltar no dia seguinte. A previsão é que a unidade volte a operar em poucas semanas e absorva 427 trabalhadores.

As colegas Cássia, Sidnéia, Divina e Maria Sueli, umas de bicicleta e outras de moto, não deram sorte no primeiro dia da seleção e combinaram de chegar cedo na quinta-feira. A irmã de Divina ainda tenta receber o restante do acordo trabalhista, mas por sorte conseguiu um outro emprego na fábrica da Perdigão em Mirassol D?Oeste. Sueli nunca trabalhou em frigorífico, mas espera ser chamada. Cássia já foi funcionária da empresa e conta com a experiência para ter chance na hora da avaliação. "Vou tentar uma vaga para o que aparecer. O importante é conseguir um emprego", sonha Sidnéia.

O grupo diz que a cidade mudou muito desde que o frigorífico parou. A violência aumentou e a população, apesar de se tratar de uma cidade de 20 mil habitantes, vive com medo. O resultado da crise nos frigoríficos, de acordo com o delegado da cidade, Walfrido Nascimento, "é o clima de bomba-relógio". "Estamos reforçando o trabalho preventivo porque percebemos que a cidade começou a mudar com o desemprego. Uma tensão paira sobre a cidade", afirma. Segundo ele, aumentaram as brigas de casais e há mais desocupados pelas ruas. No primeiro semestre, a polícia registrou 11 homicídios, enquanto que no primeiro semestre de 2008 foram apenas 4. Na comparação com o mesmo período, os roubos saltaram de 7 para 9.

Jussara Muniz de Farias também correu até o frigorífico na esperança de conseguir um emprego. Ela espera que a chegada do Friboi mude a administração da empresa. Seu marido, Sergio Luiz Alfredo, ainda tenta receber R$ 5 mil do Quatro Marcos. "Eles fizeram um acerto para pagar a rescisão em cinco parcelas. Pagaram duas, mas na terceira pediram recuperação e deixaram de fazer o acerto", lamenta.

Para os produtores a situação também se complicou. Seu Pedro, um septuagenário de São José dos Quatro Marcos, vendeu um caminhão de bois ao Quatro Marcos. Ia usar o dinheiro para pagar cirurgia no ombro. Veio o calote e os exames e laudos provando que tinha um problema de saúde não comoveram o financeiro da empresa. O velho pecuarista teve de vender mais bois para pagar as contas e evitar o nome sujo na praça.

Frigorífico volta sob olhos de credor
Unidade do Arantes em Portos e Lacerda retoma operação amanhã

Amanhã a planta do Arantes em Portos e Lacerda volta a abater animais depois de dois meses fora de operação. O acordo foi fechado entre a direção da empresa e um grupo de credores, liderados por Elton Luiz Maldaner, que tem o maior volume a receber, R$ 900 mil, referentes a 750 cabeças de gado.

A reunião aconteceu na quarta-feira e a proposta para que Madaner fosse, como ele diz, "os olhos e ouvidos dos credores dentro do frigorífico", só não foi aprovada por unanimidade porque Luciomar Machado, representante da Acrimat, foi contra. Para ele, a melhor forma de pressionar a empresa seria não fornecer os animais até que as entregas anteriores fossem quitadas. "Qual é a garantia que nós temos de que desta vez o pagamento será feito? Nenhuma", lamenta.

Para os pecuaristas credores, porém, há a esperança de rapidamente recompor o caixa da planta do Arantes e em um curto espaço de tempo receberem as dívidas que ficaram para trás. Os R$ 4 milhões devidos pelo Arantes aos criadores equivalem a uma semana de abate na planta de Portos e Lacerda.

"A empresa não deve parar. É a forma de resguardar os empregos e pagar os produtores. A cidade não pode ficar sem um frigorífico", avalia Maldaner, que tem mais R$ 300 mil para receber do Quatro Marcos.

A previsão de Maldaner, que a partir de amanhã começa a dar expediente integral no frigorífico, é que em 90 dias os débitos antigos sejam pagos. E, diz, se a direção do Arantes atrasar nem que seja um dia o pagamento a partir de agora, o fornecimento de animais será interrompido.

OESP, 19/07/2009, Economia, p. B14

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