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No coração da Mesopotâmia brasileira

O Globo, O País, p. 10, 12
09 de Ago de 2010

No coração da Mesopotâmia brasileira
Lucas do Rio Verde simboliza o êxito do agronegócio: fartura no campo e exuberância de serviços na cidade

Chico Otavio
Enviado especial

Eles pronunciam "terra" sem o erre dobrado, "tera". E a "tera" era um mato grosso quando lá chegaram, há três décadas, levados pelo regime militar. O propósito do generais não era só ocupar a Amazônia. Era esvaziar a Encruzilhada Natalino, embrião gaúcho do MST, de onde partiram as primeiras 203 famílias. Destas, só restaram 11. Mas o lugar cresceu e virou o coração da Mesopotâmia mato-grossense. Chama-se Lucas do Rio Verde a cidade do norte do estado, a 350 quilômetros de Cuiabá, que a terra fértil e plana, ideal para a agricultura mecanizada, transformou em fenômeno de prosperidade e qualidade de vida.

Ildo Romancini, de 55 anos, um destes pioneiros gaúchos, conta que Lucas era "pó ou barro" quando o lugar começou a ser desbravado. Pó porque, na seca, a poeira impregnava o ambiente. E barro porque, na temporada de chuvas, as estradas viravam lamaçais. Hoje, na cidade onde praticamente 100% das ruas são asfaltadas, o morador só vê barro na quadra de tênis de saibro de uma das escolas públicas.

Lucas lembra SeaHaven, a bucólica cidadezinha litorânea do filme "O show de Truman" (1998), onde o personagem central, o agente de seguros Truman Burbank (interpretado por Jim Carrey), vive em perfeita harmonia. Tudo ali funciona bem.

Truman, porém, não sabe que a cidade é artificial e ele protagoniza um reality show produzido em estúdio. Sua casa, seu trabalho, seu melhor amigo, seus pais e até sua mulher não passam de uma grande farsa transmitida ao vivo.
Divisão das terras impediu o latifúndio
Lucas, ao contrário do filme, é uma SeaHaven real. Todos os bairros têm praça pública e postos de saúde. Todas as praças oferecem equipamentos de ginástica, como um fitness a céu aberto. Por cinco anos consecutivos, a prefeitura ganhou o prêmio de Gestor Eficiente da Merenda Escolar, conferido pela ONG Fome Zero, em parceria com o governo federal. Não há criança fora da escola. Não há favelas. O PIB per capita local, calculado pelo IBGE, foi de R$ 34 mil, quase o triplo da média nacional (R$ 13,5 mil).

A explicação para tanto sucesso está na "tera", desbravada e plantada pelos pioneiros. No ano passado, o município produziu 1,5 milhão de toneladas de alimentos, lideradas pela cultura intercalada de soja e milho. Lucas do Rio Verde é o símbolo do agronegócio que progride no Arco do Desmatamento, extensa faixa amazônica, de Rondônia ao litoral do Maranhão, que, um dia, foi um imenso tapete verde.

Mas a cidade nasceu a quilômetros dali, mais precisamente na Encruzilhada Natalino, acampamento formado no fim dos anos 1970, em Ronda Alta (RS), por colonos expulsos de terras indígenas. Com medo da agitação dos sem-terra, o regime, já em decadência, mandou para lá o coronel Sebastião Curió. Sua missão era dissolver o foco oferecendo a seus líderes um pedaço de terra no Mato Grosso, bem longe da incubadora gaúcha de invasores.

- Fui embora na segunda leva, em 1982. Não havia no Rio Grande mais um palmo de terra para dividir.

Como pertencia à comissão de negociação, os companheiros disseram que eu estava abandonando a luta - lembra Ildo Romancini, que guarda o papelzinho que definiu, no sorteio, o seu lote em Lucas: 43-1.

A ocupação, baseada em pequenas fatias de terra, blindou a região dos latifúndios. Hoje, com uma estrutura fundiária equilibrada, mais de 80% das propriedades locais não passam de 500 hectares. São terras que produzem muito com pouca mão de obra (geralmente, o proprietário e um empregado dão conta do recado). Gado, ali, não costuma aparecer nem nas feiras rurais.

- Pecuarista é sugador. Deixa meia dúzia de peões e se manda.

Mas a pecuária extensiva está com os dias contados. A agricultura moderna vai avançar sobre as áreas de pastagens - profetiza o prefeito de Lucas, Marino José Franz, bem-sucedido empresário rural do lugar.

Louro e muito vermelho, Franz é econômico no sorriso. Seu rosto ganha um aspecto ainda mais severo quando a conversa deriva para tema ambiental, calcanhar de aquiles dos pioneiros sulistas, eternamente acusados de devastar, sem dó, toda a mata que encontram pela frente:
- Isso só está na cabeça de meia dúzia de loucos. Temos uma grande preocupação com a sustentabilidade. Preservamos a mata ciliar e reciclamos 100% das embalagens dos produtos usados nas culturas.

Lucas não é um caso único. A fronteira agrícola está pontuada de cidades de 50 mil habitantes, em média, com uma exuberante oferta de serviços (bancos, escolas, lojas e assistência técnica). O fenômeno contesta a tese de que a mecanização desumaniza o campo. Se as fazendas foram esvaziadas, as cidades próximas se qualificaram para oferecer facilidades às famílias produtoras e a seus peões hightech.

A urbanização, acelerada, faz pioneiros históricos, como o gaúcho Antônio Fraga Lira, pararem de plantar milho para fincar na terra vergalhões de aço recheados de concreto.

Ele aposta o capital na construção civil, sendo mais uma vez pioneiro, mas agora do processo de verticalização da cidade. Em parceria com o cunhado, ergue um prédio de nove andares e 34 apartamentos.

- Se o primeiro, de 12 apartamentos, deu certo, esse também pode dar - garantiu.

Embora o IBGE estime a população local em 34 mil pessoas, a prefeitura garante que o número é bem maior (passaria de 40 mil). Todo dia chega gente, razão de uma crescente preocupação com o risco de déficit habitacional e seus efeitos colaterais. A fama de Lucas se espalha. Para os que querem tentar a sorte, o prefeito alerta:
- Milagre econômico não existe.

Aqui, tem de dar duro - diz Franz, que acorda todo o dia às 4h.

Cidade ouve novos sotaques
Depois dos colonos sulistas, Lucas começa a receber migrantes de outras regiões, fenômeno que pode provocar segregação e choque entre culturas

Chico Otavio
Enviado especial

Na Semana Farroupilha, data máxima do Rio Grande do Sul, muitos gaúchos saem de casa vestindo bombachas. Fiel à tradição, um jovem usou as calças largas, presas aos joelhos, há quatro anos, para ir à escola em Lucas do Rio Verde. Como estava no Mato Grosso, portanto longe do seu estado natal, foi barrado. A medida provocou confusão na cidade, a ponto de chegar à Câmara Municipal.

Essa crise, somada à revogação do feriado em Lucas no 20 de setembro, data da Guerra dos Farrapos, representou uma virada na curta história de 21 anos do município. Formada por sulistas em sua maioria, com pouco mais de 10% de moradores nascidos no local, a população luquense se defronta agora, diante do crescimento e da chegada de migrantes de outras regiões, com o desafio de ganhar identidade própria.

Após passar dois meses na cidade, ano passado, uma equipe do Núcleo de Estudos da População, da Unicamp, constatou que 63% dos entrevistados nasceram fora de Mato Grosso. São os colonos que desbravaram o lugar, compostos por paranaenses, gaúchos e catarinenses.

Mas a hegemonia dos sulistas perde a força. Com o avanço do processo de agroindustrialização, marcado pela chegada das fábricas de esmagamento de grãos e de abate de suínos e aves e uma usina de biodiesel, todas vinculadas à cultura de soja e milho, Lucas virou destino de migrantes nordestinos, principalmente maranhenses, e moradores de áreas mais pobres do Mato Grosso.

Se até então a referência cultural dos recatados colonos sulistas era o Centro de Tradições Gaúchas (CGT), a cidade passou a receber outros temperos. Na vila de operários da Sadia, que abateu em Lucas, só no ano passado, 31 milhões de cabeças de frango e 500 mil de suínos, já tremulam bandeiras de times nordestinos, e as músicas cantadas no centro católico sugerem um forró.

A segregação cultural impressiona o geógrafo Eduardo Marandola Júnior, um dos responsáveis pelo estudo da Unicamp. Para ele, o espírito pioneiro dos colonos que deixam tudo para trás, para reiniciar a vida, é forte na fronteira agrícola. Marandola teme que esta característica entre em conflito com o novo ciclo migratório, cujo destino não é mais o campo, mas o espaço urbano:
- Os nordestinos que chegam ocupam bairros novos. A segregação é clara. O lugar de cada um está definido, e isso é muito ruim. Cria uma lógica perversa, de exclusão do diferente. Não há uma disposição mútua de entrosamento.

O convívio destes grupos ocorre em lugares específicos, como nas arquibancadas do estádio municipal, onde moradores assistem, orgulhosos, aos jogos do Luverdense Esporte Clube, único time mato-grossense que disputa a Copa do Brasil. Fundado há seis anos, já foi campeão estadual e prepara-se para disputar a Série C do Brasileirão.

Na cidade cortada por ciclovias, onde o parque municipal (Buritis) mede cem hectares, as escolas públicas oferecem piscina aos alunos e o Fundo de Participação dos Municípios só responde por 11% da receita da prefeitura, o custo de vida também impressiona. Um apartamento de três quartos, em prédio com serviços, ou casa de 200 metros quadrados não custa menos de R$ 250 mil, preço de cidade grande.

O Globo, 09/08/2010, O País, p. 10, 12

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