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'No atual modelo, mais eficiência é menos economia'

O Globo, Página 2, p. 2
Autor: FATHEUER, Thomas
16 de Nov de 2016

'No atual modelo, mais eficiência é menos economia'
Thomas Fatheuer, sociólogo e ativista Alemão, que já trabalhou em projetos na região amazônica, veio ao Rio para debate sobre a economia verde no Instituto de Arquitetos do Brasil
"Nasci numa pequena cidade alemã, de cultura de carvão. Havia três minas. Hoje, só uma. Estudei Ciências Sociais e Filologia: latim e grego. Fui professor e me doutorei. Vivi sete anos no Brasil, quando presidi a Fundação Heinrich Boll local. Aqui me casei e tive três filhos. Atualmente, vivo em Berlim, escrevo livros, sou free lancer e palestrante."

ARNALDO BLOCH
arnaldo@oglobo.com.br

Conte algo que não sei.
Na Idade Média alemã, corte de árvores era punido com pena de morte. Os camponeses, que usavam a floresta para engorda de porcos e para caçar, foram expulsos pela classe dominante. Quem voltasse, morria. Não era exatamente uma medida ecológica...

Seu novo livro faz uma crítica à economia verde. Do que se trata?
Não adianta desmatar a floresta da Indonésia, plantar palmeiras de óleo e causar emissão de CO2 para depois queimar biodiesel em outros lugares. O motor a diesel, embora tenha eficiência maior, emite muito mais poluentes que outros tipos. Tão danosos quanto.

Dê mais exemplos.
O efeito rebote: as pessoas usam eletrodomésticos supereconômicos, mas o consumo familiar aumenta! Sobra para comprar mais e maiores geladeiras, mais TVs e novas máquinas. A indústria digital não reduziu muito o consumo de papel: as impressoras são baratas. O pessoal não para de imprimir. Há mais acúmulo que substituição. A eficiência energética tem efeitos limitados. No atual modelo, mais eficiência é igual a menos economia. Isso não muda o futuro.

O que muda o futuro?
Não pode ser só questão de economia e tecnologia. Nossos modelos de trânsito, de construir cidades, a dominação dos carros, todos estão em debate. Cada vez mais se investe capital em uso atrativo de bicicletas. É o acúmulo de pequenas mudanças que nos livrará do acúmulo de danos.

E a matriz fóssil? Quem vai querer desativar?
Os cálculos são de que se a gente queima todo o petróleo qualquer meta de emissões estoura. Quando os renováveis ficarem mais baratos, vai-se discutir. Mas será preciso tomar decisões políticas que doem. Na Alemanha, existia um consenso nos anos 1960/70 de que a matriz atômica era o futuro. Hoje, nenhum partido pensa assim.

Fale de outros vilões.
A agropecuária. Temos que comer menos carne. Não vamos ficar sem um churrasquinho, mas tem que moderar. Minhas filhas convenceram a família a reduzir ao mínimo. Mas o arquirrival é a aviação. Vai crescer sete vezes até 2050. Não haverá tão cedo um milagre para voar limpo. Estão propondo comprar créditos de carbono em massa. Mais uma solução que virá para não sair do lugar.

A solução é não voar?
Limites mínimos de quilometragem comercial. Melhorar os trens. É mais barato ir de Berlim a Paris de avião que trem. Na Alemanha, há um movimento de nenhum aeroporto a mais.

Na vida pessoal você é ecologicamente correto?
Tenho um carro a gás, menos bem poluente. Mesmo com três filhos, consegui baixar em 50% a quilometragem com carro particular. Voltei à bicicleta e uso mais transporte público. Até porque não há mais vagas para carros em Berlim.

Existe excesso de aflição?
Há uma mudança climática, efeito de intervenção humana, e isto é muito perigoso. Ainda se diverge sobre o tamanho do perigo. O derretimento de calotas, por exemplo, pode afetar correntes, mas também provocar um esfriamento. A Embrapa diz que a cana-de-açúcar ganha com mudanças climáticas. Os vinicultores europeus preveem que será bom para eles. Cientistas russos veem mais vantagens que desvantagens... Mas, claro, é melhor não experimentar!

O Globo, 16/11/2016, Página 2, p. 2

http://oglobo.globo.com/sociedade/conte-algo-que-nao-sei/

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