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No 23º dia da greve de fome, bispo desmaia e é internado

OESP, Nacional, p. A14
20 de Dez de 2007

No 23o dia da greve de fome, bispo desmaia e é internado
Atriz Letícia Sabatella chora ao saber que STF autorizou prosseguimento da transposição

Angela Lacerda, Felipe Recondo e Leonencio Nossa

Após 23 dias de greve de fome contra a transposição do Rio São Francisco, o bispo de Barra (BA), d. Luiz Flávio Cappio, foi internado ontem à noite na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Memorial, em Petrolina (PE), por decisão do médico Klaus Finkam. Segundo o médico, isso significa o fim da greve. D. Luiz teve um desmaio à tarde, em Sobradinho (BA), depois de saber que o Supremo Tribunal Federal (STF) derrubou a liminar que mantinha paralisadas as obras e não aceitou recurso do Ministério Público para suspender o projeto.

Uma UTI móvel levou d. Luiz a Petrolina, que fica a 50 quilômetros de Sobradinho. Logo antes de desmaiar, ele preparava nota sobre a conclusão do STF. "É um desalento muito grande", disse.

Indagado se o bispo o autorizara a dizer que a greve de fome acabara, Finkam foi incisivo: "Sim, ele me autorizou." O médico explicou que d. Luiz estava semiconsciente, com o estado geral comprometido: "Ele será internado por determinação minha, para evitar possíveis danos permanentes." Mas a Articulação do São Francisco Vivo, contrária à obra, insistiu em que a greve não acabou e essa decisão só pode ser tomada pelo bispo, quando voltar plenamente à consciência. Em nota, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) disse o mesmo.

À noite, já em Petrolina, João Franco Cappio, irmão do bispo, desautorizou a Articulação do São Francisco Vivo "ou qualquer outra pessoa" de outros movimentos a falar em seu nome. "Só quem pode falar pelo frei Luiz é a família e o médico", afirmou. "A greve de fome acabou."

Franco contou que foi ele quem providenciou a ambulância e que o bispo estava na UTI, "não por necessidade, mas para ser medicado, porque está muito fraco". O irmão insistiu em que d. Luiz foi levado ao hospital com sua autorização e da família. "Ele disse, faz o que o senhor achar melhor, doutor."

Rita, irmã de d. Luiz, disse que o desmaio de d. Luiz foi resultado das notícias sobre o Supremo. "Ele já estava debilitado e levou um choque ao saber da decisão."

JULGAMENTO

Em Brasília, a atriz Letícia Sabatella acompanhou o julgamento no STF com outros manifestantes. No fim, Letícia deixou o prédio chorando. "Acho que é humilhante para o povo passar por esse nível de insensibilidade tanto do nosso governo como do nosso sistema judiciário."

Para o governo, foi uma vitória dupla no STF. Primeiro, o ministro Carlos Alberto Direito derrubou liminar da Justiça Federal que semana passada suspendeu a obra. Depois, o plenário rejeitou o recurso do Ministério Público por 6 votos a 3. "Ficou claro que o processo de licença ambiental está de acordo com a lei", comemorou o advogado-geral da União, José Antonio Dias Toffoli.

Com a derrubada da liminar, ainda sem saber do desmaio do bispo, o presidente Lula decidiu rejeitar as duas principais exigências que d. Luiz apresentara em documento - suspensão da obra e redução do volume de água para Pernambuco e Paraíba.

Com as decisões do STF, o governo pode retomar a obra. Segundo o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, o primeiro lote da licitação deve ser anunciado hoje.

Religioso emagreceu um total de 9 quilos
Fragilidade aumentava a cada dia, segundo avaliação de seu médico
Angela Lacerda e Ricardo Rodrigues
Sobradinho - O desmaio do bispo d. Luiz Flávio Cappio foi o primeiro nos 23 dias de jejum. Ontem o religioso perdeu mais meio quilo, totalizando nove quilos. Seu peso passou de 72,5 quilos no dia 27 de novembro, quando iniciou a greve de fome, para 63,5 quilos.

"Seu estado geral apresenta uma fragilidade que aumenta a cada dia", atestou o seu clínico geral, o frade franciscano Klaus Finkam, no boletim médico divulgado de manhã. Na noite de anteontem ele sentiu dores no corpo, mas conseguiu dormir. Sua pressão estava baixa - nove por seis -, embora os sinais vitais, funções fisiológicas e estado mental estivessem normais, sem alteração. "A função renal de frei Cappio está se estabilizando, mas ainda é cedo para uma avaliação final", afirmou Finkam à tarde, ao se referir a uma alteração no valor da creatinina apontada por exame laboratorial realizado há dois dias. "Outro exame mostrou o valor beirando a normalidade."

Além de beber meio copo de água de 15 em 15 minutos, o religioso se submetia a tratamentos alternativos. Fazia escalda-pés duas vezes ao dia para ajudar o funcionamento renal e mergulhava os braços na água gelada quando a pressão caía, sempre com ajuda e supervisão das irmãs Rosa Maria e Rita. Elas e o irmão João Franco Cappio estiveram todo o tempo a seu lado. Ontem d. Luiz passou o dia na Igreja de São Francisco, em Sobradinho (BA), e saiu uma única vez para falar rapidamente com os romeiros. Ele aparecia cada dia menos, por causa do estado debilitado.

Depois do desmaio, ele voltou a si com ajuda médica - sem remédios, segundo o coordenador da Comissão Pastoral da Terra (CPT), Rubem Siqueira. Em seguida, dormiu. Ao seu lado ficaram as irmãs Rosa Maria, Rita, o irmão, o médico e o assessor Adriano Martins.

Para o bispo de Juazeiro, d. José Geraldo, a internação não representou uma derrota para d. Luiz, nem uma capitulação.

APOIO

Movimentos sociais e sindicatos rurais dos municípios baianos de Remanso e Uauá bloquearam ontem, das 11h15 às 12h15 a Ponte Presidente Dutra, sobre o Rio São Francisco, que liga Petrolina (PE) a Juazeiro (BA), contra a transposição. Os índios tuxá e tumbalalá de Rodelas (BA) e Ibó (PE) dançaram o toré logo cedo, na vigília da manhã, e retornaram à Igreja de São Francisco à tarde.

Em Alagoas, cerca de 150 sem-terra acampados desde terça-feira no Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) em Maceió, participaram de manhã de uma missa e deram início a um jejum coletivo, em solidariedade a d. Luiz. O protesto é organizado pela CPT.

OESP, 20/12/2007, Nacional, p. A14

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