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Níquel de Onça Puma agita sudeste do Pará

OESP, Economia, p. B6
12 de Set de 2004

Níquel de Onça Puma agita sudeste do Pará
Maior projeto de extração do metal tem investimento anunciado de US$ 1 bi

Luiz Makloif Carvalho
Especial para o Estado

Acampamentos movimentados, tratores, caminhonetes com tração nas quatro rodas, sondas de perfuração, geólogos, engenheiros de minas, operários...
O movimento é grande, dia e noite, de segunda a sábado, nas serras da Onça e do Puma, no complexo de riquezas minerais de Carajás, sudeste do Pará. A Onça é um maciço de 23 quilômetros de extensão por 3,6 quilômetros de largura. A Puma é um pouco menor. Estendem-se pelos municípios de Água Azul do Norte, Ourilândia, Parauapebas e São Felix do Xingu. A Mineradora Onça Puma, da canadense Canico Resources, implanta o maior projeto de extração de níquel do Brasil.
Os investimentos anunciados são de US$ 1 bilhão - US$ 550 milhões até meados de 2007, quando está prevista a operação da primeira linha de beneficiamento, e o restante até 2010, com a implantação da segunda linha.
"De 2001 para cá já investimos US$ 50 milhões", diz o engenheiro de minas Victor Retamal, gerente-geral da empresa. "Só na perfuração foram US$ 9 milhões." Chileno, com 27 anos de Brasil e vasta experiência com mineração, Retamal ainda não se livrou do portunhol. Casado com uma brasileira, sua base é o Rio de Janeiro. Ou era, já que fica em Ourilândia a maior parte do tempo.
Em agosto, Retamal experimentou a primeira saia-justa da Onça Puma: uma invasão liderada pelo vereador Gerson Cristo, do PT de São Felix do Xingu, que se estendeu do dia 13 ao dia 26. Queriam fazer barulho e pressão para a liberação de verbas que recuperem estradas vicinais - antes que o inverno chegue e deixe 2 mil famílias novamente isoladas. Calculando que a repercussão seria maior, como de fato foi, invadiram a Onça Puma, de onde acham que vai sair o dinheiro. São estimados R$ 4,5 milhões - o preço a pagar pelo uso do solo, já que o subsolo é instância do Departamento Nacional de Pesquisas Minerais (DNPM).
O dinheiro sairá logo, mas depende de tramitação complicada. "Estamos caminhando para a solução", disse o gerente executivo do Incra-Brasília, Raimundo Lima. Ardoroso defensor do projeto, Lima não gostou da pressão de Cristo, mas o vereador é o único petista dos municípios da PA-279 e pesa na balança eleitoral local. "Sem pressão, a verba não sai", diz Cristo.
A pressa do vereador é para antes da eleição. Ele disse, em São Felix do Xingu, que se as obras não começarem até o final do mês, uma nova invasão ocorrerá. Precavida, a Onça Puma foi à Justiça e já tem garantias para impedir nova incursão.
De Vancouver, no Canadá, o presidente da Canico, Michel Kenyon, acompanhou a crise. "Ele ficou perplexo, decepcionado e chegou até a falar de uma eventual saída do Brasil se não houver reciprocidade de propósitos", diz Retamal.
Mas, em relação ao Incra, a empresa não pode reclamar. A Onça Puma instalou-se na área das serras, onde havia um assentamento de reforma agrária, sem aviso oficial ao órgão federal. Como a lei proíbe a venda de lotes pelos assentados, saiu comprando as benfeitorias das 59 famílias, numa área de 6.800 hectares. Pagou o triplo do que valiam - R$ 132 milhões, segundo Retamal - e todo mundo saiu. "O Incra não teve conhecimento disso", diz Lima, para quem a ação dos assentados foi ilegal e, por isso, eles foram excluídos do programa.
Na fase atual, de lavra e de pesquisa, as 16 sondas em operação contínua já fizeram 3 mil perfurações na rocha das 2 serras. Em linha reta, seria um furo de 104 quilômetros.
A floresta da montanha da Onça está sendo derrubada para abrir acessos às plataformas de sondagem. A empresa está autorizada a fazê-lo - desde que refloreste cada acesso depois, o que diz estar cumprindo. "Estamos em dia com os trâmites legais", diz Retamal.
As sondas - Às 7 da noite a serra já é breu.
Depois de percorrer as subidas e descidas do labirinto de acessos, às vezes com o carro traçado (com tração nas 4 rodas), o geólogo Edson César de Souza, mineiro de Outro Preto, 35 anos, 4 de formado, há 16 meses na Onça Puma, chega a uma das sondas. Pilotada por quatro funcionários da empreiteira terceirizada, a máquina perfura a rocha com um tubo de aço oco, recolhendo amostras. Elas são cuidadosamente arrumadas em bandejas plásticas ou de madeira, com placas que identificam a profundidade e o aproveitamento.
Dali, irão para análise num laboratório de Belo Horizonte. Em média, cada sonda fica 2 dias e 2 noites num local.
Souza é o chefe das operações na Onça. Fica a semana toda no acampamento, só folga no domingo e morre de saudades da mulher e dos filhos que estão em Ouro Preto. A cada quatro semanas, tem uma de folga. Vai para lá, é claro.
"O que me atrai é o desafio e a envergadura de um projeto que está trazendo desenvolvimento para a região", diz. Na Puma, onde a atividade se repete, o geólogo Everton de Castro, 38 anos, também ouro-pretano, tem a mesma empolgação, com a vantagem de ser solteiro.
Onerosa, e a uma distância cada vez menor entre os furos, a sondagem, que está em fase final, faz o mapeamento preciso dos veios e da concentração do minério. Quanto mais exata ela for, mais produtiva será a exploração, com começo previsto para o primeiro trimestre de 2007.
A sede da Mineração Onça Puma fica em Ourilândia do Norte, a 920 quilômetros de Belém. Ocupa uma quadra inteira, com muros azuis, seguranças na entrada, boas caminhonetes, blocos de minério ornamentando os jardins. A empresa tem 67 funcionários, 24 deles com nível superior, a maioria geólogos. O menor salário é de R$ 800. O salário médio é de R$ 3.200. Dá uma folha de pagamento de R$ 170 mil mensais. As 4 empreiteiras contratadas têm 250 funcionários, a maioria no trabalho de perfuração.
"Nunca imaginamos que Ourilândia fosse ganhar um projeto deste porte", diz o prefeito, médico e fazendeiro Romildo Veloso, do PSDB, quase no fim do segundo mandato. Ourilândia tem 30 mil habitantes e o 18.o Índice de Desenvolvimento Humano (0,76) entre os 143 municípios do Estado. O orçamento deste ano é de R$ 14 milhões - um troquinho diante do que anuncia a empresa canadense. "Quando o projeto estiver em pleno funcionamento vamos gastar US$ 154 milhões por ano em compras e serviços", diz Retamal. Em termos de empregos, serão 2 mil diretos e indiretos durante a construção e em torno de 600 diretos quando estiver operando. Veloso estima, sem confirmação da empresa, que cada prefeitura (Ourilândia, Água Azul, São Felix e Parauapebas) receberá, só de impostos, R$ 1,5 milhão por mês. Por enquanto, a empresa presenteia cada uma delas com R$ 150 mil para projetos de interesse comunitário.

Criar valor na própria região, um dos objetivos
Pelos dados já obtidos da pesquisa geológica, as reservas da Puma e da Onça, estimadas em 104 milhões de toneladas, com um teor médio de níquel de 2,15%, um dos mais altos do mundo, são as maiores do País. É das poucas da região de Carajás que não pertence à Companhia Vale do Rio Doce.
Segundo o projeto, a Onça Puma vai extrair e processar o minério numa usina metalúrgica que será construída em Ourilândia do Norte, próximo às minas. "O mais importante é que vamos agregar valor na própria região", diz Victor Retamal, gerente da mineração. O produto final será o ferro-níquel (com 80% do primeiro elemento). Nas estimativas da empresa, a primeira linha de beneficiamento estará pronta em meados de 2007. Terá custado um investimento de US$ 550 milhões e produzirá 32 mil toneladas de ferro-níquel. A construção da segunda linha chegaria a US$ 1 bilhão. O tempo de exploração é de no mínimo 45 anos.
A Canico começou os trabalhos em 2001, quando comprou as reservas da Inco, líder no mercado mundial do níquel, que as descobriu nos anos 70. A Inco tem 13,7% da Canico, que tem 64% de suas ações na Bolsa. O restante são ações da diretoria (10,7%) e da Centennial Asset (11,2%), do empresário brasileiro Eike Batista, mais conhecido como o ex-marido da modelo Luma de Oliveira.
Em maio, Batista e Michael Kenyon estiveram com a ministra de Minas e Energia, Dilma Rousseff, apresentando o projeto. Em março deste ano a ministra esteve no Canadá, com a direção do DNPM e da Companhia de Pesquisas de Recursos Minerais (CPRM), participando da reunião anual da associação de mineradoras canadenses. Ouviu, dos investidores, que há interesse em aportar US$ 2 bilhões no Brasil em projetos de mineração. (L.M.C.)

No ano passado, US$ 153 milhões em importações
O níquel é um metal branco-prateado obtido na exploração de alguns tipos de minérios. Tem grande resistência à oxidação e à corrosão e é largamente utilizado na produção de aços inoxidáveis e ligas especiais. O Brasil é importador do produto. Comprou US$ 153 milhões no ano passado, 16% a mais que em 2002.
Cuba é a campeã mundial em reservas conhecidas, com 23 milhões de toneladas.
O Brasil está em décimo lugar, com 8,3 milhões de toneladas. Os principais depósitos brasileiros estão em Goiás (74%), Pará (16,7%), Minas Gerais (5,1%) e Piauí (4,2%). A produção brasileira em 2003 foi de 30.514 toneladas.
A Mineração Onça Puma será a quarta empresa brasileira a produzir o metal, na forma de ferro-níquel. Já estão no negócio, consolidadas, a Companhia Níquel Tocantins e a Mineração Serra da Fortaleza (Grupo Votorantim), a Codemin e a Morro do Níquel (Grupo Anglo American). A Companhia Vale do Rio Doce tem reservas em Carajás e vai explorá-las, com investimentos de US$ 700 milhões. A Vale assinou um protocolo de intenções com o governo do Piauí, comprometendo-se a fazer prospecções em Capitão Gervásio de Oliveira, a 550 quilômetros de Teresina. Os grupos Votorantim e Anglo American também anunciaram novos investimentos em suas plantas.
O mercado do metal vive, mundialmente, um momento de pico, estimulado principalmente pela demanda da China. Na Bolsa de Metais de Londres, o preço da tonelada está batendo a casa dos US$ 13 mil. O ferro-níquel, que será o produto final da Onça Puma, com 20% do último elemento, está valendo, por tonelada, US$ 1.650. (L.M.C.)

OESP, 12/09/2004, Economia, p. B6

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