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Ninguém sabe o custo de Belo Monte: valores variam de R$ 7 bi a R$ 30 bi

O Globo, Economia, p. 23
29 de Jul de 2009

Ninguém sabe o custo de Belo Monte: valores variam de R$ 7 bi a R$ 30 bi
Além da questão ambiental, divergência nos investimentos pode emperrar obra

Eliane Oliveira e Gustavo Paul

Mais do que questões ambientais, uma queda-de-braço entre governo e setor privado pode se tornar o principal empecilho para que a usina de Belo Monte, no Pará - o maior empreendimento elétrico em cronograma hoje no país, equivalente a quase quatro usinas de Jirau - saia do papel. Enquanto o Ministério de Minas e Energia estima que o custo da obra gira em torno de R$ 16 bilhões, os empresários asseguram que o empreendimento vale, no mínimo, R$ 30 bilhões. Publicamente, o valor de investimentos para concluir a obra ainda é de R$ 7 bilhões, de acordo com os balanços quadrimestrais do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

Esta discrepância foi demonstrada em reunião, ontem, entre o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, e representantes das associações brasileiras das indústrias de Base (Abdib), de Máquinas (Abimaq) e Eletroeletrônica (Abinee). Os empresários foram convocados pelo ministro para a apresentação do projeto, com novo cálculo.

Projeção do governo "chocou" empresários
É a segunda grande obra de infraestrutura a ter mudança de preço recentemente. Na semana retrasada, o trem-bala que ligará o Rio a São Paulo e Campinas, orçado inicialmente em US$ 11 bilhões, teve o preço recalculado para US$ 17 bilhões.

Não houve consenso nos debates de Belo Monte, ontem, apesar do empenho do ministro em argumentar que a obra é fundamental para o governo Lula. Segundo um dos presentes, o novo valor da usina "chocou" os empresários. Depois de ouvir a proposta de Lobão, a indústria aguarda agora o envio dos detalhes técnicos para entender a razão que levou à redução radical dos custos que ela estimou.

- Os números não estão batendo - disse um participante do encontro. - O ministro ficou fazendo jogo de cena e jogando o preço para baixo, como se estivéssemos ganhando rios de dinheiro.

Os empresários alertaram que a discrepância de preços torna mais difícil a elaboração de uma equação financeira, para que finalmente a data da licitação de Belo Monte seja marcada. Outra preocupação relativa ao baixo valor do empreendimento é que o fabricante, para reduzir custos, acaba importando equipamentos de outros países, com destaque para a China, o que pode significar um golpe para a indústria nacional.

- A falta de uma equação financeira é o grande obstáculo para que se determine quando a obra vai acontecer.

Esta foi a pior reunião sobre o tema da qual participei - disse um empresário.

Analista: obra corre o risco de não atrair investidores
Segundo um analista do setor elétrico com passagem pelo governo, a discrepância de valores revela um problema grave para a concepção da obra. Para ele, não haveria sentido econômico em projeções tão antagônicas para um mesmo empreendimento. O risco é a obra não atrair investidores:
- Me parece que o governo está querendo jogar a obra para um preço bem baixo, apostando em queda de preços na comercialização da energia no mercado livre. Mas esse mercado oscila muito e a conta pode não fechar - afirmou.

Ao ser concluída, a usina de Belo Monte deverá ser a terceira maior hidrelétrica do mundo, com capacidade de geração de 11,1 mil megawatts. Nas últimas semanas, o processo de licenciamento ambiental foi interrompido por uma liminar da Justiça Federal, no Pará. Depois, o Ibama ainda terá de conceder a licença ambiental.

Alegando problemas ambientais, o governo já sinalizou duas vezes a data de licitação da usina. A primeira previsão era ocorrer em setembro deste ano, mas acabou sendo postergada para outubro.

O Globo, 29/07/2009, Economia, p. 23

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