O Globo, Economia, p. 21
Autor: VIDOR, George
06 de Jun de 2011
Nesses tempos de polêmica em torno da futura hidrelétrica de Belo Monte, leio um recente livro sobre a malsucedida experiência de Henry Ford no Pará, no fim da década de 20. Na época ainda detendo 45% do mercado americano de veículos, Ford era um visionário que sonhava em construir uma sociedade de cidades pequenas e médias, energeticamente autossuficientes, aliando agricultura e indústria. Foi convencido de que poderia realizar parte desse sonho à beira do Rio Tapajós, produzindo borracha natural em larga escala. O projeto fracassou porque a natureza amazônica só favorece seringueiras no meio da própria floresta. O plantio dessas árvores uma ao lado da outra está sujeito a pragas e a uma produtividade fortemente decrescente.
Os relatos históricos da Fordlândia mostram uma população ribeirinha miserável, doente, sem esperança, vivendo de um extrativismo primitivo. Essa realidade pouco mudou desde então em certas áreas isoladas da Amazônia e talvez até tenha se agravado com o desmatamento e disputas por terras para a chegada da pecuária.
Por isso, projetos como o da hidrelétrica de Belo Monte, rotulados como desastrosos, podem ser na verdade uma tábua de salvação, uma oportunidade para se reordenar a ocupação dessa parte da Amazônia, permitindo aos chamados povos da floresta viver sem a ameaça da pobreza e da doença.
Quanto menos gente de fora da região no canteiro de obras, melhor. Essa lição os empreiteiros que tocam grandes obras pelo interior do país já aprenderam e, no caso específico da hidrelétrica de Belo Monte, uma das idéias é contratar, sempre que possível, também as mulheres dos trabalhadores. Além de propiciar um reforço significativo na renda familiar, essa política possivelmente integrará mais a população local ao empreendimento.
O Globo, 06/06/2011, Economia, p. 21
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