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Negócios em risco

O Globo, Economia verde, p. 31
Autor: VIEIRA, Agostinho
17 de Out de 2013

Negócios em risco

Agostinho Vieira

Toda empresa que se preza tem uma área, um departamento ou, pelo menos, uma pessoa destacada para cuidar de riscos. Não é só fazer um seguro e esquecer. É preciso buscar alternativas que possam ser acionadas rapidamente para evitar prejuízos. E se uma máquina quebrar? E se o galpão pegar fogo? Tudo tem que ser considerado. E se o planeta aquece 3"C, 4"C ou mais, como estão prevendo os cientistas? O que acontecerá com a companhia?

A ONG Carbon Disclosure Project (CDP) resolveu pesquisar como as cem maiores empresas brasileiras estão enfrentando o problema. Como critério para definir as cem mais eles usaram o iBrX, da Bolsa de São Paulo. O estudo seguiu o mesmo padrão adotado há alguns anos em mais de seis mil empresas espalhadas por 70 países. Em resumo, a intenção era saber se elas mediam as suas emissões de gases de efeito estufa, como encaravam os desafios das mudanças climáticas e o que faziam para combatê-los. O resultado foi bom? Depende.
Pra começar, das cem empresas procuradas, apenas 56 responderam o questionário. Entre as demais, 41 recusaram o convite e uma não mandou todas as respostas e foi descartada. Já as outras duas não deram qualquer retorno. Ou seja, num grupo das maiores empresas do país quase 50% não mostram o menor interesse pelo tema. Imagine um trabalho semelhante feito com pequenos e médios negócios?
Mas nem tudo está perdido. Também é possível olhar a metade meio cheia deste copo. Das 56 empresas, cinco foram desconsideradas por razões metodológicas. As perguntas já haviam sido respondidas por suas matrizes em outros países. Entre as 51 que efetivamente participaram do trabalho, 55% disseram que medem regularmente as suas emissões e possuem metas de redução. Em 2012, o índice de respostas positivas para essas questões era de 40%.
O problema é que 76% delas registraram aumento na liberação de carbono nos últimos doze meses. Puxado, principalmente, pelo setor de energia. Outra notícia boa é que essas companhias, juntas, investiram mais de R$ 6 bilhões em iniciativas diversas para reduzir as emissões de CO². É verdade que todo esse dinheiro equivale apenas a 0,07% da receita declarada. Mas já é alguma coisa.
Segundo os pesquisados, os melhores investimentos têm sido em projetos de energia de baixo carbono. Para cada R$ 1 mil desembolsados, em média, há uma redução de mais de 535 toneladas de carbono. E mais: o retorno sobre esses recursos investidos se dá em menos de um ano. Para 46% dos empresários ouvidos, as economias resultantes superam com folga os aportes. Outros 69% acham que leis climáticas mais rigorosas podem representar boas oportunidades para os seus negócios.
76% das maiores empresas brasileiras registraram um aumento nas suas emissões de gases de efeito estufa nos últimos doze meses. Entre as pesquisadas, 55% disseram que fazem medições regulares dos lançamentos e que possuem metas de redução.
Já no capítulo dos riscos, o aumento das secas e das enchentes é apontado como a principal ameaça. No geral, existe um grau até razoável de comprometimento de algumas grandes empresas com a redução das emissões. Mas ele se limita a um número pequeno, de setores específicos. Quando se olha para o conjunto das companhias nacionais, com seus diversos tamanhos, a situação é bem pior.
O que predomina é uma mistura de indiferença com descrédito. Poucos acreditam que alguma legislação mais rigorosa será realmente adotada e quase todos acham que os efeitos das mudanças climáticas ainda são um problema futuro. Enquanto isso, organismos internacionais como o FMI e a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) seguem reafirmando que é preciso taxar as emissões de carbono e acabar com os subsídios para os combustíveis fósseis, que já superam a marca dos US$ 600 bilhões por ano.
No início da semana, o secretário-geral da OCDE, Angel Gurría, disse que "qualquer política de resposta às mudanças climáticas precisa tornar as emissões de carbono cada vez mais caras, além de incentivar as fontes alternativas de energia e a eficiência energética". Das duas, uma. Ou as entidades estão sendo alarmistas ou algumas empresas estão sendo irresponsáveis com os seus negócios.
O que está na mesa não é uma ação de marketing. Não se trata de ser ou não ser politicamente correto. É uma discussão objetiva sobre riscos e oportunidades. A literatura está repleta de casos de bons empresários que perderam o bonde da história e de alguns que acabaram até sendo atropelados por eles. O mundo está mudando muito rapidamente, só não vê quem não quer.

O Globo, 17/10/2013, Economia verde, p. 31

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