O Globo, Ciências, p. 30
08 de Mai de 2012
Negociadores da Rio+20 ganham prazo extra para chegarem a acordo
Objetivo é deixar declaração final 90% pronta, evitando novo fracasso
Cesar Baima
cesar.baima@oglobo.com.br
A luta para que a Rio+20 termine com pelo menos um compromisso mundial em torno do estabelecimento de metas de desenvolvimento sustentável ganhou mais fôlego no fim de semana. Após ficarem em um impasse, representantes de diversos países reunidos em Nova York concordaram em realizar uma nova rodada de negociações prévias entre 29 de maio e 2 de junho. Segundo Sha Zukang, secretário-geral da conferência, a ideia é de que a declaração final esteja 90% pronta já no início do encontro, deixando apenas os 10% restantes, e mais delicados, para serem negociados diretamente pelos mais de 120 chefes de Estado, governo e ministros esperados no Rio de Janeiro para a reunião de cúpula entre 20 e 22 de junho.
- Podemos ter um documento final que se some a acordos anteriores, um resultado que seja voltado para a ação e traduza o futuro que queremos - disse Sha, que admitiu, porém, que o texto à mesa ainda é muito grande e repetitivo, o que vai exigir trabalho redobrado nesta reta final. - Atualmente, o texto em negociação está longe do "documento político focado" que a Assembleia Geral pediu.
Ao longo da semana passada, os diplomatas conseguiram "enxugar" o documento de quase 300 páginas para cerca de 150, mas a meta é ter uma declaração final objetiva com aproximadamente um terço desta extensão. Para Carlos Joly, professor da Unicamp e especialista em biodiversidade, o sucesso desta negociação é que dará o tom da reunião de cúpula no Rio e sua importância para o futuro do planeta.
- É impossível assinar um texto deste tamanho, temos que chegar no Rio com um documento que seja viável - defende. - Já houve uma redução considerável (no tamanho), mas o fato de ainda termos a maior parte entre colchetes (o que na tradição diplomática indica que o texto ainda não é objeto de acordo) é muito preocupante diante do pouco o tempo que teremos para essas negociações no Rio.
Assim como Sha, Joly considera que serão necessários esforço concentrado e muita boa vontade para se chegar a um acerto a tempo da conferência no Rio.
- Parte importante deste compromisso é o quão objetivo será o documento a ser aprovado - diz. - Se esta semana a mais de negociação levar a um texto bastante objetivo para ser firmado no Rio, colocando um cronograma e aceitando que precisamos ter uma agenda para o desenvolvimento sustentável, isso passa a ser um atrativo para que o chefes de Estado estejam aqui para a discussão final. Por outro lado, se após esse período extra de negociações a gente ainda tiver um o texto muito fluido, com objetivos genéricos, isso vai ter um efeito contrário.
Embora veja com bons olhos a possibilidade de a Rio+20 também terminar com a assinatura de uma convenção global de proteção dos oceanos, Joly considera que isso seria "muito pouco" para ser apresentado como resultado prático. O professor da Unicamp, no entanto, ainda se diz otimista com as discussões da Rio+20. Ele lembra que no fim de abril, após mais de cinco anos de debates, as Nações Unidas finalmente aprovaram a criação de uma plataforma intergovernamental sobre biodiversidade e serviços ambientais. A IPBES (na sigla em inglês) vai funcionar nos mesmos moldes do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), que nos últimos anos tem guiado as negociações sobre o clima no âmbito das Nações Unidas:
- Ao contrário do que dizem alguns críticos, não estamos só reorganizando as mesas do salão do Titanic. Acho que ainda podemos mudar a rota deste navio. Certamente tivemos e teremos perdas e impactos da ação humana no planeta, mas não acho que o dano seja irreversível.
O Globo, 08/05/2012, Ciências, p. 30
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