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Náuas e Nukinis declaram "guerra" a brancos no PNSD

AG
Autor: LILIAN ORFANÓ,
19 de abr de 2002

Índios Nukinis e Náuas estão dispostos a morrer e a matar para impedir que qualquer homem branco tenha acesso aos 843.012 hectares da área do Parque Nacional da Serra do Divisor (PNSD), localizado na região do Vale do Juruá, até que o governo federal determine a demarcação de suas terras. A decisão dos índios foi tomada ontem e conta com o apoio do Movimento Indígena do Juruá (Moviju) que congrega os povos Náua, Katukina, Jaminawa do Igarapé Preto, Arara do Cruzeiro do Vale, Poyanawa, Nukini, Ashaninka dos rios Amônia e do Breu, Jaminawa Arara, Kaxinawá, Apolima e Marulo.
A disposição de ir para o confronto com os brancos partiu do sentimento de revolta com a declaração de uma funcionária da organização não governamental SOS Amazônia, Francisca Batista Náua. Durante o II Encontro de Cultura Indígena, o cacique Railson Carneiro Náua discursava sobre a urgência da demarcação das terras da sua nação, quando teria sido interrompido pela funcionária da SOS, que teria protestado e questionado a identidade dos Náuas recém-ressurgidos.
Os índios entenderam que Francisca Batista estaria defendendo os interesses da ONG em manter a região do PNSD como santuário ecológico e, portanto, desabitada. Tanto os Náuas quanto o coordenador do Moviju, o cacique Arara Francisco Dantas Varela, prometeram abrir processo de racismo contra a funcionária da SOS. A entidade desenvolve projetos de manejo, pesquisa e exploração de turismo ecológico para o parque, criado pelo decreto n.o 97.839 de 16 de junho de 1989.
A funcionária da SOS Amazônia não foi localizada para falar sobre o caso. Vários telefonemas foram dados para a sede da entidade na intenção de localizá-la na tarde de ontem.

Briga com SOS Amazônia é antiga

A aversão dos povos índios que habitam o Parque Nacional da Serra do Divisor (PNSD) e arredores à SOS Amazônia é antiga. Segundo o coordenador interino do Cimi, Lindomar Padilha, nem a ONG nem o Ibama aceitam a presença dos índios na área do parque. Depoimentos das lideranças indígenas da região confirmam a informação.
O cacique Railson Náua explicou como a sua nação sobreviveu por 96 anos sem contatar brancos após sofrer perseguições e matanças promovidas com a chegada dos soldados da borracha na região do Rio do Moa. O ressurgimento da nação Náua, segundo o cacique, teria sido garantido pela sobrevivência de três famílias da etnia que deixaram o Moa e se mantiveram nas proximidades do afluente Novo Recreio. Hoje eles são 250 integrantes.
Railson Náua afirma que o seu povo não quer nada além do que já era deles. E, parte desta terra pleiteada engloba uma área do PNSD.
"Hoje vivemos presos e estamos proibidos pelo Ibama e SOS Amazônia de plantar, criar nossos bichos e preservar a terra que sempre foi nossa e que agora é o Parque Nacional", ressaltou.
O cacique Paulo César Nukini se aliou aos Náuas. A etnia que já tem área demarcada pleiteia ampliação de território também no PNSD. Ele reconhece a sobrevivência do povo Náua e garante que alertou autoridades da existência de índios no parque antes do decreto de criação da reserva.
Os Nukinis querem alcançar a fronteira com o Peru, fechar o Rio Moa e evitar a ação de traficantes de droga e madeira na região. O cacique teme que o abandono da área acabe facilitando o aliciamento de seu povo aos interesses do narcotráfico na região. Os Nukinis são 458 índios.

Cimi tenta mediar crise

A decisão dos índios em declarar "guerra" no PNSD preocupa o coordenador interino do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Lindomar Dias Padilha. Ele reuniu lideranças de várias tribos ontem pela manhã, na sede do Cimi, para tentar proposta de mediação da situação.
Lindomar explicou que um dos problemas mais sérios é garantir o reconhecimento das identidades dos povos índios ressurgidos nas últimas décadas. No Acre, os Náuas e os Apolimas são considerados ressurgidos e iniciam luta para demarcação de suas terras.
Além deles, há informações da existência de outras três nações semi-arredias, instaladas em área de difícil acesso e que mantém interesse de não contatar a sociedade nacional.
Lindomar disse ainda que levantamentos dão conta da existência de duas tribos arredias no Parque Nacional da Serra do Divisor e outras três na região do Alto Jordão. A escolha pelo auto-isolamento garante aos povos índios a preservação cultural e funciona como um mecanismo de proteção. Os próprios Náuas usaram deste artifício para sobreviverem por mais de 90 anos à cultura branca. Isolados, portanto, os índios considerados arredios não têm o reconhecimento da Funai e nem do governo federal para a demarcação de seus territórios.

Índios Apolima denunciam ameaça

Longe da crise que se instala na região norte do Parque Nacional da Serra do Divisor está um outro grave problema enfrentado pelos povos índios. Expulsos da reserva dos Ashaninkas após a demarcação de terras, os Apolimas (Arara Amônia) correm risco de desaparecer após o recente ressurgimento da etnia.
Sem terra definida para reconstruírem aldeia, eles se dizem "espremidos" entre a reserva Ashaninka Amônia, projetos de assentamento do Incra e áreas periféricas das cidades da região. O cacique Francisco Siqueira Arara contou que os locais em que a tribo está habitando após a saída da reserva Ashaninka estão depredados pela ação de brancos.
"Tenho sido ameaçado por colonos que não querem os índios na região. Nós queremos terra, escola, saúde e o fim da retirada das madeiras e das caçadas promovidas pelos colonos", disse.

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