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"A natureza é a nossa vida"

Página 20 - http://pagina20.uol.com.br/
Autor: Leandro Chaves
22 de set de 2010

A redação do jornal Página 20 recebeu a visita de dois indígenas do povo Huni Kui, conhecido popularmente como Kaxinawá. Acompanhado de seu sobrinho Nixiwaka Huni Kui, Banê Huni Kui trouxe notícias das matas do município de Jordão, onde poucos se aventuram a chegar, e sobre suas viagens para fora do Estado. Morador da Terra Indígena Kaxinawá do Rio Jordão, Banê veio do Rio de Janeiro há poucos dias. Ele gravava cenas para a nova novela que estreia este mês na Rede Globo, Araguaia. Antes, o indígena visitou a França, onde foi convidado a participar de um encontro folclórico internacional. O Huni Kui aproveitou a ponte entre as duas viagens e sua aldeia Cachoeira para contar as novidades aos leitores deste diário. Além de suas andanças Acre afora, ele fala um pouco da realidade de sua terra, do turismo nas aldeias e dos diversos projetos em andamento para a melhoria na qualidade de vida do povo Kaxinawá.

entrevista_bane_03.jpgComo é o dia a dia na sua aldeia?
Desde o momento em que acordamos até a hora de dormir a nossa relação é com a natureza. Alimentação, lazer e espiritualidade, tudo que fazemos depende dela, por isso a natureza é a nossa vida. Às vezes a gente viaja às cidades, mas é apenas para garantir melhorias para a comunidade. Voltamos para a aldeia porque nosso lar é a floresta.

entrevista_bane_05.jpgQue tipo de melhorias vocês procuram longe da aldeia?

A formação de professores e agentes agroflorestais indígenas a gente faz fora da aldeia. Quem ajuda bastante nesse trabalho é a Comissão Pró-Índio do Acre (CPI/AC) e o governo do Estado. Também participamos de reuniões e avaliações de vários projetos que ajudam os povos indígenas do Acre. Mês passado eu estive na França, por exemplo.

entrevista_bane_02.jpgO que você foi fazer na França?

Participei de um festival de folclore mundial. Lá tinha pessoas de todo o planeta. Eu e meu irmão éramos os únicos do Acre que estávamos lá. Apresentei muitas coisas da nossa cultura tradicional, como as cantorias e danças. Achei tudo muito diferente, mas fomos bem recebidos por todo mundo.

entrevista_bane_04.jpgQue outros lugares você já conheceu?

Já fui à Holanda e à Inglaterra. Estive esse mês no Rio de Janeiro também. Vou participar da novela da Globo, Araguaia, que começa esse mês. Filmei algumas cenas com os atores famosos que aparecem na televisão e eles se interessaram muito pela cultura do povo Huni Kui aqui do Acre.

Que tipo de projeto é desenvolvido na sua terra?

Hoje nós temos o Plano de Gestão Territorial e Ambiental da nossa terra indígena. Ele ajuda a gente a achar os problemas e resolvê-los com o apoio da CPI e do governo. É também uma organização de como vamos cuidar do manejo, educação e cultura. A nossa associação ASKARJ ajuda a monitorar o projeto, que é fundamental para o povo.

Como está a organização cultural na sua aldeia?

Fazemos nossas atividades tradicionais como as cantorias, danças e pajelanças. Tudo está fortalecido e as mulheres, velhos e crianças também participam. Vamos gravar a nossa cultura em CD, DVD, filme e livro para mostrar ao mundo como vivemos e garantir que nosso costume não se acabe.

indios_1_rs.jpgExistem projetos que ajudam a fortalecer a cultura?

Tem sim. O Ministério da Cultura apoia o povo indígena do Acre. Em três aldeias da nossa terra temos os Pontos de Cultura, que fortalecem a nossa tradição e facilitam a comunicação e intercâmbio com outros povos. Esse é, atualmente, um dos projetos mais importantes para o povo Huni Kui do Jordão.

Há mais projetos em andamento?

Sim. Feito pelo meu pai, Siã Huni Kui. Ele participou do Prêmio de Culturas Indígenas do governo e foi escolhido. Esse projeto vai fortalecer nossa cultura e mostrar mais um pouco da nossa sabedoria para o Acre. Também temos um importante trabalho com o PDPI [Projeto Demonstrativos dos Povos Indígenas].

Vocês recebem visita de não índios?

Veio gente da França lá para a aldeia, eles vieram conhecer a nossa realidade. Gostamos muito dessas visitas e até organizamos eventos para chamar turistas. Teve o encontro de pajés e em breve vamos organizar o Bunawá - tempo de fartura da caiçuma - no nosso Centro de Memória. Convidamos gente da França, Bélgica, Rio de Janeiro e São Paulo.

O que é o Centro de Memória?

É um espaço construído no ano passado. Lá, realizamos várias atividades culturais e reuniões com lideranças e as diversas categorias que vivem na aldeia, como professores, agentes agroflorestais e agentes de saúde. Nosso centro tem chamado a atenção de pessoas de muitos lugares do mundo.

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