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Nascidos em Libra

O Globo, Economia Verde, p. 33
Autor: VIEIRA, Agostinho
24 de Out de 2013

Nascidos em Libra

Agostinho Vieira

"Procure ser mais paciente. Tente conciliar os seus interesses com os dos outros e tome cuidado com essa fama de indeciso. Você gosta muito de receber elogios, mas nem sempre isso é possível". Esse foi o horóscopo de segunda-feira para os nascidos sob o signo de Libra, entre 23 de setembro e 22 de outubro. Mas pode ser útil para os cinco sócios do consórcio vencedor do leilão de Libra, que aconteceu no dia 21.
Como não podia deixar de ser, o primeiro campo do pré-sal nasceu cercado de polêmica, mistérios e dúvidas. Algumas pertinentes, outras nem tanto. Libra não pode ser incluída no capítulo das perdas internacionais, como diria Leonel Brizola, não foi uma privatização e nem viramos colônia da China. Um negócio em que 60% das contas são pagas pelos sócios estrangeiros e 80% dos resultados ficam com o país não é exatamente ruim. Além disso, toda a exploração será feita pela Petrobras. Na verdade, o que houve foi uma operação financeira. O país queria começar logo a explorar esse petróleo e a Petrobras não tinha capacidade de investimento e nem de endividamento. Houve também uma manobra fiscal, que permitirá ao governo melhorar os resultados das contas públicas deste ano com os R$ 15 bilhões que receberá nos próximos 30 dias. E é aí que começa o problema.
Mais uma vez as decisões são tomadas de olho no curto prazo, no fechamento do mês, no índice que reverterá em mais votos amanhã. Se, conceitualmente, a ideia é usar o dinheiro do pré-sal para investir em educação e saúde, por que não fazer isso logo, já com o primeiro dinheiro que entrar? E é exatamente esse foco no hoje que faz o governo negligenciar alguns riscos futuros do projeto.
O primeiro deles é com relação à segurança. O decreto assinado terça-feira pela presidente Dilma Rousseff criando o Plano Nacional de Contingência (PNC) demorou 13 anos para sair do papel. Ele começou a ser discutido em 2000, ainda no governo Fernando Henrique, logo depois do acidente da Petrobras na Baía de Guanabara. O que está no decreto agora não difere muito do que foi debatido na época.
A criação de um sistema de monitoramento dos acidentes em tempo real (Sisnóleo), a responsabilidade compartilhada e as multas mais rigorosas já faziam parte do debate anterior. Faltava vontade política. Mas toda essa boa intenção ainda precisa virar realidade, sair do papel. E não vai custar barato. No Canadá, por exemplo, existem 70 postos bem aparelhados, montados em pontos estratégicos do país, prontos para atuar a qualquer momento em casos de acidentes.
Estamos falando de uma tecnologia nova de exploração, feita em águas muito profundas e longe da costa. Hoje, em condições normais, o Ibama já registra entre 20 e 30 vazamentos de óleo por ano no país. Quantos serão em condições adversas? Outra dúvida é com relação ao que o governo fará com todo o carbono emitido no processo de produção. O Greenpeace estima em cinco bilhões de toneladas de CO², equivalente à soma das emissões totais do Brasil durante quase quatro anos.
Esses números podem ser menores, dependendo da técnica utilizada. Se haverá ou não, por exemplo, captura e armazenamento deste carbono. Mas esse é outro mistério. O fato é que o Brasil assumiu um compromisso de reduzir as suas emissões de gases de efeito estufa em mais de 36% até 2020. Talvez consiga, mas tudo pode ser jogado fora assim que os dólares do pré-sal começarem a entrar no caixa.
E esse é, sem dúvida, o maior risco do projeto. Até agora, o discurso oficial garante que não vamos nos tornar dependentes do pré-sal. A maldição do petróleo não nos atingirá. Não cometeremos o erro que outros países já cometeram. Num mundo ideal, esse óleo será refinado e exportado. A nova riqueza será investida em educação e saúde. Vamos manter a nossa matriz energética cada vez mais limpa.
O problema é que a carne é fraca e os exemplos não são nada bons. Continuamos mantendo os preços da gasolina artificialmente baixos para controlar a inflação. Seguimos financiando os carros particulares e os engarrafamentos nas grandes cidades. Apesar de os dados do IBGE mostrarem que baixar o preço dos transportes de massa teria um efeito muito maior na inflação do que subsidiar os combustíveis fósseis. Difícil saber o que vai realmente acontecer. Estamos diante de uma enorme oportunidade e de uma grande ameaça. Quem acredita em horóscopo pode tentar fazer um mapa astral. Os demais vão precisar de muita paciência.

O Globo, 24/10/2013, Economia Verde, p. 33

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