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Nasce o país dos Raimundos

Época, Terra do Meio, p. 56-57
15 de nov de 2004

Nasce o país dos Raimundos
O governo federal criou a Reserva Extrativista do Riozinho do Anfrísio, no Pará

Eliane Brum

Senti uma coisa dentro de mim, um sentimento. Parecia que eu tava meio metro alto do chão", contou Raimundo Delmiro. Ele acabava de receber a notícia de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva havia assinado o decreto de criação da Reserva Extrativista Riozinho do Anfrísio, na região batizada de Terra do Meio, no Pará. Ao lado dele, Luiz Augusto Conrado Amaro, o Manchinha, gritava feito um louco. E Herculano Porto encolhia-se numa felicidade silenciosa. Lideranças de um povo ameaçado de extinção, os três estão jurados de morte pelos grileiros que derrubam a floresta. Nas últimas semanas, venceram uma saga que começou na mira das armas de jagunços e terminou nos gabinetes dos ministros Marina Silva, do Meio Ambiente, e Márcio Thomaz Bastos, da Justiça, em Brasília. Estavam indo para casa - o que significa uma operação que envolve de aviões a canoas - quando foram alcançados na noite da segunda-feira 8 pela notícia de que o governo reconhecia que sua terra merecia ser preservada. O decreto presidencial é o registro de nascimento de um território que há meio século vive à margem do Estado.
"Quando foi criada a Reserva Extrativista Chico Mendes, o nome era de um defunto", disse a ministra Marina Silva a ÉPOCA. "Felizmente criamos essa antes que acontecesse uma desgraça. O Estado e a sociedade brasileira têm uma dívida com a população extrativista, que presta um serviço lá no coração da Amazônia, protegendo a nossa biodiversidade, cuidando dos rios e da floresta. É uma questão de justiça e de estratégia. Eu vivi o que eles viveram, quando olhei pra eles, vi minha gente. Sabia o que eles estavam passando. Não é coisa de entender racionalmente, mas de entender com o coração." Além da Reserva Extrativista (Resex) do Riozinho do Anfrísio, foi criada a Resex Verde para Sempre, no município de Porto de Moz, também no Pará, resultado de uma luta intensa dos movimentos sociais da região.
A comunidade do Riozinho do Anfrísio surgiu com os soldados da borracha levados do Nordeste para a Amazônia na Segunda Guerra Mundial pelo governo de Getúlio Vargas. Quando o preço do látex caiu, eles foram abandonados na floresta. Muitos não suportaram a brutalidade da selva e morreram. Os quase 200 habitantes de hoje são filhos e netos dos que sobreviveram - os casamentos acontecem entre parentes. Anfrísio é o nome do seringalista que explorava a região. No riozinho desse Anfrísio que já se foi eles vivem da caça, da pesca, da extração da castanha, da seringa, do óleo de andiroba e copaíba. Muitos nem sequer conhecem dinheiro. Só conseguem trocar produtos quando um barco chamado "regatão" aparece por lá para o escambo. O nome mais popular é Raimundo e Raimunda porque os partos são entregues à proteção de São Raimundo Nonato.
A criação da reserva representa o pagamento da primeira parcela de uma dívida histórica. Mas é só o começo. O país dos Raimundos é formado por uma população de analfabetos, sem registro civil, que nunca votou na vida e que só não foi dizimada pela malária porque a produção de filhos é abundante. Não há família que não tenha perdido no mínimo duas ou três crianças para a doença. A reserva só vai existir de fato quando o Estado fizer a inclusão social dos Raimundos.
Antes, o governo precisa manter a lei numa terra de faroeste. As comemorações foram obscurecidas pelas ameaças que logo começaram a chegar à cidade de Altamira, onde os lideres esperavam por transporte. De todos os lados, aparecia alguém para avisá-los de que, se os grileiros perdes sem a terra, Raimundo, Herculano e Manchinha virariam defuntos. "A gente nem está circulando por aí por causa dos avisos", lamentou Herculano.
Na floresta, o governo instalou um posto avançado do Exército para enfrentar a situação de conflito. Hoje, há oito soldados, seis técnicos do Ibama, cinco homens da Polícia Militar Ambiental do Pará e dois helicópteros no local. "Neste momento, é importante a presença do Estado brasileiro na reserva para refrear a violência da grilagem", diz Flávio Montiel, diretor de Proteção Ambiental do Ibama. O cenário de guerra é o cotidiano da Amazônia brasileira, longe demais do centro do país.
ÉPOCA contou o drama do Povo do Meio na edição 333, no início de outubro. Alguns moradores, como Raimundo Nonato da Silva, nem sabiam quem era o presidente do Brasil. A assinatura de Lula na certidão de nascimento da reserva anuncia que pelo menos o país já descobriu Raimundo.

Radiografia do novo território
Área: 736.340 hectares
Densidade populacional: 1,5 hab/km População: cerca de 200 pessoas
Origem: descendentes de soldados da borracha vindos dos Estados nordestinos
Modo de vida: caça, pesca, castanha, seringa, óleo de copaíba e andiroba, roça
Situação social: 99% são analfabetos e não têm certidão de nascimento
Principal causa de mortalidade: malária
Curiosidade: a maioria se chama Raimundo ou Raimunda

Época, 15/11/2004, Terra do Meio, p. 56-57

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