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Nas ondas da rádio indígena

CB, Brasil, p. 18
08 de Ago de 2004

Nas ondas da rádio indígena
Parceira do Ministério da Educação com a USP leva equipamentos às aldeias para que as tribos tenham um novo veículo de comunicação

Hércules Barros
Da equipe do Correio

Só em desenho animado índio usa fumaça para se comunicar. Ao contrário do que muita gente pensa, a comunidade indígena brasileira cada vez mais se apropria das tecnologias em benefício da própria cultura. Assim acontece com os estudantes da reserva indígena de Amambai no estado do Mato Grosso do Sul (MS). Eles fazem produção de informes locais como parte do projeto Educom Rádio, dentro do programa Rádio-escola, uma parceria do Ministério da Educação (MEC) com a Universidade de São Paulo (USP). No projeto os estudantes usam a técnica e a linguagem radiofônica e criam informativos voltados para a cultura Guarani e Kaiowa.
"São 20 escolas no Mato Grosso do Sul, 20 no Mato Grosso e 30 em Goiás. Cada escola tem pelo menos 15 alunos, dois professores e dois moradores das comunidades envolvidos", estima o coordenador do Núcleo de Comunicação e Educação da Escola (NCE) da USP, Ismar de Oliveira Soares.
Pesquisadores do NCE capacitam professores e alunos por meio de oficinas nas escolas das comunidades indígenas. Em seguida, as escolas recebem equipamentos do MEC para dar continuidade ao projeto. "E um incentivo à cultura local", afirma Mário Villalva Filho, integrante do Educom Rádio. Em julho deste ano, Mário visitou a escola Mbo'eroy Guarani Kaiowa, na reserva indígena de Amambai (MS) para troca de experiência.
Mário falou sobre responsabilidade informativa do jornalista, deu aula sobre técnicas radiofônicas, jornal mural, entrevistas e comerciais de rádio. "O trabalho resultou em uma rádio-novela sobre o mal do alcoolismo em português e guarani", conta.
A experiência das populações indigenistas brasileiras com a comunicação vai mais longe. O representante do Conselho Indigenista Missionário do Mato Grosso do Sul (CIMI), Jorge Vieira, diz conhecer pelo menos 39 aldeias de índios terena com rádio comunitária própria. Segundo Vieira, a idéia comum de aldeia com ocas formando círculo desmatado rodeado de floresta é limitada. "Os terenas, por exemplo, espalham-se na reserva. 0 rádio é uma forma de eles comunicarem-se".
A comunicação radiofônica entre os índios não é só estimulada pela habilidade, como mostra o coordenador executivo do Centro de Trabalho Indigenista, Gilberto Azanha. "Muitas rádios funcionam com equipamentos doados por religiosos. Ainda bem que a maioria dos índios não tem fronteiras ideológicas como os ocidentais. Eles acabam misturando informação, música, ensino e religião sem preconceito", observa.
Em Miranda (MS), os índios mostram seu poder de comunicação. A rádio FM Terena abrange todo o município ao atender oito aldeias. A programação é variada. São veiculados programas evangélicos, música sertaneja, anúncios, recados e até cultos católicos.

Os Terenas, por exemplo espalham-se na reserva. O rádio é uma forma de eles
Comunicarem-se
Jorge Vieira, representante do Conselho Indigenista Missionário do Mato Grosso do Sul (CIMI)

Entrevista
Mário Villalva Filho
Valorização do ser humano
Em contato com os estudantes da reserva indígena de Amambai (MS), Mário Villalva Filho, pesquisador do projeto Educom Rádio, resgatou a própria história de vida. Mário tem descendência indígena. Natural de Corumbá (MS), foi criado em Assunção, onde o guarani é língua materna ensinada na escola e faculdade, além do espanhol. Fez Comunicação em Rádio e TV na Escuela Municipal de Locución Radial y Televisiva e voltou ao Brasil em 1988. Em entrevista ao Correio, ele contou com funciona o trabalho.
Correio Braziliense - Há preservação da identidade e da cultura neste tipo de atividade?
MárioVillalva Filho - O principal é que eles se valorizem como seres humanos e exerçam a cidadania e, assim, ajudem toda a aldeia. É a apropriação das novas tecnologias em benefício próprio.
Correio - Fazer programa de rádio contribui para os índios desenvolverem e valorizarem a língua guarani?
Villalva - Mesmo com o curto tempo que passei na aldeia - dois dias - vi essa realidade. O primeiro programa eles fizeram em português, o segundo já com jopará- mistura de português e guarani no diálogo - e o último documentário, em vídeo, foi totalmente em guarani.
Correio - Existe algum aluno que tenha demonstrado vocação para o jornalismo na experiência com rádio?
Villalva - Há sempre aqueles que se destacam. Alguns deles querem ser jornalistas e têm habilidade para tal.
Correio - Que tipo de programa de rádio os alunos fazem na reserva indígena de Amambai (MS)?
Villalva - Já fizeram vários tipos de gêneros radiofônicos; jornalísticos, musical, publicitários e até radiodrama. Entrevistaram moradores da aldeia e funcionários de um posto de saúde sem problemas.
Correio - Houve muita interferência do professor ou eles pegaram as técnicas de comunicação rápido?
Villalva - Em todas as práticas, nas três escolas que mediei o trabalho, fiz questão que eles operassem o equipamento sozinhos. Em relação à escola da aldeia Guarani Kaiowa não cheguei filmando o que via. Para gravar as imagens externas da escola, coloquei a câmera fotográfica e a filmadora na mão deles. Registraram o que queriam mostrar.
Glossário
Bom dia, como vai você? (Mbaéichapa)
Eu me chamo...(Che rera hae mário)
Como você se chama? (Mbaéichapa nde rera?)
Vamos caçar? (Jaha ja rymba api)
Você quer conhecer a floresta? (Eikaasepa ká aguy)
O que você faz? (Mbaepa ejapo?)
Por favor, preciso de ajuda (Aipota che pytyvõ)
Vamos brincar (Ñañombojaru)
Obrigado (Aguije)
Por favor (lkatúpiko)
Cidadania (Tavareko)
Respeito (Japo mbaerámo-jepoyhu)
Paz (Akaguapy)
Educação (Mbo'e)
Estudante (Ñemboeukava)
Professor (Mboeehára)
Escola (Mbo'ehao-Mboeroy)
Rádio indígena (Ava ñee mbyry)
Comunicação (Parehára)
Seguido a regra da gramática guarani, as palavras sem acento são todas oxitonas.

CB, 08/08/2004, p. 18

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