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Nas metrópoles, desigualdade mora ao lado

O Globo, Economia, p. 26-27
26 de Nov de 2014

Nas metrópoles, desigualdade mora ao lado
Icaraí lidera IDH da Região Metropolitana do Rio, à frente de Leblon e Ipanema. Japeri tem pior resultado
"As desigualdades se reproduzem em todos os níveis, de espaço, de educação, de saneamento" Flavio Comim

DEMÉTRIO WEBER, LUCIANNE CARNEIRO, GISELLE OUCHANA E CELIA COSTA economia@ oglobo.com. br Colaboraram Geralda Doca, Isabela Bastos e Marcello Corrêa

-BRASÍLIA E RIO- A desigualdade no Brasil não aparece apenas entre os municípios ou entre os diferentes estados, mas também em áreas muito próximas dentro de uma mesma região metropolitana, aponta levantamento com base no Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM), divulgado ontem pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) e pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). O cálculo é feito a partir de três indicadores: educação, longevidade e renda. No Rio de Janeiro, a região da Praia de Icaraí tem o maior IDH ( 0,962), acima de bairros tradicionais da capital, como Leblon (0,944) e Ipanema (0,937). O IDH varia entre zero e um: quanto mais perto de um, melhor é a condição de vida.
O pior IDH no Rio está no município de Japeri, na Baixada Fluminense, a menos de 90 quilômetros de Icaraí, com várias localidades com o índice mais baixo da região (0,591), como Colinas, Santo Antônio, Santa Amélia e o Complexo Penitenciário de Japeri.
O estudo mostra que houve queda na desigualdade entre 16 das principais regiões metropolitanas do Brasil no período de 2000 a 2010, assim como na distância que separa bairros ricos e pobres nessas áreas. Ainda assim, a Região Metropolitana do Recife é a que tem a maior diferença entre as áreas com pior e melhor condições de vida. O bairro nobre de Espinheiro ostenta 0,955, enquanto na área rural de Ipojuca/Nossa Senhora do Ó e Camela o IDH é de 0,523. A lista é seguida por Manaus, Natal e Curitiba. O Rio de Janeiro, por sua vez, ocupa a nona posição no ranking da desigualdade dentro das metrópoles. Essa diferença é menor nas regiões metropolitanas de Cuiabá, em Mato Grosso.
- As desigualdades se reproduzem em todos os níveis, de espaço, de educação, de saneamento, de infraestrutura. E isso tem a ver também com o fato de que o gasto público é maior nas regiões com mais riqueza, isso reforça a concentração - afirma Flavio Comim, da UFRGS e da Universidade de Cambridge.
Em2010, em uma mesma região metropolitana, a renda per capita podia variar até 47 vezes de um bairro ou município para outro, como em Manaus. E a expectativa de vida, 14 anos, como em Recife e Manaus. Já o percentual da população de 18 anos ou mais com ensino fundamental completo oscilava entre 21% e 95% (Curitiba).
SÃO PAULO É LÍDER
Na comparação entre 2000 e 2010, São Paulo continuou sendo a região de mais alto IDHM (0,794 na escala até 1), mas o intervalo que a separava de Manaus (0,720), a última colocada, diminuiu quase pela metade. E a metrópole paulista tem as cinco localidades com maior IDH do Brasil. Todas as 16 regiões metropolitanas avaliadas atingiram o patamar de alto desenvolvimento humano, antes restrito à capital paulista e municípios vizinhos.
O estudo reúne indicadores de 9.825 Unidades de Desenvolvimento Humano (UDHs), áreas que podem corresponder a um bairro ou simplesmente a um limitado número de ruas, bem como a um município inteiro, no caso das cidades pequenas.
Para o ministro-chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, Marcelo Neri, o levantamento mostra avanços, como a redução das desigualdades não só entre as 16 regiões metropolitanas analisadas, mas também dentro delas, entre os municípios e bairros que as compõem.
- O atlas mostra que há grandes disparidades, mas essa disparidades, mas essas disparidades têm caído ao longo do tempo. O Brasil teve uma transformação profunda - disse Neri.
Na Região Metropolitana do Rio, Icaraí já ocupava o primeiro lugar da lista de melhores IDHs do Rio em 2000. Para a professora de Economia Brasileira da Universidade Federal Fluminense (UFF) Hildete Pereira, isso se deve ao fato de o bairro concentrar um grande número de pessoas de classe média à alta, ter um índice de escolaridade alta e, como consequência, renda mais elevada.
- Diferentemente de bairros de classe alta do Rio, Icaraí não tem favelas na vizinhança. Já no caso de Japeri, a situação é homogênea. Assim, algumas localidades aparecem no extremo da lista - explicou Hildete.
Na região do Complexo Penitenciário de Japeri, a falta de saneamento básico é a principal reclamação da população, seguida da falta de pavimentação. O bairro concentra diversos esgotos a céu aberto e os moradores sofrem ainda mais em dias de chuva. Na última semana, dez cobras de cerca de 50 centímetros foram encontradas no quintal de Maria das Graças Souza, de 41 anos.
- Nós convivemos com doença de pele sempre. Feridas que vão aumentando se a gente não tiver cuidado - afirma a dona de casa, que tem seis filhos.
O governador Luiz Fernando Pezão afirmou ontem que o governo já vem atuando para levar desenvolvimento para Japeri: o município conta com os mesmos incentivos fiscais de Queimados, com amplo distrito industrial, e está em estudo a promoção de incentivos fiscais, associados à abertura do Arco Metropolitano.

Rio cai do 3o para 6o lugar no ranking nacional
Região metropolitana atinge nível de alto desenvolvimento, mas BH, Vitória e Brasília têm avanço maior

DEMÉTRIO WEBER
demetrio@ bsb.oglobo.com. br

-BRASÍLIA- A região metropolitana do Rio de Janeiro perdeu três posições e caiu da terceira para a sexta colocação, entre 2000 e 2010, no ranking das 16 regiões analisadas pelo novo Atlas do Desenvolvimento Humano nas Regiões Metropolitanas Brasileiras. Em 2000, o Grande Rio só ficava atrás das regiões metropolitanas de São Paulo, que estava em primeiro lugar, e de Curitiba, em segundo. Naquele ano, o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) do Grande Rio era 0,686, na escala até 1, classificado como de médio. Até então, apenas São Paulo, com IDHM 0,714, tinha ultrapassado 0,700, que corresponde a alto nível de desenvolvimento humano.
Dez anos depois, o índice do Grande Rio subiu ao patamar de alto desenvolvimento humano, chegando a 0,771. O crescimento não foi suficiente, no entanto, para a Região Metropolitana do Rio manter a terceira posição, já que outras três regiões deram um salto ainda maior: Brasília e entorno, Belo Horizonte e Vitória.
Consideradas as três dimensões avaliadas no IDHM - educação, renda e longevidade - o Grande Rio piorou em duas e só melhorou em longevidade, passando da oitava para a sétima posição. Na renda, apesar de ter perdido uma colocação - da quarta para a quinta - alcançou seu melhor resultado em 2010.
RENDA ACIMA DE R$ 8 MIL
Praia de Ipanema, Lagoa e Praia de São Conrado são as áreas com maior renda per capita: R$ 8.603,78 ao mês, em valores de 2010. Na ponta de baixo, com renda de R$ 331,47, estão quatro áreas de Japeri: Colinas, Santo Antônio, Arco MetropolitanoSanta Amélia, Engenheiro Pedreira-Jardim São Sebastião-Jardim Aljezur-Santa Sofia. A renda média nos bairros mais ricos era quase 26 vezes maior que nos mais pobres.
O governador do Rio, Luiz Fernando Pezão, disse que é preciso avaliá-los melhor, mas destacou os avanços:
- Não estou de posse (dos dados), mas sei que estamos tendo avanços significativos. A Região Metropolitana do Rio hoje é a que tem a maior renda per capita do país e é a que tem a melhor taxa de empregabilidade.

São Luís tem melhor desempenho em educação

Demétrio Weber e Lucianne Carneiro

Metrópole do Maranhão supera as outras 15 incluídas
na pesquisa
-BRASÍLIA E RIO - A região de São Luís, no Maranhão, tem o maior Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) de Educação: 0,737. O estado, no entanto, está longe de apresentar os melhores indicadores de ensino do país. A capital maranhense tem o mais baixo índice de longevidade (0,809) e aparece em 10o lugar no ranking geral, liderado por São Paulo.
O ministro-chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, Marcelo Neri, admitiu surpresa com a posição de São Luís. Segundo ele, o motivo é que a capital responde pela maior parcela da população analisada, enquanto outras regiões metropolitanas reúnem um número maior de municípios. O ministro também lembrou que os índices educacionais, nesses municípios periféricos, costumam ser piores e destacou que o Maranhão é um dos estados mais rurais do Brasil. Ele disse que os pesquisadores tiveram o zelo de rechecar os dados antes de publicá-los.
- A gente também estranhou o dado, ficou surpreso. A gente está acostumado a achar que o Maranhão é pobre, mas é um dos estados mais rurais do Brasil - disse Neri.
Para Para Alexandre Rands Barros, economista e autor do livro "Desigualdades Regionais no Brasil", o desempenho de São Luís pode ter sido influenciado pela metodologia da pesquisa.
- A liderança de São Luís em educação pode ter a ver com o fato de o índice só considerar o ensino fundamental, que é praticamente universalizado no Brasil. A cidade pode ter tido uma política específica para o ensino fundamental, por exemplo. Se fosse incluir ensino médio e superior, certamente São Luís não estaria em primeiro, é uma das regiões mais pobres do Nordeste - afirmou Barros.
No IDHM Longevidade, o maior índice ficou com o Distrito Federal e entorno, com 0,857. O DF lidera também na renda, com 0,826.

O Globo, 26/11/2014, Economia, p. 26-27

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