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Não será assim tão ruim: menos gente, menos CO2

OESP, Vida, p. A18
Autor: WORSTALL, Tim
01 de Out de 2007

Não será assim tão ruim: menos gente, menos CO2

Tim Worstall

Muita tinta e muitos elétrons foram gastos tentando explicar o que deveríamos ou não tentar fazer para reduzir as emissões de CO2 nos Estados Unidos. Um trabalho fascinante acaba de ser publicado oferecendo a resposta possivelmente mais simples de todas: esperem a geração baby boom (os nascidos logo após a 2.ª Guerra Mundial) envelhecer.

Considerando que, depois de uma certa idade, a virilidade agora vem de comprimidos azuis e não de acelerar carros potentes, que os jogos de tabuleiro consomem bem menos gasolina que o esqui aquático, e que o impacto ambiental geral de uma geração cambaleando para a morte é bem menor que o do mesmo grupo na força da juventude, os autores, liderados por Michael Dalton, parecem achar que (junto com algumas outras suposições) a simples passagem do tempo reduzirá as emissões de CO2 em até 40% nos Estados Unidos.

Agora, um simples estudo não basta, é claro, para ficarmos simplesmente aliviados e declararmos a questão encerrada, mas este é, assim espero, o começo de um novo estágio da pesquisa no campo da mudança climática em geral.

Só para reafirmar (antes que venham os patrulheiros de costume), eu sou bastante "lomborguiano" em minha visão da mudança climática. Ela está acontecendo, ela tem a ver ao menos em parte conosco, e as questões importantes têm a ver com o que fazemos sobre isso. Em comum com Bjorn Lomborg (autor do livro O Ambientalista Cético), minhas preocupações sobre a ciência da questão não têm nada a ver com modelos de computador, medições por satélite ou algo do gênero. Elas dizem respeito aos modelos econômicos (no Relatório Especial sobre Cenários de Emissões, ou SRES na sigla em inglês) que fornecem os dados que são em seguida introduzidos nesses modelos.

Uma área que sempre me intrigou profundamente nesses modelos do SRES é que a população foi tratada como apenas um dado a mais. É intrigante porque as interações de tamanho da população e riqueza econômica dessa população são as coisas que de fato determinam o nível das emissões.

Tudo bem, perdão, vou parar de falar difícil por enquanto. A razão da importância disso é que nós pensamos saber algumas coisas sobre o que provoca mudanças no tamanho da população. No cerne disso está a riqueza (na sua definição ampla e não em termos puramente monetários). Como o aumento da riqueza causa melhorias nas condições sanitárias e médicas, como aconteceu no século passado, ocorre uma enorme queda da taxa de mortalidade, mais especialmente entre as crianças e as mulheres que as geram. Isso conduz a um aumento da população que, juntamente com o aumento da longevidade geral nos proporciona a mudança demográfica. O fator que achamos que modera isso com o tempo (e porque não acabamos acelerando sem parar o crescimento populacional) é que a própria riqueza que permite que isso aconteça muda o comportamento das pessoas.

Se, como a teoria darwinista diria (se preferir, o "crescei e multiplicai-vos" do Gênese está sujeito às mesmas restrições), o propósito da vida é ter netos que farão a mesma coisa por sua vez. Quando a maioria das crianças morria antes de atingir a maturidade, era melhor gerar uma porção delas para assegurar a linhagem. Se quase todos sobrevivem para se reproduzir, como acontece agora (mais precisamente, sobrevivem para serem capazes de procriar, se assim o quiserem) então você precisará ter bem menos filhos; os riscos envolvidos em ter apenas alguns filhos caiu. Mais ainda, nossa nova riqueza oferece (para as mulheres especialmente) muito mais opções do que a simples procriação da próxima geração. Os riscos envolvidos em ter muitos filhos aumentaram pois uma família grande inevitavelmente elimina algumas dessas oportunidades.

Aqui vale a pena notar que não foi apenas a invenção dos métodos modernos de contracepção que levou a famílias de tamanho reduzido. Os contraceptivos eram conhecidos muito antes da pílula (eficaz, apesar de inconveniente). O que dados de pesquisas mostraram é que foi o tamanho de família desejado que diminuiu. Foram as atitudes que mudaram, e a nova tecnologia ajudou as pessoas a atingirem os objetivos desejados, mas não foram as pílulas anticoncepcionais e ungüentos que mudaram esse tamanho de família desejado.

Então, se temos, como pensamos ter, uma relação direta entre a riqueza de uma sociedade e o crescimento ou encolhimento da população, se estivéssemos tentando descobrir como o mundo seria daqui a um século, nós certamente gostaríamos que nossos modelos incluíssem essa relação, não é? O que, como já se observou aqui, os modelos de SRES não fazem.

É por isso que recebi com prazer esse estudo de Economia da Energia. Ele não se liga diretamente ao impacto da riqueza sobre a população, mas ao impacto de uma população em envelhecimento sobre a demanda de energia. A inclusão da demografia em nossos modelos no futuro é algo absolutamente desejável. Como afirma o resumo do trabalho: "Mudanças na composição etária das famílias americanas nas próximas décadas poderiam afetar o uso de energia e as emissões de dióxido de carbono (CO2), o gás mais importante do efeito estufa. Este artigo incorpora a estrutura etária da população num modelo de crescimento de economia da energia com múltiplas dinastias de famílias heterogêneas. O modelo é usado para estimar e comparar efeitos do envelhecimento populacional e a mudança técnica em rumos básicos do uso de energia e emissões de CO2 nos EUA.

Os resultados mostram que o envelhecimento da população reduz as emissões no longo prazo em quase 40% num cenário de população baixa, e os efeitos do envelhecimento nas emissões podem ser grandes, ou até maiores que os efeitos da mudança técnica em alguns casos."

As pessoas habituadas a ler materiais na internet e nos jornais verão repetidos protestos de que o debate sobre a mudança climática já terminou, que a ciência está estabelecida. Eu temo que isso não seja absolutamente verdadeiro: concordo que os modelos climáticos estão melhorando, que anomalias anteriormente observadas estão sendo resolvidas, mas não que a ciência esteja pronta e acabada.

Acredito mais que nós agora precisamos de mais ciência como a desse trabalho para refinar os números que introduzimos nesses modelos de computador.

Tim Worstall é colaborador do TCS Daily

OESP, 01/10/2007, Vida, p. A18

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