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Não é bem assim

Veja, Brasil, p. 48-49
23 de jan de 2019

Não é bem assim
O Datafolha mostra que o eleitor de Jair Bolsonaro não o acompanha na maioria de suas propostas fundamentais, incluindo meio ambiente e privatizações

Por Edoardo Ghirotto
access_time18 jan 2019, 07h00

Jair Bolsonaro sagrou-se nas urnas defendendo um programa genérico que costuma ser resumido na fórmula "conservador nos costumes e liberal na economia". Incluem-se aí o combate a uma suposta doutrinação ideológica nas escolas e a privatização de estatais. A maioria dos 57,7 milhões de brasileiros que votaram no presidente, porém, não o acompanha em muitas de suas posições. Uma pesquisa do Datafolha sobre treze temas fundamentais revela que em apenas cinco deles o eleitor abraça a posição do eleito: a proibição do aborto, a necessidade de controlar a imigração, o fim da educação sexual nas escolas, a disposição em alistar-se para defender o Brasil em uma hipotética guerra e a não interferência do governo quando há situações de desigualdade salarial entre homens e mulheres em empresas privadas. Em outros temas (veja alguns exemplos no quadro na pág. ao lado), há discordância. O eleitor do novo governo não acredita, por exemplo, que a política ambiental atrasa o desenvolvimento do país e não quer a redução de reservas indígenas. A pesquisa do Datafolha foi realizada com uma amostra de 2 077 eleitores, entre 18 e 19 de dezembro.
"O eleitor não precisa concordar com todas as propostas de governo de um candidato, mas valoriza tanto determinada característica que acaba optando por ele", explica o diretor do Datafolha, Mauro Paulino. De acordo com o cientista político Hilton Cesário Fernandes, da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), o antipetismo foi essa característica determinante. "É comum o voto ser contra algum candidato ou algum partido. Já aconteceu em outras eleições", diz. Nessa hipótese, o voto representa não tanto uma afirmação, mas uma negação: o eleitor teria encontrado em Bolsonaro o nome que com mais firmeza rejeitava o descontrole econômico e a corrupção do governo petista.
A ênfase de Bolsonaro no combate à criminalidade também terá tido seu peso, mas não se segue daí que o eleitor aprove integralmente a receita do presidente para a segurança. "Não tivemos uma discussão de agenda na campanha. E a adesão a certos temas acabou ficando mais restrita ao núcleo duro de eleitores do Bolsonaro", diz o economista Maurício Moura, da consultoria Ideia Big Data. O Datafolha mapeou o que seria o "núcleo duro" de apoiadores: aqueles que concordam com o presidente em pelo menos nove dos treze temas. A conclusão: o grupo representa só 14% do total de eleitores. É um estrato constituído sobretudo de homens - eles compõem 68% dos bolsonaristas "duros".
Os evangélicos, uma das principais frentes do eleitorado bolsonarista, não estão majoritariamente no núcleo duro. Na média, também concordam com apenas cinco temas: proibição do aborto, fim da educação sexual na escola, controle de imigração, disposição em defender o Brasil e concessão de ajuda do governo às mulheres que engravidam por motivos que permitem o aborto legal, como o estupro, e não desejam realizá-lo. O auxílio é uma das bandeiras defendidas pela ministra dos Direitos Humanos, Damares Alves. A pesquisa também incluiu uma pergunta mais ampla sobre o aborto. Foi a única, aliás, que comportou mais opções de resposta - os demais itens se dividiam em "concordo" e "discordo" -, dando conta de várias possibilidades de legislação sobre o tema. Nesse ponto, os eleitores do novo governo não só concordaram com sua pauta básica, mas se mostraram até mais conservadores. Quando candidato, Bolsonaro afirmou que não pretendia mudar a lei vigente, que permite o aborto em casos de estupro, anencefalia e gestação em que a mãe corre risco. Pois 43% de seu eleitorado é a favor da proibição total. Os que concordam com a lei atual são 38%.
O Datafolha mostra que eleitores de Bolsonaro e de seu adversário petista, Fernando Haddad, têm avaliações semelhantes, ainda que em gradações diferentes, em relação a onze dos treze temas. Só há dois pontos de discordância: quanto à educação sexual nas escolas (68% dos eleitores de Haddad são favoráveis; 54% dos eleitores de Bolsonaro são contra) e à convicção de que a desigualdade salarial entre os sexos é um problema só das empresas - ideia que recebe a chancela de apenas 35% dos eleitores de Haddad, ante 56% dos de Bolsonaro.
Um dos principais pontos de convergência é sobre a necessidade de tratar de matéria política na escola: 71% dos que votaram no candidato do PSL concordam com a afirmação, e 76% do eleitorado do PT também responde favoravelmente. Embora o Datafolha não tenha apurado que tipo de conteúdo político os eleitores aprovariam em sala de aula, há aqui um indício de rejeição à pauta, encampada por Bolsonaro, do movimento Escola sem Partido - que deseja extirpar a política da educação, para banir a "doutrinação". A pesquisa sugere, portanto, que a origem da polarização a que o Brasil assistiu nas últimas eleições não está na divergência de ideias, mas na aversão aos indivíduos ou partidos que as defendem.

Veja, 23/01/2019, Brasil, p. 48-49

https://veja.abril.com.br/politica/nao-e-bem-assim/

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