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Na Paraty multicultural, comunidades indígenas, caiçaras e quilombolas lutam para manter suas identidades

Globo https://oglobo.globo.com
Autor: Rafael Galdo
14 de jul de 2019

Sob o céu alaranjado de Paraty no fim da tarde de quarta-feira passada, barquinhos coloridos atracam na Praia de Paraty-Mirim, onde caiçaras embarcam rumo a vilas isoladas em ilhas e enseadas. Não muito distante, por uma estrada sinuosa na Mata Atlântica, índios guaranis retornam à aldeia, após um dia de vendas de artesanato no Centro Histórico. Enquanto no Quilombo do Campinho da Independência, às margens da Rio-Santos, são concluídos os preparativos para a primeira edição da Flip Preta, evento paralelo à Festa Literária Internacional (Flip), que já movimentava as ruas com calçamento de pé de moleque na cidade.

Essas cenas cotidianas reafirmam um dos fundamentos que levaram Paraty e Ilha Grande a serem reconhecidas pela Unesco, há duas semanas, como Patrimônio Cultural e Natural Mundial: a diversidade dos povos tradicionais. Com diferentes costumes, crenças e feições, as comunidades têm em comum uma busca diária pela convivência sustentável com a natureza e consideram sagrados seus recantos de terra e mar.

- Somos todos amigos, indígenas, caiçaras e quilombolas, e precisamos nos abraçar - prega o cacique Miguel Karai Tataxi Benite, da aldeia Guarani-Mbya de Paraty-Mirim, uma das três que resistem em Paraty (uma delas também é guarani, e a terceira, pataxó).

Cultura à mesa
Cercado de crianças que se comunicam basicamente na língua nativa da tribo, ele conta ter 119 anos. Está sendo feito um levantamento para saber se ele é um dos homens mais velhos do mundo. Seus parentes atribuem a longevidade a sua alimentação. Até hoje, Miguel não é adepto de comer o arroz e feijão que se traz do supermercado. Mas se farta de mandioca, milho e batata-doce das lavouras da aldeia.

À mesa, por sinal, são postas muitas das tradições de Paraty. No restaurante do Quilombo do Campinho, tem suco de juçara (fruta parecida com o açaí), moqueca, peixe ao molho de pupunha e pratos com as folhas verde-escuras da taioba. Para a culinária caiçara, é essencial o peixe com banana-prata ou da terra, acompanhado de pirão.

Hoje, no entanto, os ingredientes das transformações atingem as comunidades nativas. No Cruzeiro, maior vila caiçara do Saco do Mamanguá - considerado o único fiorde brasileiro, com oito quilômetros de extensão -, os anciões se lembram de quando, além da pesca, a roça nas encostas à beira-mar ajudava a definir a cultura local.

Muitos caiçaras ainda enfrentam as marés à procura de camarão, lula ou peixe. Outros migraram para o turismo: são barqueiros ou trabalham em pousadas e restaurantes. Mas são raros os que se dedicam a plantar para subsistência. E a farinha do pirão, que antes era a original da terra, agora se compra no mercado.

- Plantava-se de tudo aqui. A gente ia a Paraty a remo. Levava um dia para chegar. E só trazíamos três coisas da cidade: roupa, sal para conservar as carnes e querosene, porque não tínhamos energia elétrica - conta Orlando Conceição, de 71 anos, 50 deles como marujo.

São igualmente poucos os que ainda esculpem, artesanalmente, o remo caiçara, um legado indígena, com sua pá que se assemelha a uma lança. A herança, contudo, sobrevive pelas mãos de artistas como Benedito Rita, de 75 anos. Ele até tem plainas elétricas para entalhar a madeira. Mas prefere as ferramentas antigas.

- Uso um cepilho mais velho que eu - brinca o Seu Preá, como ele é conhecido.

Festejos e reivindicações
O trabalho artesanal também é o que torna famosa a quilombola Sueli Martins Mariano, de 50 anos. As galinhas que ela confecciona em palha de taboa - retirada dos brejos perto de sua casa - são disputadas por turistas no Centro Histórico. E sua trajetória virou até mini documentário, exibido este fim de semana na Flip.- Esse trançado é tradicional no quilombo, e, a galinha, eu inventei logo que o aprendi - conta Sueli.

Essas tradições são celebradas em festas com danças como o jongo e o forró. Nas comunidades caiçaras, no mês de maio tem Fest Juá, evento com atividades esportivas, educativas e culturais. E o elo entre os povos nativos pode ser reforçado ainda em simples partidas de futebol masculino e feminino, entre caiçaras e índios, num campinho de Paraty-Mirim.

Nem tudo, porém, é mansidão. Para os caiçaras, o analfabetismo continua parte do presente. Já os indígenas reivindicam um espaço estruturado para venderem seu artesanato na cidade. E brigam por algo básico: água encanada, embora uma tubulação passe perto da aldeia, que tem cerca de 300 moradores, dos quais aproximadamente cem são crianças.

- Torcemos que o título de patrimônio não seja só um nome bonito. Que sirva para que olhem para os povos tradicionais e suas necessidades. E que acabe com a discriminação, que muitas vezes sofremos na cidade - diz o líder indígena Roque Benite.

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