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Na Amazônia, grileiros tomam estrada às vésperas de reforma

OESP, Nacional, p. A12
31 de mai de 2005

Na Amazônia, grileiros tomam estrada às vésperas de reforma
MP investiga grilagem de terras da União em área da BR-319, desde o anúncio de investimento de R$ 100 milhões na rodovia

Fazenda Kikão, Fazenda Néia, Grupo Maggi, Grupo Thiago são as placas dos "donos" da BR-319 fincadas no meio da floresta, ao longo da rodovia, desde o anúncio do investimento de R$ 100 milhões na recuperação da estrada, feito no início deste ano pelo governo federal.
Os grileiros vendem terras a paranaenses, amazonenses e rondonienses, que preparam "seus" territórios derrubando e queimando as árvores que lhes fazem obstáculo. As condições da estrada são tão ruins que é impossível um caminhão de grande porte recolher a madeira comercializável, que fica abandonada depois de derrubada para abrir as "brocas" (clareiras).
O Ministério Público Estadual investiga há dois meses, com ajuda do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), seis nomes de grileiros que fazem negócio com as terras da União ao longo da BR-319.
"Os nomes estão sob sigilo, mas a maioria é do Sul do País. Não sabemos se ligados ao MST (Movimentos dos Sem-Terra)", disse o promotor Lauro Tavares da Silva, do Careiro Castanho, a 102 quilômetros de Manaus, onde nasce a BR-319 depois de uma travessia de balsa da capital, que dura uma hora.
A reportagem do Estado chegou até o início do trecho crítico da grilagem, trafegando em uma estrada destruída, com um arremedo de manutenção feita pela Embratel, que tem algumas antenas na área. Há trechos onde a mata estreita-se na pista, mal deixando espaço para um carro.
O ponto final da reportagem foi uma ponte na altura do km 260, que acabara de ser destruída por um caminhão, na última quinta-feira. Para chegar àquela altura da pista, foram, só de ida, mais de quatro horas entre buracos, atoleiros e quatro balsas.
"Em sobrevôos, dá para ver o estrago na floresta. O que se vê passando na estrada são as brocas abertas, mas para trás, há quilômetros desmatados pelos grileiros", conta o chefe da unidade do Careiro Castanho do Incra, José Brito Braga Filho.
Segundo Brito, ao longo dos primeiros 400 quilômetros da estrada, há cerca de 500 lotes demarcados pelo Incra há mais de 15 anos. Desses, segundo ele, mais da metade está desocupada por conta das condições da estrada. "Nossa surpresa foi termos notícia de que os grileiros chegam até de helicóptero na estrada, já que há trechos que são intrafegáveis", destaca José Brito.
O coordenador do Sindicato dos Trabalhadores Rurais da área do Careiro Castanho, Francisco do Nascimento Nogueira, afirma que os agricultores, ao longo dos últimos 15 anos de decadência da estrada, foram abandonando seus terrenos. "Os mais teimosos, como eu, ficaram. E agora se vêem ameaçados por gente que se diz dona da terra depois que o Ministério dos Transportes disse que vai fazer a reforma na BR-319".
Uma das autoras da denúncia ao Ministério Público foi Nilda Torres de Castro, presidente da comunidade São Sebastião do Igapó-Açu, que fica na altura do km 250 da estrada. Um trecho onde crianças brincam com bolas e bolinhas de gude no meio da estrada tomada pelo capim alto. "Denunciamos as invasões que percebemos que começaram a ocorrer no final de fevereiro, quando ouvimos anunciar que iriam asfaltar a estrada", conta Nilda.

Uma história de abandonos
Diante das dificuldades, muitos deixaram tudo para trás
Os fazendeiros órfãos da BR-319 agora se preocupam com as invasões de grileiros, atraídos pelo anúncio da recuperação da estrada.
Investiram pesado em gado e fazendas ao longo da estrada que, nos últimos 15 anos, ou abandonaram totalmente ou esqueceram por períodos longos seus terrenos, por conta da impossibilidade de manutenção com as péssimas condições da estrada.
"Tinha uma área em sociedade na altura do quilômetro 180, mas vendi a preço de banana", conta o comerciante José da Silva Printes.
O comerciante diz que amigos fazendeiros, por volta de 1995, quando já não havia a menor esperança de a estrada ser restaurada, até abandonaram o gado que tinham. "Os bichos, coitados, morreram à míngua ou foram comidos por quem arriscou ficar."
Dono de pelo menos 27 mil hectares divididos em três fazendas, Augusto Zigart Filho lembra o dia em que trouxe a pé o gado que tinha na mais distante das fazendas, a do quilômetro320. "Não tinha a menor condição de entrar caminhões, então foi necessário trazer a pé."
Augusto Zigart conta que está ensaiando uma ida à fazenda do quilômetro 320, onde há um caseiro. "Parece que tem grileiro entrando na minha área. Não sei como vou lidar com isso, não há segurança para aquelas bandas", diz.
Dono de uma fazenda na altura do quilômetro 90, Mauro Almeida Prado torce pela retirada dos grileiros e para ser "séria" a intenção do governo em recuperar a estrada.
"Acredito que só a estrada poderia reavivar a Zona Franca de Manaus e tirar o transporte da mão do cartel dos balseiros da região", defende o fazendeiro.

Francislia, 18 anos, grávida de 7 meses e longe de tudo
COMEÇO: Grávida de 7 meses, Francislia de Oliveira Malgueiro, de 18 anos, limpava um caititu, que lembra porco-do-mato, em seu casebre de palha, quinta-feira. Depois salgaria os pedaços e os colocaria ao sol. "Geladeira não tinha nem na casa de minha mãe", conta. O marido, com quem mora no Km 200 da BR-319 há 3 meses, ajudava um amigo "do sul" a capinar perto dali. Francislia diz ter um pouco de medo. "Passo o dia todo sozinha, porque ele fica com o grupo dele capinando para abrir 'brocas' por aí." Ela diz que, quando se casou, há 6 meses, foi morar na casa do sogro. "É muito longe aqui, mas pelo menos o terreno é nosso, meu marido comprou do amigo. Na verdade, está pagando com o serviço de capinar outros terrenos", diz. Francislia fez o primeiro ultra-som há duas semanas, em Manaus, viajando os 200 quilômetros metade a pé e outro tanto de carona.

OESP, 31/05/2005, Nacional, p. A12

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