Diario de Cuiaba
Autor: Claudio Oliveira
17 de Mar de 2008
Inaugurado em 1973, o principal lugar representativo da cultura indígena em Mato Grosso, está passando por uma reforma muito bem vinda
Uma verdadeira toca de onça. Assim definiu certa vez o Museu Rondon o indigenista Antonio João. Hoje, Antonio vê com muito gosto o trabalho que pôs abaixo as paredes e que está dando ao Museu uma nova cara, a cara do seu acervo; a própria onça, bela, poderosa e com todas as jóias brilhando como devem estar.
João ri ao explicar a analogia:"Você conhece toca de onça? Fede à distância, é feia e suja, mas nela habita um dos mais belos animais, a onça é linda. Assim estava o nosso museu, quase sem visitas, fora dos roteiros turísticos da capital e totalmente abandonado." Ouvir Antonio João falando do alto dos seus sessenta anos é um prazer que todos deveriam ter, sabedoria empírica de quem conhece a lida, de quem habitou com os índios e bebeu junto a eles o conhecimento oral ancestral de tantas etnias.
Antonio é batizado Bororo, e faz parte da Associação dos Amigos do Museu Rondon(ASAMUR), responsável pela reforma. Ele é o indicado pela ASAMUR para acompanhar diretamente as obras em andamento que devem segundo ele, "revitalizar o museu", aliás, o que ele espera além disso é reviver os Xaray(ou Xaraés, como são mais conhecidos) e vivificar os Umutina. É claro que não há apenas um jogo de palavras, existe muito entusiasmo e amor em tudo que eles estão buscando.
A revitalização do Museu está em andamento, o espaço está recebendo vidros, expositores novos que ocuparão o antigo balcão com vidro que inclusive já machucou diversas crianças e era uma barreira arquitetônica aos cadeirantes, por exemplo, e também uma área especial para guardar o acervo técnico, peças que não estão em exposição ou que precisam de um trato antes de integrarem o acervo. Os novos expositores são verticais, trazem um novo conceito que atende efetivamente ao maior público do museu, as crianças de 1 e 2 graus e claro, os cadeirantes.
No caso dos Xaray, a responsável é a arqueóloga Caia, do Instituto Homem Brasileiro. Os Xaray são de certa forma uma pesquisa de uma vida, e esta estará presente na exposição de abertura que será na semana do índio. Os Xaray eram uma tribo muito forte no século XVI e XVII. Eles eram homens altos, que possuíam uma cultura material em desenvolvimento quando foram contatados pelos espanhóis. O Mar de Xaraés já faz parte do imaginário local, apesar das pessoas desconhecerem por completo a existência desta tribo e sua cultura.
O vivificar é uma bela história. Os Umutina foram dizimados na década de 40. Os órfãos foram criados por outras tribos sem falar a sua própria língua e sem conhecer a sua própria cultura. De uns anos para cá, um grupo de jovens, herdeiros Umutina, reuniu-se com auxílio da professora e Mestre Naine Terena, filha do indigenista Antonio João, para resgatar a sua própria memória. Conta Antonio que "eles chegaram a sua casa e sentaram na frente da televisão. Eles não falaram nada, eu também não. Até que perguntaram meu nome e ao me apresentar me disseram: nós precisamos conversar com você. Eu praticamente enterrei os últimos Umutina, e poderia contar um pouco sobre eles mesmos. Não sou de me emocionar facilmente mas, quando vi o grupo se apresentar disse: Nossa finalmente." Este é reconhecimento do outro, é ver vivo novamente, reviver ou vivificar.
Outras surpresas estão a caminho, além do apoio do programa Petrobrás Cultural para esta revitalização(quase R$ 100 mil), o museu conta com um apoio de Furnas para a construção de um anexo que vai repatriar as peças encontradas e catalogadas com a implantação da Usina de Manso(mais ou menos 20 mil, de louça chinesa a diversas cerâmicas de diferentes povos brasileiros), hoje elas estão na Universidade de Goiás. Outra agradável notícia é a reconstrução da Oca, salvo engano é a quinta oca, um símbolo de resistência e de vida compartilhada por tantas etnias que chega a assumir um sinônimo de índio, onde há um deve haver o outro.
O Museu foi fundado em 1972, abriu as portas em janeiro de 1973. Tem em seu acervo 1275 peças, todo catalogado e informatizado. Uma caixa de jóias que guarda um acervo rico até para os próprios indígenas que às vezes desconhecem objetos antigos da sua própria etnia, objetos levantados por Rondon no primeiro contato, no início do século passado.
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