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Mundo está em colapso pela 'enésima vez', na visão de Maureen Bisilliat

Valor Econômico - https://valor.globo.com/
06 de mar de 2020

Mundo está em colapso pela 'enésima vez', na visão de Maureen Bisilliat

Maureen Bisilliat, a fotógrafa que traduziu o Brasil em imagens, revê sua trajetória em exposição e filme

Por Thiago B. Mendonça - Para o Valor, de São Paulo

Aos 89 anos, Maureen Bisilliat não dá sinais de cansaço. Em meio ao lançamento do filme autobiográfico "Equivalências - Aprender Vivendo" e da exposição de imagens "Agora ou Nunca - Devolução", em cartaz no Instituto Moreira Salles de São Paulo, ela faz planos para projetos futuros e reflete a partir do vasto material criado ao longo de sua trajetória. Filme e exposição falam de seu trabalho nas últimas cinco décadas e, entre outras coisas, o retorno da artista a lugares onde fotografou no passado e suas reflexões a partir dos caminhos que percorreu.

De origem inglesa, Maureen foi desenraizada pela vida. Filha de um diplomata argentino e de uma pintora inglesa, ela passou grande parte da juventude em contato com línguas e culturas de países diferentes. Chegou ao Brasil, seu país de adoção, em 1957, e por aqui se estabeleceu. Não à toa, ironiza as muitas pessoas que a tratam como estrangeira. Conquistou esse direito após mais de 60 anos vivendo por aqui. Quantos conheceram o "Brasil profundo" como ela? Quantos brasileiros tiveram relação tão amorosa com nossa literatura?

Conversar com Maureen é viajar por sua obra e pelas reflexões de uma pessoa que aprendeu a pensar por imagens. O tempo só aguçou o seu humor. Antes que a reportagem fizesse qualquer pergunta, ela já se diverte com o nome do jornal: " Valor Econômico ', eu digo assim, brincando e não brincando, como sair do vermelho? Porque não é para se lastimar, mas a verdade é: quando você faz uma coisa autonomamente, te dá um enorme enriquecimento como energia, como vida, não? Agora, tem que saber como, digamos, 'tirar de Pedro para dar a Paulo'. Para fazer uma coisa como produtora pequenina, leva muito tempo. Então você tem que saber fazer este jogo de estar em outras coisas para pagar [as contas], querer muito fazer".

Produzir a si própria, para Maureen, "drena a energia". A autonomia gera insegurança, mas também uma profunda sensação de liberdade e aprendizado constante. Não só para ela, mas para os envolvidos em seus projetos. "Eu acho que vale a pena, a gente aprendeu muito fazendo 'Equivalências - Aprender Vivendo'", diz. "O filme veio por um caminho de muitos anos. Seis anos com um jovem editor, Felipe Lafé, em que passamos cinco dias por semana fuçando nos muitos trabalhos de vídeo. Tinha filmes já feitos, tinha muitos pedaços de vídeo, entrevistas como você está fazendo, viagens que eu fiz. Então, depois de uns seis anos, deu para fazer um roteiro solto. O filme tem 1h30. Muito difícil é reduzir o filme, porque geralmente tem coisas que são tão preciosas para você que você diz: 'Que pena que eu vou ter que (cortar)..."

Para Maureen, é um reencontro com sua trajetória, e para os mais novos, uma possibilidade de se aproximar de "pessoas muito especiais, como Orlando Villas-Bôas [1914-2002], Darcy Ribeiro [1922-1997], Burle Marx [1909-1994], o filho do Che Guevara". Maureen contou com apoio do Instituto Moreira Salles - que comprou parte de seu acervo em vídeo, o que possibilitou o desenvolvimento da pesquisa - e da editora Vento Leste, de Monica Schalka, que bancou a maior parte da pós-produção.

Retornar e retrabalhar o passado é, para ela, "literalmente, uma extensão de vida", porque a obriga a trabalhar com horários rigorosos (oito horas por dia) e um editor com quem acabou criando certa familiaridade.

"Tem acertos e muitos desacertos, muitas brigas, muitos encantamentos. Mas tem que ter uma continuidade e tem que saber que não vai ser fácil acabar."

A dificuldade nesse filme era imensa, a começar pelos diferentes materiais: além das fotos, havia imagens em VHS, super-VHS, miniDv, Super-8, 16mm, 35mm. Mas o mais difícil, diz, foi lidar com os agradecimentos, onde "você esquece o próprio pai", e os direitos musicais. "Cismei que era importante, essencial, utilizar músicas que faziam parte da minha vida. Um inferno. Porque ali eram músicas que vão de Thelonious Monk até '[Sonho de] Ícaro', do Biafra."

Um desafio foi voltar, muitas décadas depois, a espaços onde trabalhou. "Uma ou outra vez encontramos uma pessoa 50 anos depois. É um perigo fazer isso, mas no interior não tanto. Sabe por quê? Lá você não vai entrar em colisão, em choque, porque as coisas não mudaram na sua essência." Esse é, para Maureen, um dos segredos de seu trabalho: "Me perguntam o que une os livros [de fotos] que eu faço. É que são pessoas, são regiões que ainda não perderam sua essência".

É essa intuição de desvelar um Brasil desconhecido que lhe permitiu mergulhar nos anos 1960 e 1970 em regiões ainda pouco exploradas. Para ela, sua identidade de mulher estrangeira influía pouco nas relações que estabelecia. O importante era esse mergulho solitário, criando proximidade com o universo que retratava.

A volta ao passado com o filme foi também uma possibilidade de redescobrir coisas que ficaram esquecidas. "Estou revendo fotografias que eu fiz nos anos 60 e que eu pintava com ecoline, tintas semitransparentes. Fiquei meio encantada." Percebeu também nesse processo a forte presença de seus conhecimentos de artes plásticas na forma de fotografar: " "É clara, em toda composição, a ideia da luz e sombra".

Mas ela não considera sua obra uma novidade no cenário brasileiro. Fala com generosidade de Pierre Verger (1902-1996) e Marcel Gautherot (1910-1996), que considera seus precursores. "Meia geração antes da Claudia (Andujar) e eu. Eram maravilhosos. De certa maneira, Gautherot era ainda melhor, porque ele viveu quando as tradições eram feitas para as próprias pessoas. Por exemplo, os bumbas, os guerreiros, os brincantes populares eram feitos por eles para eles. Hoje, tendem a ser um evento."

Pergunto se essas tradições estão se perdendo. Ela pondera: as tradições se "renovam até não mais renovar. Você vê o samba: hoje é uma espetacularização tremenda. Antes não era assim". "No mundo inteiro é o mundo do espetáculo. Agora, você não pode deixar o saudosismo excluir o cenário de evento popular. Por exemplo, ainda segui os guerreiros de Alagoas, lá no campo, umas dez pessoas e eu, indo de lugar para lugar. Eles faziam os reisados. Mas, na última vez que fiz isso, já a prefeitura tinha um lugar. Não dá para criticar. É um outro mundo", diz. "Por outro lado, os blocos de rua se renovaram. São Paulo tem um monte de blocos. Eu acho que o povo tem a sua força. Não se deixa destruir."

Em seu vasto trabalho, chama atenção a relação com a literatura. Muitos foram os autores com quem estabeleceu um diálogo criativo: Euclides da Cunha, Mário de Andrade, João Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto, Jorge Amado, Ariano Suassuna... Ela considera as obras literárias bases fortes para a aproximação com a cultura, mas isso não se deu a partir de um projeto tão claro: "Eram várias causas. O negócio dos caranguejeiros com o João Cabral veio depois de ter feito uma reportagem sobre os homens de caranguejo com Audálio Dantas. Anos depois eu associei isso ao livro 'Cão Sem Plumas'".

O caminho percorrido no livro "O Turista Aprendiz", de Mário de Andrade, foi menos um encontro com o universo retratado pelo escritor e mais um mote para adentrar a Amazônia: "Não era tanto encontro, porque a gente filmou do rio para a costa, porque achamos um barco que andava a oito metros da costa, raríssimo. Então filmamos assim".

Já Guimarães Rosa foi uma descoberta. Quando seu amigo José Olympio Borges lhe deu o livro, não sabia ao certo se ela compreenderia o universo mítico de Guimarães. Ela não só compreendeu como se apaixonou. Fez questão de conhecer Guimarães, que lhe ajudou a desenhar o percurso que depois ela faria fotografando.

Hoje, diz, as viagens não poderiam ser repetidas da forma como foram feitas na época. "Eram viagens prazerosas. Porque eram de ônibus. Mas era a época em que, no ônibus, você abria a janela e não tinha televisão. Então era ótimo. Agora ir de ônibus é terrível, porque tem o ar-condicionado, você não abre janela, não respira bem e tem televisão. Era precário, mas esse era o bom da coisa."

O sucesso dessas empreitadas era absoluto, pois elas abriam portas de um Brasil até então pouco explorado, que naquela época chamava atenção dos que viviam na cidade. O segredo para Maureen era que "a precariedade das nossas viagens era nossa facilidade. Por quê? Quando voltávamos ao conforto, eu e meu marido, tínhamos uma galeria de arte popular, voltávamos com as peças, com as fotos, todo mundo se interessava. Na revistas, por exemplo, na 'Realidade', 'Quatro Rodas'... porque era o novo".

Mas o que seria hoje a descoberta? Nossa viajante aqui hesita. Respira e começa a pensar no mundo atual: "Agora, o importante é achar o desconhecido. Seria um relacionamento da pessoa com esse mundo em mudança rápida". Um mundo onde as pessoas viverão muito mais e onde o fazer manual desaparecerá. Essas mudanças, segundo Maureen, é a razão para o Brexit e para as reformas previdenciárias: "Tudo isso não é problemática de um país. Essa espécie de revolta, essa espécie de severidade, de direitismo, isso são consequências desse mundo que está realmente assustando pelas mudanças incríveis". O maior risco para ela está no "homem renegado", vivendo "já meio morto", sem possibilidades de ser incorporado.

O Brasil atual a assusta, como a assusta o mundo. Os descontentamentos crescem, assim como as diferenças entre os que têm e os que não têm nada. Se percebe o mundo em efervescência, o conhecimento de quem viveu quase um século a faz matizar um pouco a urgência contemporânea em conseguir respostas para as crises que se multiplicam: "É a enésima vez, em proporções diferentes, que o mundo passa por esses momentos. E eu cultivo esse negócio de ver documentários históricos, porque te põe mais na realidade das coisas, porque às vezes a gente idealiza o mundo como era".

Maureen lembra-se então de seu país de origem, a Inglaterra. Pega como exemplo a mãe de Charles Chaplin, retratada na autobiografia do cineasta e ator. Ali encontramos uma miséria absoluta: "A mãe de Carlitos entrava e saía de manicômios. Por quê? Por falta de pão para comer. Uma loucura!". Cita o trabalho de Bill Brandt, fotógrafo que retratou as minas do Norte da Inglaterra no pós-guerra: "A situação que essas fotos nos mostravam era de miséria absoluta, com casas de tijolos sem janelas e famílias miseráveis vivendo com precariedade". Para ela, imagens como essas fazem com que relativizemos um pouco as mazelas do presente, sem que, no entanto, esqueçamos do que há de novo e terrível.

É a arte novamente que dá a chave para a reflexão de Maureen. Ela lembra, para pensar este novo momento, de dois escritores: Aldous Huxley, autor de "Admirável Mundo Novo", e George Orwell e seu "1984": "Essas pessoas já estavam prevendo este mundo que está começando rapidamente a mudar. Então, talvez a nossa pequeniníssima maneira de retratar, documentar, sirva para tempos na frente (dizermos) 'Ah, mas então o mundo era assim!'". Para ela, um dos papéis centrais da fotografia e do audiovisual hoje é trabalhar a memória, "tentar juntar o passado que pode surgir lentamente do olhar". As imagens podem ser um elemento de conexão, um diálogo que permite às pessoas "se prepararem para as mudanças".

Na conversa sobre seu vasto trabalho, lembramos da importância de suas fotos no Xingu, ao longo dos anos 1970 e 1980, que resultou também no filme "Xingu/Terra" (1981), um dos primeiros que dirigiu. Esse trabalho foi fruto de sua parceria e amizade com o sertanista Orlando Villas-Bôas, de quem filmou anos depois, em 2002, o funeral, na cerimônia Kuarup, realizada no Parque Indígena do Xingu, reserva que ele ajudou a criar.

Ao ser questionada sobre esse trabalho, ela diz que não fala muito do Xingu "porque eu acho que é 'infalável'. Não falo. Mas o momento é tão grave, é gravíssimo, e, de todas as coisas que a gente pode considerar negativas ou perigosas, é o mais perigoso, porque o resto se pode retomar". Ela se refere aos ataques ao meio ambiente e à crescente invasão aos territórios indígenas. Lembra de uma frase de Villas-Bôas no início do filme, quando diz que a essência do índio é a terra, base para a existência de sua cultura.

"A essência é a terra. Então perder a terra é perder a maneira de viver como se vive, e aí vai escada abaixo. Então eu acho que é mais perigoso. Veremos!" Quando se aproximou do sertanista, ele lhe deu uma sugestão: "Não precisa mostrar o índio debaixo da ponte, mostre ele na força da tradição para as pessoas verem a perda que isso será, se acabar, verem o ponto de equilíbrio que essas sociedades ao longo do tempo souberam criar."

Outro ponto que a entristece é o Pavilhão da Criatividade do Memorial da América Latina, em São Paulo, que ela ajudou a conceber, a pedido de seu amigo Darcy Ribeiro: "O Memorial da América Latina tem uma parte amarga para mim, eu espero que o novo diretor esteja atento, porque, nos últimos anos, acabou-se praticamente. Foi uma pena. Aquele deslumbre, aquela coerência, aquilo tudo já não existe".

Apesar das coisas ruins que vê no presente, Maureen não desanimou do Brasil. Ao contrário, ela continua vendo com olhar generoso o país que escolheu para viver, critica pouco e vê muitos pontos fortes. O grande defeito para ela é justamente o descaso com o passado, que se reflete na forma descuidada com que a memória e o patrimônio cultural do país são tratados.

A proximidade dos 90 anos não a desanima e, se há uma certeza, é que ela pretende seguir trabalhando: "Estou menos e menos querendo viajar e mais e mais querendo fazer. Coisas que posso fazer sem viajar. Por exemplo, esse negócio da foto pintada".

Questiono se ela não pretende viajar mais. Neste momento, ela lembra de Ariano Suassuna e do livro que ele escreveu em sua homenagem, "Maurina e a Lanterna Mágica". Diz que pretende fazer um trabalho em cima do livro e do universo cultural da obra do mestre paraibano, buscando inspiração nos seus escritos para sua pesquisa imagética: "Isso é uma aventura. Tem que ser feito assim com uma plasticidade, para as pessoas compreenderem. As últimas obras de Suassuna são complicadas e nunca foram publicadas. Então estou esperando fazer isso". Se literatura não é uma coincidência no trabalho da fotógrafa, a palavra foi determinante para sua passagem da fotografia para o uso do vídeo: "Era palavra sob bretudo, a palavra falada sobretudo".

Ela se apropria com muita naturalidade das novas tecnologias e gosta de se utilizar delas em seu trabalho. A curiosidade com o novo não arrefeceu com o tempo. Quando pergunto sobre o futuro, Maureen afirma que pretende continuar até onde conseguir, pois o trabalho a renova, é sua fórmula mágica para estender a vida.

"Até que eu tenha a possibilidade de fazer, eu resisto bem. Francamente, eu acho que lido bem com esse mundo novo, dentro das minhas condições. Porque eu vivo nele, não me queixo demais. Leio sobre ele naquilo que eu sei compreender", diz Maureen. "Mas, no momento em que eu não souber traduzir, digamos, a minha realidade materialmente em outra, que que seja um pedaço de papel, que seja qualquer coisa... até lá eu acho que estou bem", afirma. "Quando você pensa que, por exemplo, em 1945, 40 anos já era terceira idade... (Oscar) Niemeyer tinha 105 anos... Não sei como ele se sentia nos últimos 5 anos, nunca perguntei. Mas ele resistiu, não?"

Valor Econômico, 06/03/2020, https://valor.globo.com/

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