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Multiplicação dos peixes

O Globo, Razão Social, p. 10-11
19 de Out de 2010

Multiplicação dos peixes

Martha Neiva Moreira
martha.moerira@oglobo.com.br

Do aeroporto de Congonhas (SP) até Avaré são quase quatro horas de carro por estradas retas, que mais parecem um tapete. De um lado e outro da pista, o que se vê são quilômetros de plantações de eucalipto alternando-se com pastagens. A paisagem é triste. A floresta de árvores altas, com troncos finos, parece não ter vida, e a quantidade de área desmatada para pasto é muito grande em relação ao número de cabeças de gado. O cenário desolador, porém, não foi suficiente para aplacar a expectativa do que eu veria mais adiante: a soltura de 70 mil peixinhos nas águas da Bacia do Paranapanema, fronteira natural entre os estados de São Paulo e Paraná.
O evento é tão curioso quanto divertido. Ele é feito pela Duke Energy, empresa norte americana de geração de energia que tem oito usinas ao longo do Paranapanema. Todos os anos, para compensar o impacto ambiental de suas represas na biodiversidade local, ela promove a soltura de 1,5 milhões de alevinos - ou peixes jovens criados em cativeiro - nas águas calmas do rio. Desde 1999, quando começou a operar no Brasil, a empresa já soltou 16 milhões deles.
A operação é uma verdadeira farra e encanta crianças como Vinícius Gonçalves, 12 anos. Em plena quarta-feira à tarde, ele matava aula para ver pela terceira vez a soltura.
- Não perco uma! Os peixinhos vêm meio dormindo e quando chegam no rio acordam e saem nadando. É uma alegria só! - contou o garoto.
E é mesmo. Eles são pequeninos - não têm mais do que dez centímetros de comprimento. Os que foram soltos quando estive lá eram coloridos: bagres prateados e amarelos. Foram trazidos em tanques, em cima de caminhões, com água e uma solução anestésica.
- O procedimento é necessário para que os peixes não fiquem se debatendo no trajeto e morram - disse Sandro Britto, biólogo e consultor de Meio Ambiente da Duke Energy.
Quando chegam ao local onde serão soltos, desta vez a margem do camping clube de Avaré, os alevinos são tirados dos tanques em bolsas plásticas ainda meio 'dopados' e jogados num tobogã, por onde escorregam até o rio. Quando mergulham na água, despertam e nadam rapidamente. A cena perece de desenho animado.
Talvez por isso a criançada adore e dispute espaço ao longo do tobogã para não perder um momento do espetáculo.
Foi isso que fizeram os 30 alunos de escolas públicas de Avaré, convidados pelo programa de Educação Ambiental da empresa para assistir a última soltura, em setembro. A cada leva de peixes, a garotada gritava e batia palmas com entusiasmo.
Ao final, ficaram em silêncio e ouviram as explicações de um técnico da Duke sobre o porquê de todo o processo de reprodução e soltura.
- Nunca tinha visto, mas estava curiosa para saber como era - disse Bianca Oliveira Arruda, 10 anos. - Eles falaram que os peixinhos são soltos para ajudar a manter a vida no rio - completou a menina.
É isso também, mas o objetivo maior da operação é manter a variabilidade genética na Bacia. A empresa faz pesquisas para saber as espécies que estão ameaçadas na Estação de Hidrobiologia e Aquicultura, que fica no reservatório de Salto Grande, próximo de Avaré. O local é um núcleo de pesquisa criado pela Duke Energy, em parceria com universidades públicas de São Paulo e Paraná.
- Lá fazemos pesquisas e a reprodução de nove espécies, das 170 que existem na Bacia do Paranapanema. As reproduzidas são as que têm dificuldade de sobreviver no ambiente das represas - contou Sandro Britto.
E isso acontece, segundo ele, porque o represamento das águas tem um efeito direto sobre a quantidade de alimentos, pois reduz o material orgânico em suspensão; e sobre o fluxo de correntes do rio, necessário para levar algumas espécies ao local de reprodução durante a Piracema.
- Em bacias maiores, como as da região norte do país, a construção de reservatórios não causa tanto impacto na reprodução dos peixes. Há muitos afluentes para onde eles podem se deslocar. No Paranapanema, as barragens criam uma sucessão de lagos sem tantas saídas - disse o biólogo.
As espécies reproduzidas são também as preferidas dos pescadores profissionais. Por isso a operação de soltura tem um impacto direto na produtividade das mais de 25 colônias de pesca da Bacia do Paranapanema. Em uma delas, Aldeia de Pesca Bairro do Aterradinho, próxima a Avaré, a média diária é de 15 quilos de peixe. Eles são vendidos na beira da estrada.
- Quando o dia está bom eu chego a pescar 20 quilos. Com a venda ganho um pouco mais de um salário por mês - contou José Marcio de Abreu Junior, pescador novato na região que mora com mulher e filhos na Aldeia do Aterradinho.
Assim como ele, mais 150 pescadores, todos profissionais, vivem na Aldeia, que tem apenas duas ruas de chão batido, paralelas ao rio. Ao todo moram ali cerca de 50 famílias nas pequenas casas, uma ao lado da outra, algumas de madeira outras de concreto. Todas vivem do rio, como costumam dizer. As moradias têm luz elétrica e fossa. Há, na vila, uma pequena venda e dois restaurantes, um deles só de peixe e responsável pela compra de 200 quilos por mês dos pescadores locais. A dona do estabelecimento, que funciona há um ano ali, Ana Maria Barros Santos, de 48 anos, garante que compensa o investimento.
- Consigo ganhar R$ 1 mil mensais - contou.
Outra que vive do rio é Madalena de Araujo, 55 anos. O marido é pescador e é ela que vende os peixes. Na casa, com dois quartos, sala e cozinha, ela tem dois refrigeradores cheios. O quilo do peixe pode custar de R$ 5 a 8, dependendo da espécie. Com a venda deles consegue em média dois salários por mês. Nos quatro meses em que a pesca é proibida, ela vende galinhas e o marido, como outros pescadores legalizados, ganha um salário desemprego.
Um dos peixes mais procurados, segundo Madalena, é a Piracanjuba. Ele é grande, com carne saborosa, e até poucos anos atrás estava desaparecendo da Bacia em função da pesca predatória. Hoje, segundo Joel Machado, espécie de pescador-chefe da Aldeia, já é visto novamente no Paranapanema. O Piracanjuba foi uma das espécies que voltou ao rio por conta do trabalho de repovoamento da Duke Energy.
- Sabemos disso, pois conseguimos fazer um monitoramento constante com os pescadores para saber o que estão pescando.
Usamos também um método de monitoramento genético dos peixes que soltamos no rio - contou o biólogo Sandro Britto.
A quase extinção da espécie é o reflexo de um dos principais problemas que os pescadores profissionais do Paranapanema têm enfrentado: a pesca predatória na Bacia, agora cheia de resorts que anunciam como atração a atividade pesqueira. Outra questão é a falta de informações básicas sobre como preservar a Bacia e seu entorno, o que impacta diretamente na preservação das espécies do rio. Um terceiro nó entre os pescadores locais é a falta de informações sobre o processo de legalização da profissão.
Algumas dessas questões são tratadas nas palestras que profissionais da área ambiental da Duke Energy oferecem para as escolas e para aldeias de pescadores. Em 2002, por exemplo, a empresa foi procurada por pescadores de aldeias próximas à usina de Capivara, no Paraná. Eles pediam que a empresa abrisse um canal de comunicação entre eles e órgãos ligados a atividade pesqueiras, pois precisavam tirar dúvidas em relação ao cotidiano da profissão.
- Criamos um programa junto com as prefeituras das cidades e outros órgãos, que durou até 2006. Teve ótimos resultados, os pescadores conseguiram se organizar - contou Miguel Conrado Filho, gerente de Meio Ambiente da Duke Energy.
Hoje, cerca de 120 deles integram a cooperativa Colônia de Pescadores de Jataizinho, cidade próxima a Capivara.
Apesar do bom resultado, a empresa não o reproduziu em outras aldeias desde então.
- Esta ação foi isolada. A Duke só agora começou a criar um planejamento de trabalho social. Estamos em fase de mapear as necessidades das comunidades da Bacia para entender o que precisam. Há 75 cidades ao longo da Bacia, onde atuamos. Muitas são paupérrimas e têm necessidades variadas. Só a partir deste mapeamento é que vamos criar as ações mais efetivas - contou Miguel Conrado.
Há 11 anos no país, a Duke Energy acaba de formar uma equipe para planejar ações na área de sustentabilidade. Embora tenha projetos de preservação ambiental e na área social, o primeiro relatório de sustentabilidade só deve sair em 2012.

A repórter viajou a convite da Duke Energy

O Globo, 19/10/2010, Razão Social, p. 10-11

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