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Multinacionais querem boicotar soja para defender a Amazônia

OESP, Vida, p. A16
25 de Jul de 2006

Multinacionais querem boicotar soja para defender a Amazônia
Elas cogitam seguir relatório do Greenpeace que associa produção do grão a desmatamento. Leia mais no portal estadao.com.br

Cristina Amorim, Paulo Sotero

Supermercados, fabricantes de alimentos e cadeias de fast-food na Europa, entre elas o McDonald's, dizem que não comprarão mais soja amazônica e seus derivados com origem ilegal.

A decisão é resposta a um relatório feito pela organização ambientalista Greenpeace que liga a produção do grão no bioma com o desmatamento, publicado ontem pelo jornal britânico The Guardian. Segundo a ONG, a soja plantada em áreas desmatadas alimenta frangos na Europa que param na mesa do consumidor.

As cadeias de fast-food McDonald's e KFC, os supermercados Tesco, Sainsbury's, Asda e Morrisons, e a fabricante Unilever ficaram com medo de que o exigente consumidor europeu deixasse de comprar seus produtos por causa do passivo ambiental e pressionaram fornecedores para garantir a legalidade do grão.

Ontem, associações ligadas aos produtores e exportadores lançaram uma moratória para o setor. Durante dois anos, eles não comprarão o produto de qualquer nova área aberta na Amazônia para plantio, e prometem se reunir com o governo para definir um zoneamento econômico-ecológico para a Amazônia. A medida não atinge áreas já abertas.

"Empresas como a Cargill, a ADM, a Bunge e a AMaggi são hoje fomentadoras do desmatamento na Amazônia e o Greenpeace continuará a chamar a atenção para isso", diz Sérgio Leitão, diretor de Políticas Públicas do Greenpeace no Brasil. O diretor de Comunicação da Bunge, Adalgiso Telles, afirma que a intenção da empresa é auxiliar os produtores a seguirem a legislação. "Se existe a lei, ela tem de ser cumprida."

Em entrevista à BBC, Sérgio Barroso, presidente da Cargill Agrícola S.A., a subsidiária da empresa americana no Brasil, anunciou que "trabalhará com organizações não-governamentais e com todas as companhias para garantir que a soja seja produzida em áreas apenas já desflorestadas há vários anos".

A Cargill está na berlinda desde que instalou e começou a operar um terminal portuário no Rio Tapajós, em Santarém, com base em autorizações precárias do governo do Pará e liminares da Justiça. O padre Edilberto de Moura Sena, que já foi ameaçado de morte por sua militância contra o plantio de soja em terras públicas desflorestadas e griladas na região de Santarém, diz que "a primeira demonstração da sinceridade da Cargill deve ser a de obedecer a lei e apresentar o estudo de impacto ambiental que deveria ter sido feito antes da construção do terminal".

MAPEAMENTO
Segundo o diretor do Greenpeace na Amazônia, Paulo Adário, a identificação da soja proveniente de áreas de desmatamento será feita a partir do mapeamento das propriedades rurais e das áreas remanescentes de floresta. "Não interessa se o desmatamento é legal ou ilegal; estamos falando de desmatamento zero", disse Adário. "Se o produtor desmatou para plantar, sua soja não será comprada."
O mapeamento, segundo ele, caberá a um grupo de trabalho com representantes de todos os setores envolvidos.
Com Herton Escobar e The Guardian

Aumenta pressão contra a destruição da floresta

A secretária eletrônica e a caixa de e-mails do bispo da Igreja Anglicana de Liverpool, James Jones, ficaram lotadas na semana passada de mensagens preocupadas com a rápida destruição da Amazônia pelo avanço do agronegócio. Eram reações a uma mensagem que Jones mandara, de Manaus, às paróquias e organizações de sua diocese, ao final de um simpósio que percorreu áreas de desflorestamento e de preservação durante quase uma semana, organizado pelo patriarca ecumênico de Constantinopla, Bartolomeu I.

A informação mais importante para os não iniciados produzida pelo simpósio é que a Amazônia exerce uma função reguladora do clima muito mais importante do que a de pulmões do mundo. "A Amazônia é o grande estabilizador da atmosfera e os efeitos de sua redução já produzem um círculo vicioso que leva à diminuição das chuvas e da evaporação na região e altera o clima em outras regiões", disse Antonio Nobre, cientista do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA).

Segundo Nobre, a seca do ano passado na região amazônica, a redução dos índices de chuvas e umidade no Centro-Sul do Brasil e o aquecimento das águas do Golfo do México, que alimenta furacões como o devastador Katrina, estão todos relacionados com a destruição da Amazônia. Para Thomas Spencer, do Institute for Environmental Security, de Londres, "o agronegócio brasileiro não depende de terras na Amazônia para se expandir e a continuação do desflorestamento vai provocar falta de água em áreas onde estão mais de 95% da soja e de outros cultivos".

OESP, 25/07/2006, Vida, p. A16

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