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Autor: Micael Olegário
06 de Jul de 2026
Mulheres tecem cultura e bem-viver em quilombos do agreste pernambucano
Em meio à falta de titulação e às adversidades climáticas, mulheres fazem da ancestralidade um caminho para a resiliência
Por Micael Olegário | ODS 11
Publicada em 6 de julho de 2026 - 09:14 - Atualizada em 13 de julho de 2026 - 09:54
(Garanhuns - PE*) - Na zona rural de Garanhuns, agreste pernambucano, mestra Zeza do Coco recebe um grupo de visitantes para conhecer o Quilombo Castainho. Com uma voz tranquila e um sorriso no rosto, ela apresenta o espaço cultural que ajuda a contar a história da comunidade, iniciada em meados do século XVII.
Foi com a intenção de resguardar as tradições e a ancestralidade quilombola que Maria José Lopes Isídio, nome de Zeza, decidiu começar a cantar. Em letras do samba de coco, ela descreve como a cultura e a natureza se entrelaçam no cotidiano da comunidade, por exemplo, no cultivo e beneficiamento da mandioca.
São mulheres como Zeza que encabeçam a luta das populações quilombolas da Caatinga. Também na zona rural de Garanhuns, Edivane Lopes e Aparecida Nascimento Oliveira se dedicam para tecer um futuro com mais justiça social e ambiental para o Quilombo Estivas.
Por que suíça pernambucana? Porque querem embranquecer a cidade. Garanhuns é terra de quilombo, é terra de resistência
Edivane Lopes
Coordenadora da Associação de Mulheres Guerreiras Quilombolas do Castainho
Nos dois territórios, a Associação de Mulheres Guerreiras Quilombolas do Castainho e o Coletivo de Mulheres Negras Flores de Dandara são exemplos de organizações guardiãs da cultura e do meio ambiente. Ao mesmo tempo, as duas entidades contribuem com autonomia financeira e o empoderamento das mulheres quilombolas.
A visita aos Quilombos Castainho e Estivas fez parte das experiências de imersão da Caatinga Climate Week. Realizado entre os dias 1o e 3 de julho, o evento tem a proposta de mostrar as soluções climáticas e a potência sociocultural de comunidades e povos tradicionais do bioma.
Quilombo Castainho
Logo na entrada ao Espaço Cultura Mestra Zeza do Coco, a imagem de Maximina Lopes está pintada na parede. A avó de Zeza foi uma das mulheres pioneiras para a formação da comunidade e uma das inspirações da mestra e educadora popular do Quilombo Castainho.
"Sempre gostei de observar a minha avó e de ouvir os mais velhos. Minha avó ficava contando as histórias e cantando um coquinho dela e eu observando", descreve mestra Zeza. Apesar do talento inato, Maximina não gostava de cantar em público, uma dificuldade que a neta também teve de enfrentar no início.
Incentivada por outras pessoas da comunidade, Zeza decidiu começar a se apresentar junto com outros membros da família e, aos poucos, o espaço cultural ganhou forma. Hoje, o local serve também para aulas de percussão e capoeira aos jovens da comunidade.
"A mandioca está na história da nossa comunidade", conta Zeza. Em parceria com o Sebrae, a Associação de Mulheres Guerreiras Quilombolas do Castainho trabalha para resgatar a culinária tradicional com produtos feitos a partir da mandioca, principal cultivo da comunidade.
Titulação e ameaças
Ao todo, cerca de 350 famílias vivem no território, que fica há 5 km de Garanhuns e 230 km da capital Recife. Ao lado do Quilombo Conceição das Crioulas, em Salgueiro, o Castainho é um dos únicos parcialmente titulados em Pernambuco. Além disso, a busca por políticas públicas é um desafio cotidiano.
A cidade de Garanhuns é chamada por algumas pessoas de "suíça pernambucana", em virtude do clima mais ameno em relação a outros locais do estado. Coordenadora da associação das mulheres do Castainho, Edivane Lopes critica essa imagem idealizada e o racismo institucional que ela carrega.
"Por que suíça pernambucana? Porque querem embranquecer a cidade. Garanhuns é terra de quilombo, é terra de resistência", enfatiza Edivane. Ela comenta ainda sobre os desafios relacionados às mudanças climáticas que afetam justamente a produção da mandioca.
Edivane comenta ainda sobre as ameaças e pressões que a comunidade sofre, o que resulta em diferentes tipos de insegurança. "Sem território nós não conseguimos de fato gozar das políticas públicas e de todas as nossas vivências", acrescenta a bacharel em Direito e integrante da Comissão Estadual de Articulação das Comunidades Quilombolas de Pernambuco.
Quilombo Estivas
Também na zona rural de Garanhuns, a Terra Quilombola Estivas conta com cerca de 220 famílias que vivenciam um contexto de desafios semelhantes, principalmente, pela falta de titulação e pelas ameaças às lideranças. Atualmente, o território está em processo de delimitação da área e aguarda a publicação do RTDI (Relatório Técnico de Identificação e Delimitação).
Agente comunitário de saúde e coordenador nacional da Conaq (Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas), Marinho da Estiva denuncia o racismo estrutural e a intimidação, inclusive, com tentativa de invasão de casas de líderes da comunidade.
Como exemplo da exclusão de direitos básicos, Marinho cita a priorização das obras de acesso a uma vinícola recém instalada no município, em detrimento da demanda histórica da comunidade por estradas melhores.
Clima e gênero
No Quilombo Estivas, as mulheres assumem novamente o protagonismo no cuidado da terra e das pessoas. "A gente não sabe mais quando chove, está bem gritante a questão do clima. Garanhuns nunca foi tão quente, como nos últimos anos. A gente sempre foi acostumada com o friozinho e agora temos que viver no calor", descreve Aparecida Nascimento Oliveira.
No território, Aparecida é responsável por coordenar as cerca de 70 integrantes do Coletivo de Mulheres Negras Flores de Dandara. A iniciativa promove oficinas de artesanato, gastronomia, costura, dança, música e percussão. O trabalho é realizado no Espaço Agroecológico Dona Mira, local que homenageia outra liderança feminina importante para a história da comunidade.
"O nosso público assíduo é muito feminino mesmo. Isso é bom, porque é mais empoderamento dentro dos territórios, são mais mulheres lutando por políticas públicas e abrindo os horizontes para que outras mulheres se juntem a essa grande roda", destaca Aparecida. O protagonismo feninomo nesse movimento ajuda a conectar o debate climático com as discussões sobre equidade de gênero.
Além do espaço cultural, o projeto de defesa do bem-viver na comunidade inclui um projeto piloto de biodigestor, instalado na residência de Rosa da Silva Santos e Vicente Pereira dos Santos. A ideia é mostrar a viabilidade e arrecadar recursos para atender mais famílias.
Um momentos marcantes da visita ao Quilombo Estivas, durante a Caatinga Climate Week, foi o plantio coletivo de uma muda de baobá. Árvore sagrada para as culturas de matriz africana, o baobá é conhecido por possuir um tronco largo, capaz de armazenar cerca de 120 mil litros de água.
*O repórter Micael Olegário participou da Caatinga Climate Week a convite do Instituto Socioambiental (ISA)
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