O Globo, Razão Social, p. 4-5
Autor: CAMPOLINA, Adriano
03 de Mai de 2011
'Mudanças no clima também geram exclusão'
Desastres ambientais passam a ser foco da ActionAid
Amelia Gonzalez
amelia@oglobo.com.br
Há 38 anos atuando fortemente para tentar ajudar comunidades muito pobres, especialmente da África e Índia, na extinção da pobreza extrema, a ONG inglesa ActionAid mudou o foco. Certa de que os desastres ambientais, cada vez mais iminentes, estão profundamente conectados com a miséria, este ano todas as atividades da ONG têm a questão socioambiental muito presente. Engenheiro agrônomo, mineiro, Adriano Campolina ficou muitos anos à frente da diretoria de segurança alimentar da entidade e hoje está, há pouco mais de dois meses, na diretoria da ActionAid aqui no Brasil. Para ele, a questão ambiental não é só o meio ambiente: está profundamente ligada à nova pobreza, contra a qual o Brasil terá que aprender a lutar.
O Globo: O que fez a ActionAid passar a pensar em estratégias também para ajudar comunidades a não serem atingidas pelos desastres naturais?
Adriano Campolina: Nosso foco sempre foi o combate à pobreza, mas fomos percebendo que a forma como se faz isso precisava mudar. Essa questão ambiental começou a ficar muito mais aguda recentemente. É mais ou menos assim: podemos fazer um trabalho junto aos agricultores, envolvendo mais as mulheres no processo, ajudando a fazer uma agricultura mais sustentável. Mas, e se não chove? E se chove demais? E se vem uma tsunami? Em 2008 tivemos uma crise financeira mas também uma crise climática muito forte, com mais incêndio, secas, enchentes, desastres naturais com os quais não estávamos habituados. E começamos a perceber, no trabalho feito com as próprias comunidades, o drama do impacto causado pelas mudanças climáticas. A crise financeira traz o desemprego, mas a crise ambiental tira o território porque a casa inunda e a pessoa passa a não ter o que comer porque não há como produzir alimentos em terrenos.
O Globo: E esse tipo de situação dramática acaba sempre prejudicando os mais pobres, não?
Campolina: Na verdade, clima e poder estão muito relacionados. Você vê: quem são os mais vulneráveis quando tem enchentes? São os que moram na beira do rio ou em favelas. Mas eles só moram aí porque não têm dinheiro para comprar uma casa mais para cima. Tem um exemplo recente que pode ilustrar bem essa vulnerabilidade dos mais pobres: veja o terremoto que aconteceu no Japão e o terremoto que aconteceu no Haiti. O do Japão foi mais forte e morreu menos gente do que no Haiti. Estive em Porto Príncipe uma semana depois do terremoto: a cidade caiu. E o poder do país tanto para negociar com os doadores como para ajudar a população é muito menor. Mas essa é só uma faceta dessa relação de natureza e poder, há outras.
O Globo: Quais são as outras facetas?
Campolina: O acesso aos recursos, por exemplo. Quem tem mais acesso aos recursos para diminuir sua vulnerabilidade e ficar mais resistente àquela situação são, justamente, as pessoas que precisam menos. O fazendeiro que tem dez mil hectares de soja tem mais recursos próprios e acesso aos recursos públicos com mais facilidade do que o agricultor do semiárido que tem 10 hectares.
O Globo: Bem, não me parece que essa seja uma questão muito fácil de resolver. Como a ActionAid pretende se envolver nisso?
Campolina: Antes de mais nada, nós queremos trabalhar, sempre junto com as comunidades, para tentar diminuir sua vulnerabilidade às mudanças climáticas. Primeiro, buscando formas de produção que sejam menos suscetíveis. Como por exemplo: ao invés de plantar só feijão, é possível buscar sistemas mais diversificados, que tenham plantio de várias espécies de plantas. Se você diversifica, a chance de sucesso é maior e, por outro lado, a produção sustentável, por si mesma, aumenta a resiliência. Sabe aquela velha história do cesto cheio de ovos? Se você põe todos os ovos num cesto só e ele cai no chão, perde tudo. Já se você distribui em dois cestos, o prejuízo será menor. Trabalhamos também a questão do manejo, o aproveitamento da água da chuva e, principalmente, trabalhamos no sentido de organizar as pessoas para que elas percebam que têm direitos e que possam ver o vizinho como um companheiro que tem os mesmos direitos.
O Globo: Esse tipo de produção diversificada na agricultura é cada vez menos comum, não?
Campolina: Mas é muito importante para todo mundo que os pequenos agricultores lutem para continuar preservando seus pedaços de terra e produzindo, mesmo sofrendo uma pressão danada por parte daqueles que querem só plantar eucalipto, por exemplo. Porque quanto menos diverso é o ecossistema, mais vulnerável ele fica às enchentes e secas. A ironia de tudo é que, ao ficar vulnerável, quem sofre mais não é o eucaliptal ou o dono do eucaliptal: é aquela comunidade porque ela já é excluída, já está numa região de maior vulnerabilidade, de maior exclusão. É exclusão antiga, de 500 anos: vêm os filhos dos fazendeiros querendo mais terra e vão jogando os produtores para os cantos. Quando tem uma chuva violenta, o que acontece? A sede da fazenda vai muito bem, a não ser em casos extremos, claro. Onde é que você vai ver desmoronamento, onde não vai passar mais carro? Naquela estradinha vicinal. A estrada boa, em geral continua boa., Aquele cara que está lá resistindo, produzindo seu milho, seu leite.. quando vem o desastre climático é ele o primeiro que vai ficar sem renda. Porque o caminhão da cooperativa não consegue chegar lá para comprar o leite, porque o feijão vai estragar, porque a erosão na terra dele é maior porque o pobre vai para a pirambeira enquanto o o agricultor rico vai para o platô.
O Globo: Você fala em crise alimentar, o diretor do Banco Mundial, John Briscol, fez um alerta sobre isso em pronunciamento no início do mês.Quais são as causas dessa crise?
Campolina: Uma delas é a concentração de mercados do alimento. Você tem hoje - no mundo nteiro, não é só aqui no Brasil - uma concentração nos setores. Desde a venda das sementes para o agricultor até a venda de insumos para o agricultor; desde o recolhimento da produção do agricultor até a transformação, o agregar valor e depois distribuir isso para o varejo. Todos esses setores se concentraram. Você tem hoje muito menos produtores de sementes, muito menos produtores de insumos e muito menos supermercados, com o argumento de que, concentrando, a comida vai sair mais barata. Mas, no fim das contas, essa concentração leva a um poder de barganha das empresas tão grande que elas conseguem comprar mais barato do agricultor e vender mais caro para o consumidor. A outra causa é o aumento da demanda, mesmo. O fato de você ter incluído no Brasil, China e Índia, muito mais pessoas que aumentaram a procura por alimentos. E tem ainda o aumento da demanda de alimentos para fazer combustível. E a questão climática, com os desastres naturais diminuindo o espaço da produção agrícola.
O Globo: O relatório do IPCC, em 2007, ajudou a ActionAid a mudar sua estratégia?
Campolina: Sem dúvida. O Protocolo de Kioto era quase só uma agenda ambiental, o IPCC abriu os nossos olhos no sentido técnico. Mas as próprias comunidades foram nosso principal termômetro. Quando visitávamos para oferecer possibilidades de ajuda, em vez de as pessoas trazerem só questões como falta de estrada ou de emprego, começamos a ouvir que a safra tinha sido perdida por causa de seca ou enchente.
O Globo: Seus apoiadores estão de acordo com essa necessidade de mudar a estratégia?
Campolina: Com certeza. A sustentabilidade virou uma questão da sociedade. E a gente quer trabalhar com campanhas, vincular o tema da pobreza com o tema ambiental. O Brasil começa a superar a pobreza, mas vai passar pelo desafio da pobreza da exclusão gerada pelas mudanças climáticas. Se a temperatura no Nordeste aumentar em 3 graus, como está previsto num relatório feito pela Embrapa, a área de feijão vai diminuir profundamente,ou seja, aumenta muito a possibilidade de quebrar a safra do feijão. Assim também no semiárido, na Caatinga, que são justamente as áreas que mais sofrem. Estamos trabalhando com esse cenário, em mitigação e adaptação. Porque já estamos no meio da crise, começando a sofrer os efeitos. Se for olhar a recorrência desses fenômenos, já não parece mais um ponto fora da curva.
O Globo, 03/05/2011, Razão Social, p. 4-5
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