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A mudança é possível e desejada

O Globo, Economia, p. 28
Autor: PEDERSEN, Bjarne
19 de Mai de 2010

A mudança é possível e desejada
Para diretor da Consumers International, governos precisam avançar na agenda verde

Entrevista: Bjarne Pedersen

O diretor de operações da Consumers International (CI), entidade de defesa do consumidor com 220 afiliadas de 115 países, Bjarne Pedersen, saiu otimista da 18aconferência do fórum da Comissão de Desenvolvimento Sustentável (CDS), que aconteceu na sede da ONU em Nova York, na semana passada. Em entrevista ao GLOBO por e-mail, ele alerta que a atual crise econômica é uma oportunidade única para a implementação de um novo paradigma de produção e consumo mundial. E garante: "A mudança é possível e desejada por grande parte da população do mundo".

O Globo: Como o senhor avalia o estágio das conversações sobre o desenvolvimento sustentável nas Nações Unidas?

Bjarne Pedersen: É claro que as questões sociais e ambientais têm se agravado desde a primeira conferência da ONU sobre meio ambiente e desenvolvimento, em 1992 (a Rio 92). Na última Cúpula da Terra, em 2002, houve o reconhecimento universal de que os padrões insustentáveis de consumo têm graves impactos ambientais e sociais em todo o mundo. Foi acordado que, para alcançar o desenvolvimento sustentável, governos, empresas e organizações da sociedade civil precisam trabalhar juntos para reduzir esse impacto. É evidente que há um grande apetite para a produção e o consumo sustentáveis (PCS). A grande questão é se os governos terão coragem e vontade política para fazer avançar essa agenda.

O senhor está otimista?

Pedersen: São decisões difíceis. Mas a Consumers International (CI) acredita que podemos avançar com uma agenda de desenvolvimento baseada na redução da pobreza, na justiça social, no crescimento verde e global e na equidade intergeracional.
À medida que avançamos para a próxima Cúpula do Rio, em 2012, precisamos de um quadro ambicioso, claro e factível de programas PCS e economia verde.

Há tempo para mais discussão?

Pedersen: O tempo está se esgotando.Se uma ação não for tomada logo, perderemos a possibilidade que a atual crise econômica e ambiental oferece para reformularmos o paradigma econômico. Uma economia verde significa nada menos que transformar o paradigma, e não apenas os planos e instrumentos. Os objetivos econômicos não podem continuar a prevalecer sobre os ambientais e sociais. Esse nível de mudança é possível e desejado por grande parte da população mundial.

Quais são os próximos passos?

Pedersen: O Rio de Janeiro sediará o ápice desse processo, em 2012. Haverá também um encontro regional no ano que vem, provavelmente no Chile. E há países latinoamericanos à mesa para essa cúpula, dez pessoas estão no centro do processo. Mas é claro que, assim como os estados, a sociedade civil também participa e desempenha um papel muito importante.

Um documento final, listando responsabilidades, deverá sair no encontro do Rio, em 2012?

Pedersen: É o que eu espero. Esse será um ano de revisão, o documentochave da política virá em 2011. Este ano, a Comissão de Desenvolvimento Sustentável vai produzir documentos essenciais, que definirão a política para o próximo ano. Tudo isso virá junto, em 2012, no Rio, onde nós esperamos, sob a liderança do Brasil, chegar a um acordo sobre uma mudança de paradigma urgente para uma economia verde. Gostaria de ver, em 2012, uma convenção internacional sobre responsabilidade corporativa e uma perspectiva para estilos de vida sustentáveis com base na equidade social e econômica e na proteção do ambiente.

É possível mostrar que o consumo sustentável e uma economia verde também podem ser rentáveis para as empresas?

Pedersen: Essa é uma percepção crescente. Algumas empresas estão começando a pensar a longo prazo, em termos dos impactos ambientais sobre os ecossistemas que seus negócios dependem.

Os consumidores no Brasil e da América Latina estão mostrando mais preocupação com as futuras gerações ao comprarem?

Pedersen: Cada vez mais, embora o processo seja mais lento do que no mundo desenvolvido, particularmente em relação aos países da União Europeia. Mas há uma série de pesquisas de opinião pública mostram que mais e mais consumidores nos países latino-americanos estão preocupados com os impactos ambientais do seu consumo. Infelizmente, essa preocupação não tem sido acompanhada por um envolvimento sério por parte dos governos nacionais e da indústria.
(Emanuel Alencar)

O Globo, 19/05/2010, Economia, p. 28

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