Valor Econômico, Internacional, p. A19
Autor: CHIARETTI, Daniela
25 de Mai de 2016
Mudança climática afeta as economias ao elevar o preço dos alimentos
Daniela Chiaretti
Se o preço dos alimentos dobrar, em um choque súbito provocado por um desastre climático, o PIB chinês pode perder US$ 161 bilhões, e o da Índia, US$ 49 bilhões.
Investidores estão buscando entender qual o risco para a economia e os negócios das alterações provocadas pelas mudanças climáticas. Dois estudos inovadores foram debatidos ontem, na Unea-2, a grande conferência ambiental das Nações Unidas que reúne mil delegados de 190 países esta semana em Nairóbi, no Quênia.
Um dos estudos, chamado "Erisc Phase II", simulou o que acontece na economia de 110 países diante de um súbito choque de alimentos, provocado por alguma alteração climática.
A ideia de pesquisadores do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e do centro de estudos Global Footprint Network (GFN) foi dobrar o preço de alimentos e analisar o impacto disso no PIB, no balanço em conta corrente e na inflação.
Egito, Marrocos e as Filipinas, que combinam grande importação de commodities com altos gastos das famílias em alimentos, sentiriam as maiores reduções de PIB, do balanço de pagamentos e alta da inflação. China, Indonésia e Turquia também seriam fortemente impactadas.
Nove países se beneficiam da situação, com alta do PIB, como o Brasil, Austrália, Canadá e os EUA, porque são "exportadores de grãos ou superpotências agrícolas", diz o estudo. Mas os ganhos são muito menores que as perdas. Diante das perdas chinesas, o maior ganho no PIB, que é dos EUA, é uma fração, com apenas US$ 3 bilhões.
"A mensagem mais importante do estudo é a que mostra que o preço dos alimentos é um dos mais importantes canais pelo qual os riscos ambientais afetam as economias nacionais", diz o economista Steven Stone, chefe do departamento de economia do Pnuma.
Esse efeito, em escala menor, ocorre atualmente por conta do fenômeno climático El Niño. A Índia passará este ano de exportadora a importadora de açúcar, depois da seca causada pelo El Niño ter causado uma quebra na safra, levando a produção de açúcar a cair ao menor nível em 7 anos. O preço interno do açúcar subiu 36% desde outubro de 2015.
O estudo, publicado em conjunto com instituições financeiras, mostra ainda que os países com maior perda percentual de PIB estão todos na África: Benin, Nigéria, Costa do Marfim, Senegal e Gana.
"Queríamos saber, e os investidores também, se o impacto da mudança do clima poderia ou não mudar os ratings", disse ao Valor Moritz Kraemer, chefe de rating soberano da Standard & Poor's, sobre o estudo da S&P.
"A resposta a esta pergunta é: provavelmente não há ainda alterações nos ratings dos países em função da mudança do clima. Mas queremos ser mais específicos. O estudo busca trazer mais transparência e informação a essas questões", disse. "Uma coisa é dizer que a mudança do clima é ruim. Claro que é.
Mas é ruim para o rating?" O inédito relatório da S&P foi lançado em novembro, pouco antes da conferência de Paris, a CoP-21. A ideia, para quantificar o impacto da mudança do clima na economia e nos ratings, foi simular ciclones e cheias que ocorrem uma vez a cada 250 anos, em uma amostra de 38 países.
O resultado foi que, se para alguns países os riscos nos ratings soberanos são quase negligenciáveis, para outros, como economias do Sudeste Asiático e do Caribe, as notas ficariam sobre "grande pressão". O Brasil estaria no caminho de descer um ponto.
A repórter viajou a convite do Pnuma
Valor Econômico, 25/05/2016, Internacional, p. A19
http://www.valor.com.br/internacional/4576719/mudanca-climatica-afeta-e…
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