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Autor: Maryelle Campos
07 de Jun de 2026
Mato Grosso está entre os estados com menor incidência de morte de indígenas do país. Enquanto a taxa nacional foi de 24,6 por 100 mil habitantes, o estado ficou com 11,1. Os dados são de 2024 e fazem parte do Atlas da Violência 2026, publicado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).
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O estado está no caminho inverso do aumento observado nos dados mais recentes. Em 2024, o Brasil registrou 248 mortes indígenas, já Mato Grosso registrou 4. Durante a série histórica do país, iniciada em 2014, o estudo aponta para uma tendência de redução e flutuações, no entanto alerta para o "ponto de inflexão" em 2023, quando os números voltaram a subir.
O crescimento de mortes de indígenas contrasta com a queda na taxa nacional, que atingiu 20,1 a cada 100 mil habitantes em 2024. Segundo o levantamento, a taxa de homicídios de indígenas em 2024 foi aproximadamente 22% superior à taxa nacional.
"Tal dissociação sugere que os fatores que explicam a queda da violência no plano nacional não operam com a mesma intensidade - ou sequer incidem - sobre os contextos que envolvem populações indígenas", afirma. A violência letal entre indígenas é marcada por disputas territoriais e está ligada ao que é chamado de "fenômeno enraizado", conforme destaca o estudo.
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"Diferentemente do padrão predominante de homicídios no país, associado à violência urbana e ao crime organizado, a violência contra a população indígena tende a se concentrar em áreas de fronteira econômica, marcadas por disputas territoriais e pela inserção periférica em circuitos econômicos, sejam eles legais ou ilegais", destaca o estudo.
Para a Dra. Ana Claudia Trettel, professora e pesquisadora da Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT), que trabalha com saúde indígena, a subnotificação de mortes de indígenas no estado pode estar relacionada, tanto com a ausência de um profissional da saúde no território, quanto a hábitos culturais. Ela enfatizou que Mato Grosso possui mais 40 etnias espalhadas, o que também dificulta um olhar microscópico.
"As informações podem ter um conflito quando acontece o óbito desse indígena, não tem um profissional de saúde e até que as autoridades cheguem, pode ter decorrido um tempo que ele já foi enterrado. Cada etnia indígena tem uma tradição em relação ao enterro dos seus entes queridos. Alguns têm um tempo maior para ser velado, outros têm um tempo menor. Alguns têm que ser enterrados embaixo da casa, porque eles consideram que o espírito permanece ali fortalecendo a família. Então, depende desses hábitos culturais, que são diversos", explicou.
Como explicou, após a morte e enterro, é pouco provável que algum profissional consiga fazer a remoção do corpo para realizar perícias. "Se o profissional chegou e esse indígena já foi enterrado, é muito difícil ele ser exumado, a comunidade não deixa. Então, nessas situações, algumas informações podem ficar perdidas, entre o que os familiares informam e o que o profissional vai registrar e como esse registro vai chegar para a gente poder acessar essas informações".
Realidade oposta ao lado
Apesar de Mato Grosso estar entre os estados com menor incidência de homicídios de indígenas, logo ao lado, Mato Grosso do Sul se destaca como o segundo estado com a maior taxa de homicídio entre indígenas, com 122,8 a cada 100 mil habitantes, perdendo apenas para Roraima (172,9).
O estado de Mato Grosso do Sul é classificado como "o caso mais crítico". Em termos absolutos, foram registrados 34 homicídios no ano. Para o estudo, o dado, que é menor em comparação a números de levantamentos anteriores, "evidencia a persistência de um contexto de violência crônica, no qual, mesmo com avanços, o risco de vitimização permaneceu acima da taxa nacional".
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