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Movimento indígena se divide e perde espaço

OESP, Internacional, p. A20
24 de Nov de 2006

Movimento indígena se divide e perde espaço
Luta interna afastou as entidades das comunidades, diz professor quíchua

Quito

Antes poderoso, capaz de pressionar o governo para conquistar benefícios e derrubar presidentes, o movimento indígena do Equador se dividiu e encolheu no atual processo eleitoral. Seu líder formal,o presidente da Confederação das Nacionalidades Indígenas do Equador (Conaie),Luis Macas, foi candidato à presidência, mas não passou do sexto lugar no primeiro turno de 15 de outubro, com minguados 2,19%dos votos. Um resultado inaceitável num país que tem cerca de 30% de indígenas não miscigenados e outros 35% de mestiços descendentes de indígenas.
Ao Estado, o quíchua Macas preferiu atribuir o mau resultado ao abuso do poder econômico dos adversários e minimizou as divisões na Conaie.
"A Conaie congrega várias entidades da comunidade indígena e é natural que haja divergências", declarou."Não foi esse o fator que determinou a votação pequena no Movimento Patchakutik (pelo qual concorreu),mas sim as condições desiguais da disputa."
O Tribunal Supremo Eleitoral do Equador dá razão a Macas no que diz respeito à queixa de abuso do poder econômico. Os dois candidatos que passaram para o segundo turno - o magnata conservador Álvaro Noboa e o nacionalista esquerdista Rafael Correa- Tiveram suas contas de campanha congeladas na semana passada por ultrapassarem o limite de gastos estabelecido pela Justiça.
Quanto ao caráter "natural" da divisão do movimento indígena, no entanto, há muitos que discordam. "O movimento sofreu as conseqüências de sua própria organização", explica o professor da Universidade Andina Simon Bolívar Ariruma Kowii - um quíchua que é também poeta, escritor e uma das principais autoridades em cultura indígena do Equador."
Quando emergiram em 1990, com um levante contra o governo de Rodrigo
Borja que resultou na conquista de uma reforma agrária e no reconhecimento do direito dos indígenas de ter sua cultura preservada,os grupos indígenas eram pragmáticos e objetivos. Hoje, a disputa pelo poder que fragmenta o movimento tem razões bem menos nobres que a defesa dos direitos de suas comunidades."
O sucesso do levante de 1990 levou à inclusão dos indígenas na sociedade equatoriana, até então liderada hegemonicamente pelos "criollos", a minoria branca descendente dos colonizadores espanhóis.
"Líderes indígenas passaram a administrar entidades no governo e ONGs financiadas por instituições estrangeiras. Criou-se a idéia estereotipada de que o índio, por ser índio, é puro e ingênuo, imune às tentações da política, e isso é um erro grosseiro", diz Kowii. Ele prevê que as bases do movimento indígena se dividirão entre os dois candidatos do segundo turno."
O apelo populista de Noboa entre a população mais dependente do Estado é muito forte e, embora o Patchakutik tenha declarado apoio a Correa (a Conaie, como instituição, declarou neutralidade), seu poder de convencimento é quase nulo", afirma.
Com um mapa dos resultados da eleição para o Congresso de 15 de outubro, Kowii mostra que o Patchakutik ficou sempre em terceiro ou quarto lugar em quase todas as províncias amazônicas do leste, onde a população é quase totalmente indígena. Só nas regiões onde há mais projetos financiados com recursos do governo ou do exterior é que conseguiu eleger deputados. A bancada indígena do Congresso, que era de 11 deputados,cairá para 6 na próxima legislatura.
"Isso mostra que a ideologia indigenista perdeu espaço para o clientelismo", diz Kowii. "O poder político no interior das entidades indígenas ganhou mais importância que a defesa dos direitos dos seus representados. A liderança nessas entidades significa não só prestígio, mas principalmente a administração de recursos e postos de trabalho bem remunerados para parentes e amigos. Elas se distanciaram das comunidades."
Comparando o caso equatoriano com o da Bolívia, o professor diz que a referência de organização indígena sempre foi a do Equador.
"Evo Morales surgiu nos anos 90 como um líder sindical (dos plantadores de coca da região do Chapare), que, por coincidência, era indígena. Felipe Quispe (dirigente radical do Movimento Patchakutik boliviano) era o líder indígena conhecido no exterior", afirma Kowii. "Inicialmente, a preocupação de Evo - que eu considero um líder respeitável - era o plantio da folha de coca. A defesa posterior da preservação da cultura indígena foi uma conseqüência da sua causa." ? R.L.

OESP, 24/11/2006, Internacional, p. A20

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