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Movimento de mulheres indígenas da BA realiza encontro para discutir terra, violência e gênero

Conselho Indigenista Missionário - Cimi - www.cimi.org.br
Autor: Alda Maria Oliveira e Ligia Bensadon
30 de jul de 2015

Num clima de muita energia e participação coletiva, o movimento das Mulheres Indígenas do Sul da Bahia (Comisulba) realizou mais uma atividade, no último dia 25 de julho. Desta vez a mobilização ocorreu na aldeia Mãe, da Terra Indígena Caramuru Catarina-Paraguaçu, do povo Pataxó Hã-Hã-Hãe. A ação política e de formação das mulheres foi forte como um Toré em ritual: mais de 150 indígenas se fizeram presentes para debates e troca de vivências.

A alegria tomou conta do encontro, que foi recheado pela mística de abertura, brincadeiras, músicas, depoimentos, testemunhos e trocas de experiências para o fortalecimento das lutas das mulheres, na percepção de que não estão só nesta árdua caminhada. Se somaram ao grupo, no apoio e participação, a Teia de Agroecologia, Fundação Nacional do Índio (Funai), prefeitura de Itajú do Colônia, Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Sem-Terra (MST), Paróquia da Piedade, de Itabuna, Grupos de Mulheres Pataxó Hã-Hã-Hãe do Caramuru e Água Vermelha (Pau Brasil), mulheres Tupinambá da Serra do Padeiro, pessoas da comunidade local, estudantes e pesquisadores de universidades do Rio de janeiro e de Salvador; sobre a coordenação da educadora popular Alda Maria Oliveira, do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Rizia Muniz, Claudinha, Zezé e Rafaela.

Vale lembrar que houve incontáveis contribuições da comunidade local e de amigos da cidade. Este encontro aconteceu com o objetivo de reanimar as mulheres da comunidade local a partir das experiências dos grupos parceiros presentes, no sentido de fortalecer as mesmas, saindo do isolamento.

Relatos de vida e luta

"Nós não tínhamos liberdade, éramos mandados pelo chefe de posto, aprendíamos o tempo todo a trabalhar, a ser escravo, não íamos para a escola, éramos discriminados, não tinha direito a dizer que era índio, diziam na rua 'olha os bichos', que não falávamos português direito, que andava descalço, comia carne crua", relatou Maura Titia Pataxó Hã-Hã-Hãe, uma das sobreviventes do povo Baenã.

No emocionante relato de vida, Dona Maura, como é chamada, trouxe ensinamentos a todas as participantes, dentre crianças, jovens e adultas. Trouxe a lembrança de vários das lutadoras e lutadores que junto com ela fizeram a história da aldeia e da defesa dos direitos indígenas, contra a tirania de fazendeiros e do Estado, e dos ensinamentos dos velhos que contribuíram para que ela se tornasse uma liderança. Dona Maura analisa que as mulheres são líderes também dentro da aldeia, por elas mesmas, sustentando a família em casa, cozinhando e cuidando dos filhos.

Dona Maura é uma das sobreviventes do povo Baenã, que foi dizimado na região, e por conta de seu marido ser Pataxó Hã-Hã-Hãe, sobreviveu. O registro de nascimento da indígena foi queimado pelos chefes de posto, por isso não sabe ao certo a data de nascimento. "Hoje temos nossas terras, vamos brigar por elas, vamos aprender com os velhos, vamos ouvir e buscar nossos direitos", disse.

Na sequência, Dona Maria da Glória de Jesus, da aldeia Tupinambá na Serra do Padeiro, colocou que as retomadas de territórios indígenas são garantidas pelas mulheres. "As mães têm que ensinar a cultura, incentivar os filhos a ficar na aldeia, a não tirar o colar e o maracá, a não ser empregado. Vamos sentar com Dona Maura e ouvir as histórias e dar valor a essa terra em que se derramou tanto sangue", enfatizou.

A cacique Ilza Pataxó Hã-Hã-Hãe complementou relatando os desafios em ser uma liderança mulher, da própria comunidade questionar a capacidade de liderança e das jornadas que se acumulam, dentro e fora de casa, na luta, e assim como as falas anteriores, também indicou a necessidade de valorizar o saber ancestral: "Os anciãos são as nossas faculdades".

Violência contra a mulher

Na parte da tarde, o debate foi sobre a violência contra as mulheres e as desigualdades de gênero, partindo de uma canção entoada por todas: "Do tronco da vida, mesmo ferida, nasce uma flor rindo da dor".

Nos debates, as mulheres puderam perceber como se inserem num processo histórico da sociedade que reproduz a desigualdade dentro de casa, com todas as tarefas domésticas sobre as costas, sejam jovens ou adultas. As mães, dentro de casa, acabam criando os meninos de uma forma e as meninas de outra, se colocando a serviço dos maridos e dos filhos homens, com baixa autoestima, sofrendo difamações dos companheiros e até mesmo violência verbal ou física. Esse debate é importante tanto para homens quanto para mulheres justamente para que o ciclo seja quebrado para uma sociedade com equidade e justiça, dentro e fora das aldeias.

Durante o encontro, houve também um debate, na parte da manhã, sobre a saúde da mulher, com a apresentação dos sintomas e prevenção do HPV, câncer de mama e de útero, assessorado pela equipe médica local da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai). O Toré encerrou o encontro das mulheres dos vários povos presentes.

http://cimi.org.br/site/pt-br/?system=news&conteudo_id=8238&action=read

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