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Mortes por covid-19 entre indígenas precisam virar assunto para a Comissão Interamericana de Direitos Humanos

Cimi - http://www.cimi.org.br/
Autor: Fonte: Conselho Nacional do Cimi
04 de jun de 2020

Conforme o mais recente levantamento da Apib, 178 indígenas morreram em decorrência da covid-19. São 1.809 contaminados distribuídos em 78 povos

ERRATA: DIFERENTE DO ESCRITO ANTERIORMENTE, A POSSIBILIDADE DE DENÚNCIA INTERNACIONAL SOBRE A POSTURA GENOCIDA DO GOVERNO BOLSONARO DIANTE DA PANDEMIA EM MEIO AOS POVOS INDÍGENAS DEVE SER FEITA À COMISSÃO INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS, E NÃO À CORTE. O ÚNICO ÓRGÃO QUE PODE FAZER DENÚNCIAS À CORTE INTERAMERICANA É A COMISSÃO.
Estudo da Fundação Oswaldo Cruz, divulgado essa semana, mostra que 48% de mortes por covid-19 em pacientes internados estão entre os indígenas. Neste quesito, é a maior taxa de mortalidade do país - superando as populações parda (40%), negra (36%), amarela (34%) e branca (28%). Vivemos um contexto absolutamente sombrio, sobretudo com a flexibilização da quarentena, e a pandemia pode gerar no Brasil uma situação de genocídio pela completa falta de um plano de ação para enfrentar uma situação cada vez mais dramática.

Conforme o mais recente levantamento da Articulação dos Povos Indígena do Brasil (Apib), 178 indígenas morreram em decorrência da covid-19. São 1.809 contaminados distribuídos em 78 povos. As organizações indígenas têm se estruturado para contabilizar suas vítimas. São histórias e trajetórias de luta que perderam a batalha para o vírus, mas seguirão sendo contadas para que jamais sejam esquecidas. Já os dados do governo se mostram imprecisos em face de uma metodologia aleatória, desconsiderando indígenas em contexto urbano e consolidando centenas de subnotificações.

Para o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), além de cobrar das autoridades públicas por suas responsabilidades imediatas e tomar medidas práticas e urgentes, como a distribuição de cestas básicas e insumos sanitários, que o Cimi e outras organizações inclusive têm feito em um esforço solidário, se trata de um quadro que evolui para uma denúncia internacional à Comissão Interamericana de Direitos Humanos contra o governo Bolsonaro de caso flagrante de genocídio, haja vista a forma deliberadamente desorganizada e distraída com que o Poder Executivo trata a pandemia - inclusive barrando recursos.

Os povos indígenas têm demonstrado um grande empenho em manter o isolamento social e praticar autoproteção. Do ponto de vista da assistência, porém, há uma lacuna enorme. O Ministério da Saúde não conseguiu até agora desenvolver um planejamento para combater a pandemia entre os povos indígenas. O movimento indígena indicou caminhos para se estabelecer um plano, incluindo a construção de hospitais de campanha e testagem generalizada, mas nada disso foi levado adiante.

Por omissão ou racismo institucional, o governo Bolsonaro tenta jogar vidas humanas atingidas pela pandemia para debaixo do tapete com as subnotificações a alta taxa de mortalidade entre os indígenas e o risco iminente de genocídio

Quando decidiu tomar iniciativas pontuais, se deparou ainda com a completa falta de estrutura: atendimento médico irregular e afastado das aldeias, populações indígenas urbanas lançadas ao colapso do sistema de saúde, falta de saneamento básico nas aldeias, incluindo acesso à água potável, falta de materiais de proteção nos Distritos Sanitários Especiais de Saúde Indígena (Dsei's) e condições frágeis de subsistência, sobretudo em regiões com terras não demarcadas. A fome passou a ser um problema permanente.

A Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), por sua vez, seleciona os indígenas que devem ser assistidos pelo subsistema, não atendendo os indígenas em contexto urbano ou os contabilizando entre os infectados e mortos. Na grande São Paulo, levantamento da equipe do Cimi Regional Sul indica 279 casos entre os indígenas, com três óbitos. Soma-se a isso a baixíssima quantidade de testes entre os indígenas, levando muitos a manifestar os sintomas da doença sem a sua confirmação ou se mantendo assintomáticos alheios à presença da doença no organismo.

Por omissão ou racismo institucional, o governo Bolsonaro tenta jogar jogar vidas humanas atingidas pela pandemia para debaixo do tapete com as subnotificações a alta taxa de mortalidade entre os indígenas, o risco iminente de genocídio e não permite a obtenção de um quadro completo e detalhado para que se tome medidas sanitárias adequadas a fim de evitar o genocídio de aldeias e povos. O caso é flagrante e choca a comunidade internacional.

Ocorre que o governo Bolsonaro não vem demonstrando maiores preocupações. A Fundação Nacional do Índio (Funai) se mantém sem planejamento, tomou posição contrária às barreiras sanitárias feitas pelos povos e fez gastos pífios das verbas emergenciais destinadas ao combate à covid-19 nas aldeias, por volta de 33%. Pouco ou nada também tem feito a respeito das invasões às Terras Indígenas, sobretudo de garimpeiros.

Na Terra Indígena Yanomami, estimativas do Fórum de Lideranças Yanomami e Ye'kwana dão conta de que 20 mil garimpeiros seguem operando lavras ilegais no interior do território, sendo hoje os principais vetores da doença entre a população indígena que ainda conta com grupos em situação de isolamento voluntário e secularmente alvo de epidemias levadas de forma deliberada por invasores.

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