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A morte matada de Apoena Meireles por Ari Miguel Teixeira

Rondonotícias-Porto Velho-RO
Autor: Ari Miguel Teixeira
13 de Out de 2004

Apoena Meireles foi morto sábado a noite em Porto Velho, quando saía de uma agência bancária, depois de sacar algum dinheiro em um caixa eletrônico. Até onde se sabe, ele foi morto com dois ou três tiros por um moleque que tentava um assalto. O moleque é mais um desses pés-rapados jogados na marginalidade e na inconseqüência pela falta de presente e de futuro. Quando se descobrir quem ele é, se descobrirá o retrato da juventude brasileira das periferias: marginalizada, desempregada, analfabeta e desiludida. São milhões de jovens de quem quase tudo foi tirado, menos a capacidade de querer os bens de consumo que o mercado bombardeia dia e noite como indispensáveis, neste mundo agora submetido às regras do capitalismo selvagem.

Um jovem espreita na saída dos bancos, porque no imaginário dele é lá que está guardada a bufunfa. Por intuição e observação, ele constatou que tem grana sobrando quem usa aquelas míticas máquinas que não param de despejar dinheiro, cornucópias da pós-modernidade. É lá também que ele espreita porque não há polícia por perto, nem por longe, nem seguranças privados que custam caro e os bancos estão reduzindo os custos como parte da reestruturação do sistema bancário nacional que promoverá o desenvolvimento sustentável e a lucratividade crescente e a diminuição do risco país como aliás ficou demonstrado na ata da última reunião do COPOM que ao elevar a taxa SELIC para 16,25% demonstrou sintonia com a preocupação do mercado que aponta flutuações futuras...

Mas disso ele nada sabe. As doutas lições dos economistas neoliberais ele somente aprenderia se e quando chegasse nas faculdades. Antes disso ele tem que fazer a noite render e assalta o primeiro que saí. E o primeiro que saiu foi Apoena Meireles, que foi morto sábado a noite em Porto Velho, com dois ou três tiros.

Na crônica policial, uma absoluta banalidade. No cotidiano, uma total indiferença. Qualquer um de nós poderia ter sido assassinado assim, bestamente, a sangue frio, sem qualquer razão ou justificativa, apenas porque não acredita que um moleque daqueles tem a petulância de nos ameaçar, tão fora de propósito, de hora e lugar. Se ao menos fosse um gângster, com tamanho e cara de gorila, liderando um bando raivoso, ele e eu entregaríamos a carteira com o parco dinheiro de funcionário público. Mas este tipo franzino, assaltante mais assustado que o assaltado, com uma arma que mais parece de brinquedo, é o que dispara dois ou três tiros e mata Apoena Meireles.

Ele, o assassino, não sabe a quem matou e a maior parte da população de Porto Velho e de Rondônia não sabe quem foi assassinado. Eu mesmo custo a acreditar que Apoena Meireles terminou seus dias nesta vida de modo tão gratuito, vítima da violência urbana, este chavão que mata mais do que as epidemias.

Apoena Meireles era filho de Chico Meireles, marido de Denise Meireles. Agora todos estão mortos. O pai foi o sertanista que descobriu a Rondônia na época moderna. A mulher, antropóloga, escreveu o mais importante livro sobre a ocupação do vale do Guaporé. Apoena foi um indigenista, um humanista tão ou mais importante do que Rondon. Ele contatou e garantiu a sobrevivência da quase totalidade das nações indígenas de Rondônia. Ele pacificou os brancos, ensinando a eles, colonos deslocados do sul e do sudeste, que a Amazônia não era o vazio demográfico apregoado pelos planejadores e que os Suruí, Karitiana, Gavião, Cinta Larga e Uru-eu-wau-wau eram habitantes seculares destas terras e que a ela tinham direito.

Apoena Meireles foi um indigenista, um sertanista de Rondônia. Isto significa que ele desbravou os sertões e conheceu grupos indígenas antes que as frentes de expansão de madeireiros, garimpeiros e agricultores chegassem até eles.

Na medida do possível e de seus esforços, impediu que esses grupos fossem aniquilados. Os sobreviventes devem também a ele a sua sobrevivência. Apoena estava afastado das lides de campo nos últimos anos. Quase se poderia dizer que sua verve aventureira tinha afinal sossegado. Ele fazia parte de uma estirpe de homens em processo de extinção: aqueles que colocam a causa do outro em primeiro lugar, mesmo em detrimento da própria vida. O conflito na Reserva Roosevelt tirou o pijama de Apoena e talvez tenha tirado sua vida. Ele estava aposentado da FUNAI, mas à medida que a batalha nas terras dos Cinta-Larga evolui para uma matança recíproca de índios e brancos, ele se viu obrigado a retornar a campo. E, talvez, afinal, ele não tenha tido tempo de compreender todas as nuances envolvidas na questão. Ou tenha compreendido mais do que o devido. Esta última hipótese, para quem conheceu Apoena Meireles, parece se encaixar melhor. Ele sempre sabia onde estava pisando. Afinal, ele tinha sobrevivido a décadas de excursões na floresta, mas talvez sua pedra do tropeço tenha sido um diamante.

Então a história seria outra. Um jovem, ainda que franzino, espreitava na saída do banco e esperava um cliente especial. Com dois ou três tiros liquidou a fatura. Apoena Meireles foi morto sábado a noite em Porto Velho.

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