Folha de S. Paulo-São Paulo-SP
Autor: José Eduardo Rondon
12 de Jan de 2004
O governador de Roraima, Flamarion Portela, está usando a morte de um índio, ocorrida no sábado, para responsabilizar o governo federal por um suposto acirramento na disputa entre índios contrários à demarcação contínua da reserva Raposa/Serra do Sol e os favoráveis a ela.
O Ministério da Justiça anunciou na sexta que manterá a homologação da reserva em área contínua, incluindo cidades e fazendas. Contrário à proposta, Portela (que se afastou do PT) declarou por meio de sua assessoria que usará a morte do índio "para mostrar ao governo federal que o clima entre os índios em Roraima chegou a um estágio que poderia ter sido evitado".
"Isso [a morte do índio] já acena como consequência da indecisão do governo federal em relação à questão fundiária no Estado", disse o governador, por meio de sua assessoria.
"Se ao menos o governo federal houvesse apresentado soluções alternativas para os problemas que possam vir a ocorrer com a demarcação contínua, talvez os índios estivessem mais calmos."
O Ministério da Justiça, por meio de sua assessoria, informou que não iria comentar as declarações de Portela.
Já a Polícia Civil disse que o crime aconteceu por causa de "uma bebedeira de cachaça".
O delegado da Corregedoria Geral de Polícia do Estado de Roraima, Pedro Luís dos Santos, 47, que responde pela delegacia de Pacaraima (o delegado-titular, Paulo Roberto de Azevedo Júnior, foi preso sob a acusação de peculato no final de semana), afirmou que o crime foi resultado de uma bebedeira entre índios.
Segundo o delegado, o autor do crime, o índio Jadir Amaro da Silva, 41, que se apresentou hoje à polícia, disse que voltava em companhia dos índios José Conrado Lima, 40, e Francisco Antonino, de Pacaraima para a região da Maloca Mato Grosso.
Durante o caminho, após terem bebido "muita cachaça", o trio se desentendeu. Silva disse ter sido agredido por Lima e Antonino com pauladas, revidando com facadas. Na briga, Lima morreu e Antonino foi encaminhado ao hospital em Boa Vista.
Silva, após se apresentar a polícia, vai responder por homicídio e por tentativa de homicídio, em liberdade, segundo o delegado.
A polícia não tem levantamentos sobre o número de mortes entre índios relacionados ao consumo de álcool.
Portela disse, ainda segundo sua assessoria, que "a posição do governo de Roraima é transmitir o ocorrido ao governo federal e demonstrar a total preocupação com esse tipo de violência, que pode ganhar proporções maiores".
Após o governo federal anunciar que não irá recuar da decisão de homologar como área contínua a Raposa/Serra do Sol, lideranças indígenas contrárias à medida pretendem realizar uma marcha a Brasília para levar ao ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, um abaixo-assinado.
A possível ida a Brasília para entregar o documento, segundo José Novaes, 41, índio macuxi e vice-prefeito (PFL) da cidade de Uiramutã, que fica na área da reserva, tem a intenção de mostrar ao governo que, segundo ele, a maioria absoluta dos moradores do Estado é contrária à homologação contínua da reserva.
"Já começamos a colher assinaturas, com RG, CIC [CPF] e título de eleitor, para provar que a maioria absoluta dos roraimenses aprova a demarcação da reserva em 'ilhas'. Após colhermos essas assinaturas, realizaremos uma marcha até Brasília para entregar o documento diretamente ao ministro da Justiça." Ainda não há, segundo Novaes, uma data para a realização da marcha.
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