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Morte de índio acirra conflito

Zero Hora-Porto Alegre-RS
Autor: VIVIAN EICHLER
10 de nov de 2003

Surdo-mudo, caingangue de 22 anos foi morto provavelmente a pedradas

A comunidade indígena de Nonoai está revoltada. Os índios afirmam que a morte de um caingangue surdo-mudo, provavelmente a pedradas na madrugada de sábado, teria sido motivada por vingança, na conflituosa convivência entre indígenas e brancos na região.

O corpo de Gean Amantino Pedroso, 22 anos, foi identificado no início da noite de sábado, após passar por um exame de necropsia em Erechim. Ele foi encontrado por volta de 7h de sábado, em um matagal a um quilômetro de Nonoai, no lado oposto ao da reserva. O corpo estava caído junto a uma árvore. Ontem à tarde, ainda podiam ser vistas marcas no tronco, possivelmente feitas durante as agressões, pedras sujas de sangue e uma poça coberta com terra. O cadáver tinha ferimentos na cabeça. O delegado José Roberto Lukaszewigz informou apenas que a pedra que teria sido usada para matar o índio foi recolhida.

Pedroso foi enterrado ao meio-dia, no cemitério da aldeia, no alto de uma colina, em meio à revolta da comunidade.

- Isso não é coisa de índio. Ele se dava bem com todos da comunidade - diz o primo Sadi Souza, 20 anos.

O jovem teria sido visto por volta de 22h de sexta-feira em um bar. Conforme a descrição de moradores da cidade, ele costumava ser inconveniente nos bares, pedindo cachaça.

Na reserva, os líderes alegam que Pedroso foi um alvo fácil de vingança. Conforme o cacique José Oreste do Nascimento, 53 anos, as ameaças são constantes, e os índios recebem a orientação de não saírem sozinhos da sede, onde moram mil pessoas, distante seis quilômetros da cidade.

Há quatro meses, o cacique denunciou à Justiça um agricultor que supostamente teria a intenção de matá-lo. Nascimento alega que conhecidos seus ouviram o colono acertando sua morte, por R$ 3 mil, com pistoleiros.

- Toda semana os índios são ameaçados. Até as placas colocadas pela Funai para delimitar a reserva foram arrancadas - diz o cacique.

Na versão da mãe do rapaz morto, o filho teria sido alvo fácil por ser ingênuo e não se comunicar bem com as pessoas.

- Por causa de terra, estamos perdendo a vida. Meu filho nunca fez mal a ninguém e foi morto feito bicho - lamenta Marilene Pedroso, 43 anos.

A insegurança preocupa a Funai. O administrador regional do órgão em Chapecó (SC), Antônio Izomar Marini, diz que os índios se queixam com freqüência:

- Ainda não sabemos se esse crime tem relação com a disputa de terras, mas a tensão dos últimos tempos leva os índios a associarem a este motivo.

O prefeito de Nonoai, Ademar Dall'Asta (PDT), lamentou o episódio e confirmou os conflitos:

- Esse que mataram não fazia mal para ninguém. Ele não faz parte de uns 10 ou 12 que fazem coisas horríveis para nós.

A fazenda de cerca de mil hectares do prefeito também foi demarcada como indígena. Nas terras, cerca de 20 famílias caingangues estão acampadas e detêm a posse judicial. O processo está no Supremo Tribunal Federal, diz Dall'Asta.

A comunidade estuda fazer hoje uma manifestação. É possível que alguma rodovia da região seja bloqueada, advertem os índios.

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