Folha de Boa Vista-Boa Vista-RR
20 de Abr de 2006
A realidade da saúde indígena de crianças de Roraima está sendo tema de debate do 7o Fórum Nacional em Defesa da Saúde da Criança Indígena, realizado pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e Sociedade Roraimense de Pediatria. O encontro iniciou ontem e termina hoje no auditório da Universidade Federal de Roraima (UFRR).
De acordo com a presidente da SBP em Roraima, Nynpha Salomão, o objetivo do evento é sensibilizar profissionais da área, autoridades, organizações não-governamentais, lideranças indígenas e população em geral para o problema. No evento serão identificadas as dificuldades e as possíveis soluções.
Embora dados apresentados pelo Dsei/Desae da Funasa (Fundação Nacional de Saúde) apontem queda na mortalidade no Distrito Leste de Roraima, de uma taxa de 43,09 em 2000 para 25,16 em 2005 (situação divulgada em março deste ano, com 95% dos números consolidados), ainda estão acima da média nacional de 27 óbitos por mil nascidos vivos.
No Distrito Sanitário Yanomami a mortalidade infantil saiu de 96,55 no ano de 2000 para 108,61 no ano passado. A maior alta se concentrou em 2002, quando chegou ao percentual de 113,79, mas no ano seguinte caiu para 86,85, tendo queda consecutiva em 2004, quando foi registrada a menor mortalidade infantil em seis anos: 69,84.
Mas é preciso levar em conta a tradição cultural. No caso dos yanomami, o infanticídio é a principal causa de morte entre as crianças com menos de um ano. O que pode parecer uma barbárie aos olhos da sociedade não-índia não passa de um traço cultural desse povo. A índia se isola do grupo e entra na mata quando sente que vai dar a luz. Sozinha, ela decide o destino do filho por diversas razões, como qualquer mal-formação da criança ou se o sexo não corresponde ao esperado.
Nynpha disse os números são altos, mas quando se faz uma comparação sem o infanticídio, existe uma queda de mais de 100%. "É preciso fazer uma contagem com e sem infanticídio, que é um hábito cultural. Tirando o infanticídio, a estatística seria 51,7, segundo dados do Distrito Sanitário Especial Indígena da Funasa", disse. A questão do infanticídio será tratada hoje em palestra.
Segundo ela, um dos motivos do encontro é juntamente tentar diminuir o índice de mortalidade. "O ideal é chegar a um dígito, e é exatamente esse um dos motivos de realizar esse fórum. Se der melhores condições de saúde, assistência, é lógico que vai diminuir. Como a medicina está muito adiantada, as doenças são muito controladas", afirmou.
Além da questão de mortalidade infantil, outro problema entre as crianças indígenas, tanto do Distrito Yanomami quanto do Leste de Roraima, refere-se à diarréia e infecção respiratória. O que mais dificulta o trabalho nas áreas indígenas é o acesso de modo geral. No caso dos yanomami, a única maneira de chegar é via área.
Tema - O tema deste ano foi escolhido pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) no ano passado, durante o 6o fórum que aconteceu em São Paulo (SP), devido aos altos índices de malária e de outras doenças infecciosas, como tuberculose, além da grave desnutrição e da dificuldade de acesso, que foram divulgados na mídia nacional no ano de 2005.
Estavam na abertura do fórum o presidente da SBP, Dioclécio Campos Júnior, a representante da Funasa/BSB, Maria das Graças Serafim, e Amarildo Bessa, vice-presidente do Conanda (Conselho Nacional dos Direitos da Criança e Adolescente). Também participaram autoridades, lideranças indígenas, profissionais de saúde (agentes, médicos, enfermeiros, nutricionistas e parteiras), antropólogos e estudantes.
O evento está sendo desenvolvido pela Sociedade Brasileira de Pediatria e recebe o apoio da Funasa, Secretaria Estadual de Saúde (Sesau), Nestlé, Laboratório Farma Química, Eurofarma e Conselho Regional de Saúde (CRS/RR).
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.