Diário de Cuiaba-Cuiabá-MT
Autor: ALECY ALVES
09 de Mai de 2003
Para cada mil índios nascidos vivos, 56 morrem antes de completar um ano; entre brancos média é de 29,6
Abertura do IV Fórum Nacional de Defesa da Saúde da Criança Indígena, ontem pela manhã no auditório da AMM
O IV Fórum Nacional de Defesa da Saúde da Criança Indígena, aberto ontem em Cuiabá, tornou pública uma realidade mais cruel que a vivida por milhares de crianças nos bolsões de pobreza das grandes cidades. Conforme os dados divulgados, a mortalidade infantil nas aldeias é quase duas vezes superior à média nacional de 29,6 por cada mil nascidos vivos, chegando ao triplo em algumas etnias.
De acordo com o Censo de 2001 divulgado ano passado pelo IBGE, de cada mil índios nascidos vivos, 56 morrem antes de completar um ano. O presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), Lincoln Marcelo Freire, um dos organizadores do evento, completa que em algumas aldeias as mortes passam de 100.
Freire lembrou que se há problemas de saúde na população geral, entre os índios eles se multiplicam. Na transferência de responsabilidade sobre a saúde do índio da Funai para a Funasa (Fundação Nacional de Saúde), há cerca de cinco anos, buscava-se a melhoria dos serviços oferecidos nas aldeias, o que ainda não teria ocorrido concretamente na avaliação de Lincoln Freire.
Diagnosticar as doenças que mais acometem as crianças indígenas e as levam à morte é uma das preocupações da SBP. Freire está certo que a partir de levantamos que contemplem essas informações poderia se saber como prevenir ou combater as doenças, definindo o papel de cada poder constituído no encaminhamentos dessas questões.
Na visão do presidente da SBP, a solução passa pela união dos diversos setores e a interdisciplinalidade das ações. Ele não vê bons resultados em intervenções que não incluem o respeito à cultura, costumes e a simulação de ambientes de convivência do índio no trabalho de prevenção ou tratamento das doenças.
A presidente da Sociedade Mato-grossense de Pediatria (Somape), Elizabeth Iglésias, lembrou que no terceiro fórum, sediado em Campo Grande (MS), a SBP criou um Grupo de Trabalho permanente para tratar da saúde da criança indígena. Através do qual começam a contribuir efetivamente com o trabalho de prevenção e combate às doenças. Como parte disso, hoje estará em debate a minuta do manual de atenção à saúde da criança índia que a SBP lançará até o dia da criança - 12 de outubro.
REDUZINDO AS MORTES - De 99 para 2002 a mortalidade caiu de 35,4 para 21 por mil entre as crianças indígenas do Xingu. É que há quatro anos a assistência à saúde de 4,2 mil índios de 14 etnias do Xingu, cerca de 1,2 mil crianças de até cinco anos, passou a ser responsabilidade da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), através de um contrato de tercerização da assistência à saúde.
Hoje, a direção do Distrito Sanitário em 58 aldeias está com o pediatra Marcos Schaper. Em Cuiabá para participar do Fórum, Schaper disse que as doenças respiratórias, desnutrição e anemia são as que mais matam crianças nas aldeias.
A redução, conforme ele, é resultado de um trabalho que inclui prevenção, tratamento e respeito à cultura, costumes e crenças. Como os índios acreditam que as doenças são resultado de feitiços, o médico atua em conjunto com o pajé, uma forma de fazê-los aceitar os métodos de cura oferecidos pelo homem branco.
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