Estado de S. Paulo-São Paulo-SP
Autor: (João Naves de Oliveira
03 de Abr de 2005
Artur Marques Vera, de 1 ano, é a 17.ª criança da etnia guarani-kaiowás que morre neste ano por desnutrição na região de Dourados (MS), a 220 quilômetros de Campo Grande, onde vivem aproximadamente 50 mil índios. O sepultamento foi realizado neste domingo (3) na cidade de Caarapó, divisa com o Paraguai, onde residia em uma das várias aldeias do local.
Artur estava internado havia 12 dias na Santa Casa de Campo Grande e foi diagnosticado como portador de paralisia cerebral. Morreu no sábado (2), por volta do meio-dia, depois de uma parada cardiorespiratória.
Segundo o diretor da Santa Casa, pediatra Rubens Trombini, a criança chegou ao hospital com a saúde seriamente comprometida, conseqüência de subnutrição, a exemplo de outras cinco internadas desde o início de março deste ano, das quais quatro já morreram.
Antes de serem transferidas para Campo Grande, a maioria das crianças indígenas doentes passa pelos hospitais de Dourados, principalmente no chamado Centrinho, criado pela Missão Kaiowás para atender a comunidade indígena. Sem os recursos necessários para tratar dos menores, a saída tem sido buscar socorro na capital do Estado.
Cultura e desnutrição - Desde janeiro, quando a série de mortes de crianças guarani-kaiowás começou a ser registrada, não há uma explicação aceitável por parte dos médicos, sociólogos, assistentes sociais, antropólogos e outros profissionais ligados direta ou indiretamente à questão indígena no MS.
As vítimas morrem esqueléticas com aparência transparente de que a fome foi a causa. Mas os pais não apresentam sintomas de que passam fome ou estão subnutridos.
Para o historiador do Núcleo de Pesquisa Indígena da UCDB (Universidade Católica Dom Bosco), Antônio Brand, um dos maiores estudiosos da cultura guarani-kaiowás, o maior problema pode estar no fato de esta nação indígena não tem hora para nada.
"Eles não têm hora para tomar café, almoçar ou jantar. Comem quando querem ou possuem o alimento à disposição", explicou. "Para muitas mães a alimentação principal oferecida ao filho é o leite materno. Apesar de ser rico em proteína, a partir dos 10 meses, quando nascem os dentes, o indicado seria acrescentar frutas à alimentação, o que não têm."
"Antigamente, quando a criança tinha fome ela pegava frutos silvestres, mel e outros alimentos da floresta. Hoje, não tem comida fora de hora. Se houvesse abundância de comida certamente não estariam enfrentando a desnutrição. É preciso entender a cultura guarani-kaiowás para saber o que realmente fazer para resolver esse sério problema", comentou.
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