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Molusco invasor ameaca bacias do Sul e Pantanal

OESP, Geral, p.A13
18 de Mar de 2004

Molusco invasor ameaça bacias do Sul e Pantanal Originário da Ásia, o mexilhão dourado põe em risco as espécies nativas e a produção de energia e água
EVANILDO DA SILVEIRA
O bichinho é pequeno - não tem mais do que quatro centímetros - e vem de longe, mas é capaz de fazer um estrago considerável. É o mexilhão dourado (Limnoperna fortunei), um pequeno molusco de água doce, originário do sul da Ásia, que chegou ao Brasil em 1998 e já infestou rios, lagos e reservatórios da Região Sul e do Pantanal e começa a ser detectado em São Paulo. Além de desequilibrar os nichos ecológicos aos quais chegou, pondo em risco de extinção espécies nativas, o invasor ameaça o setor elétrico brasileiro, a agricultura irrigada, a pesca e o abastecimento de água.
Com a capacidade de se incrustar em qualquer superfície submersa, como madeira, rocha, plástico e até vidro, essa espécie exótica está causando um problema tão grave que o Ministério do Meio Ambiente (MMA) teve de agir. Em 22 de dezembro, editou a Portaria n.o 494, que criou uma força-tarefa nacional (FTN), composta por representantes de 7 ministérios e 13 entidades ligadas aos setores de geração de energia, abastecimento e meio ambiente, para pesquisá-lo e tentar controlá-lo.
"A primeira ação da FTN é elaborar um diagnóstico dos problemas causados pelo mexilhão dourado, verificando até onde ele já chegou", diz Robson José Calixto, assessor para o controle de poluição marinha do MMA. "O que deverá estar concluído até o dia 22 de abril."
Lastro - A história do mexilhão dourado na América do Sul começou em 1991, quando ele foi detectado pela primeira vez no Rio da Prata, próximo de Buenos Aires. O molusco bivalve (com duas conchas, que se fecham) chegou até ali como clandestino na água de lastro de navios vindos do Oriente. No Brasil, sua presença foi registrada pela primeira vez em 1998, no Delta do Rio Jacuí, próximo a Porto Alegre. Em 1999, foi detectado no Rio Guaíba, no qual o Jacuí deságua e que abastece a capital gaúcha.
No mesmo ano, o Limnoperna fortunei foi visto na hidrelétrica paraguaio-argentina de Yacyretá, no Rio Paraná. Em 20 de abril de 2001, a espécie foi encontrada numa das tomadas de água (compartimentos anteriores às turbinas) da barragem de Itaipu, 400 quilômetros acima de Yacyretá.
"Encontramos o animal numa inspeção de rotina", explica a farmacêutica bioquímica Leonilda Correia dos Santos, responsável técnica pelo Laboratório Ambiental da Itaipu Binacional. "Desde então estamos estudando e acompanhando o mexilhão dourado. Além dos problemas que pode causar à hidrelétrica, queremos saber se há risco de causar doenças."
A equipe pôde observar sua incrível proliferação. "Em abril de 2001, a densidade do mexilhão em Itaipu era de dois indivíduos por metro quadrado", diz Leonilda. "Em setembro do ano passado, encontramos, numa das tomadas de água, uma concentração de 184 mil mexilhões por metro quadrado. Agora, o número deles reduziu-se um pouco. Uma média inferior a 100 mil por metro quadrado."
Apesar desses números, Leonilda garante que ainda não há risco de os animais prejudicarem a capacidade de gerar energia da hidrelétrica. "O único problema até agora é que tivemos de aumentar o número de manutenções preventivas."
Situação bem mais grave está enfrentando o Departamento Municipal de Água e Esgoto (DMAE) de Porto Alegre, responsável pelo abastecimento da cidade. "Em todas as nossas oito estações de captação de água no Rio Guaíba há colônias de Limnoperna fortunei incrustadas nas tubulações", explica o biólogo Márcio Suminsky, da equipe do DMAE que lida com o problema. "Elas chegam a 30 centímetros de espessura e tem cerca de 50 centímetros de diâmetros."
Segundo Suminsky, essas colônias chegam a tomar até 100 metros de canos, prejudicando a vazão. "Começamos a detectar essa perda de vazão no fim de 2000", conta. "Inspeções para descobrir a causa revelaram a presença dos moluscos."
Hoje, o DMAE tem de contratar mergulhadores, que inspecionam a tubulação e removem as colônias de dois em dois meses. Em incrustações maiores, é usado sulfato de cobre, que mata os animais. "Às vezes, a quantidade é tão grande, que temos de usar contêineres para transportá-las até um aterro sanitário", diz Suminsky.
Carona - Além dos problemas que causa, o que vem preocupando o governo e especialistas que estudam o mexilhão dourado é a rapidez com que ele se reproduz e se dissemina. Ele começa a se reproduzir ainda muito jovem, quando tem apenas cinco milímetros. "O Limnoperna fortunei se espalha ao espantoso ritmo de 240 quilômetros por ano", diz o biólogo Rodrigo De Filippo, da equipe da empresa Furnas Centrais Elétricas dedicada a pesquisar o mexilhão dourado. "Isso é mais notável para um bicho que não nada e quando adulto vive grudado em algum tipo de superfície."
Incapaz de nadar, o mexilhão dourado usa outras meios para se espalhar. Suas larvas microscópicas pegam carona no casco de barcos de pesca, turismo ou transporte de produtos por hidrovias. Por isso, uma das ações da FTN será realizar campanhas de esclarecimento, pedindo que os donos de barcos os pintem com tintas antiincrustrantes e façam limpezas periódicas com cloro.
"Por enquanto, o mexilhão está restrito à bacia dos Rios Paraná e Paraguai", diz De Fillipo. "Por isso, é importante criar barreiras sanitárias para que ele não chegue a outras bacias hidrográficas brasileiras, como a amazônica."

OESP, 18/03/2004, p. A13

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